
Hoje falarei sobre o maestro brasileiro Roberto Duarte, e o trabalho que ele tem feito em favor da divulgação das obras de Villa-Lobos.
Embora seja considerado o maior compositor brasileiro de todos os tempos, há quem diga o contrário. Tudo bem. Alguns podem não gostar de sua música, mas não é possível discordar do fato que nenhum outro compositor erudito de nosso país teve ou tem a projeção internacional que ele conseguiu. Falecido há quase 70 anos (escrevo este post em 2026) sua obra continua sendo tocada e gravada em todo mundo, por inúmeros artistas e orquestras. As obras para violão, por exemplo, são referências em toda parte, e não há professor de violão no mundo que não inclua as peças violonísticas de Villa em seu programa de ensino.
Pois bem, dito isso, é preciso acrescentar que infelizmente apenas uma pequena parcela de sua obra é conhecida pelos próprios brasileiros. Bachianas Brasileiras nº 5, Trenzinho do Caipira… muita gente só conhece essas duas peças.
Ousadia de Villa

Antes de falar do maestro Roberto Duarte e de seu trabalho, gostaria de falar um pouquinho sobre o início da carreira internacional de Villa. À sua ousadia como compositor, a sorte aliou a ajuda de algumas pessoas importantes.
Uma delas foi o compositor francês Darius Milhaud, que viveu no Rio de Janeiro, trabalhando para a embaixada francesa, entre 1917 e 1919. Esses dois anos foram suficientes para que Milhaud se interessasse profundamente pela música brasileira. E ao procurar conhecer a música carioca, não poderia deixar de notar Villa-Lobos.
Segundo Vasco Mariz, em seu livro História da Música no Brasil, Villa levou Milhaud a rodas de choro, terreiros de umbanda, a blocos de carnaval, e isso os tornou grandes amigos. Mais tarde Milhaud comporia a suíte Saudades do Brasil certamente inspirado por essas lembranças.
Trajetória Internacional

Vasco Mariz também conta como Villa se aproximou de outro grande músico da época: o pianista Arthur Rubisntein.
Rubisntein estava em Buenos Aires, quando Ernest Ansermet, maestro de prestígio internacional, lhe disse ter conhecido no Rio de Janeiro um músico excepcional. Rubinstein realmente impressionou-se com Villa e o ajudou em sua trajetória internacional, começando por gravar algumas de suas peças para piano, e ajudando-o a conseguir apoio financeiro de uma rica família carioca, a família Guinle. Graças a essa ajuda, Villa pôde ir para Paris.
Villa foi para a França em 1923, e em menos de um ano tornou-se conhecido. Em maio de 1924 organizou um concerto com obras suas, auxiliado pela casa editora Max Eschig. Essa estada em Paris o levou a ser conhecido em todo o mundo.
Até sua morte, em 1959, Villa viajou muito, regeu muitas de suas obras, fez gravações, recebeu encomendas de grandes orquestras. Mas muitos anos se passaram e hoje é necessário que outras personalidades, outros Milhauds, Rubinsteins e Guinles ajudem a evitar que a música de Villa-Lobos caia no esquecimento. E entre as pessoas que se dispõem a fazer esse trabalho está o maestro Roberto Duarte.
Valioso Registro
A Duarte deve-se o grande mérito de ter gravado com a Orquestra da Rádio Eslovaca de Bratislava várias obras de Villa que apenas ocasionalmente são tocadas no Brasil. São 4 CDs, produzidos no início da década de 90 que representam um valioso registro para quem quer conhecer melhor a obra de Villa-Lobos.
Veremos abaixo, músicas que estão entre as menos conhecidas de Villa, e serão extraídas desses Cds gravados por Duarte. Algumas peças compostas por Villa na sua juventude são: as Danças Características Africanas. Foram escritas originalmente para piano em 1914, quando o compositor tinha 27 anos, e orquestradas dois anos depois.
Para muita gente, essa foi a sua fase mais criativa, e essas danças africanas, embora sejam muito representativas desse período, continuam desconhecidas por muita gente. São três: Farrapós, kankukus, kankikis.
Apelo Rítmico

