José Antônio de Almeida Prado

Era uma vez um compositor que, ao começar um novo trabalho, pensou: muitos compositores escreveram música descritiva.

Vivaldi usou violinos para imitar passarinhos. Beethoven usou uma orquestra inteira para imitar o som de uma tempestade. Saint-Sëns usou o violoncelo para simbolizar a nobreza de um cisne, deslizando sobre as águas de um lago, cujas ondas são simbolizadas por um piano.

Nosso compositor então se propôs: como eu poderia fazer para, usando os sons, simbolizar uma… estrela?

Trinado

Em princípio a tarefa não pareceu ser fácil. Mas nosso amigo compositor, criativo que é, procurou uma saída. Logo de início pensou que toda estrela cintila… ; ao observarmos uma estrela, ela parece brilhar mais e menos, mais e menos, numa velocidade fixa. Ou seja, a cintilação é uma alternância de brilho.

Então ele pensou: vamos tentar uma analogia, fazendo uma alternância de sons… que é o que em música chamamos de trinado.

Hmm… isso pode ser um bom começo, pensou nosso compositor; e pôs-se a desenvolver sua ideia!

Uma estrela grande cintila diferente… pode ser representada por um trinado mais lento e mais grave…

Possibilidades

Andreas Cellarius: Atlas cœlestis seu Harmonia Macrocosmica

Estavam abertas muitas possibilidades para estrelas de diversos tamanhos luminosidade, representadas por sons mais agudos ou graves, cintilando mais lenta ou mais rapidamente… Mas e a escuridão do espaço profundo?

Bem, os músicos costumam com muita frequência se referir a sonoridades claras, brilhantes… E sonoridades opacas, escuras…

A essa altura, nosso compositor já estava em plena efervescência criativa, sentado ao piano, procurando por sonoridades de todas as cores, brilhos e cintilações, para representar estrelas, planetas, meteoros, asteroides, galáxias, nebulosas, buracos negros…

Bem… isso é só um exemplo, com finalidades didáticas, feito por