Villa-Lobos teve a ideia de escrever essas danças em 1912. Usou melodias dos índios caripunas, de Mato Grosso, que, segundo alguns, seriam mestiços com africanos. Para a época devem ter soado bastante ousadas, principalmente por seu aspecto rítmico muito acentuado. Lembremos que a grande novidade do século XX, a Sagração da Primavera de Stravinsky, também com seu forte apelo rítmico, havia estreado há apenas um ano e Villa-Lobos certamente ainda não a conhecia.
Aqui no Brasil, Roberto Duarte foi assistente de dois grandes músicos, Francisco Mignone e Eleazar de Carvalho, com quem teve a oportunidade de aprender muito. Após ser premiado no Concurso Internacional de Regência do Festival Villa-Lobos, realizado no Rio de Janeiro sua carreira internacional tem início. Entre as importantes orquestras que dirigiu estão a Tonhalle Orchester Zürich, a Ungarische Philharmonie, a Orchestre de la Radio Suisse Romande, a Slovak Symphony Orchestra, a Moscow Chamber Orchestra, a Bruckner-Orchester Linz, a Tchaikowsky Symphony Orchestra Moscow, entre outras.
O que mais chama a minha atenção no trabalho de Roberto Duarte é que, tendo a oportunidade de gravar obras de Villa-Lobos, ele poderia ter optado pelo caminho mais fácil: gravar suas obras mais conhecidas, como os Choros, e as Bachianas Brasileiras. O fato de ter escolhido obras de Villa que já estão, talvez, começando a cair no esquecimento, é muito louvável.
“Dança dos Mosquitos”
A seguir, uma obra composta em 1922, ano em que Villa participa da Semana de Arte Moderna em São Paulo: a originalíssima “Dança dos Mosquitos”. Esta é uma peça dificílima, que demanda muito trabalho dos violinistas de qualquer orquestra. Eu tive a oportunidade de estar certa vez em uma palestra do próprio Maestro Duarte em que ele louvou a extrema boa vontade dos músicos eslovacos que trabalharam com ele na gravação da peça. Vejam, portanto, Villa-Lobos no auge de sua criatividade nessa obra raramente executada.
Além divulgar a música de Villa-Lobos em concertos e gravações, Duarte tem feito um notável trabalho de revisão das partituras do mestre. Para vocês terem uma ideia da seriedade desse trabalho, ele tem sido feito sob encomenda da Editora Max Eschig, de Paris, uma das mais importantes da Europa e a primeira que editou trabalhos do nosso compositor.
Duarte publicou também no Brasil dois livros com o resultado desse seu trabalho de revisão pela Editora da Universidade Federal Fluminense; dois livros de grande utilidade para qualquer regente que se dispõe a dirigir alguma obra de Villa-Lobos.
“Origem do Rio Amazonas”
As Danças Africanas são obras da Juventude do compositor e a Dança dos Mosquitos, obra da época da Semana de Arte Moderna. Vejamos agora uma de suas obras sinfônicas de sua maturidade: o poema Sinfônico Erosão, escrito em 1950.
A obra foi encomendada pela Orquestra Sinfônica de Louisville, em Kentucky, Estados Unidos. Ela foi inspirada numa lenda amazônica que descreve a formação do Rio Amazonas. Daí o subtítulo da obra “Origem do Rio Amazonas”.
É uma obra densa, longa, séria e consistente, que mostra não o Villa-Lobos ousado experimentador da juventude, mas o metier maduro de um grande compositor de 63 anos de idade.
Relembramos algumas passagens da vida de Villa-Lobos, ouvimos obras suas pouco executadas, e destacamos o seríssimo trabalho do Maestro Roberto Duarte que, longe dos holofotes e das fogueiras de vaidades típicas da profissão, contribui valorosamente para que a música de Villa e de compositores brasileiros não seja esquecida.
Espero que tenha gostado deste post!
E aqui vai uma sugestão de livro para que continue conhecendo a obra de Villa Lobos!

Clique na imagem acima, e você irá para o site da Amazon Brasil, onde poderá ter mais informações.
Ah, e não vá embora sem antes deixar um comentário!
Saudações Musicais!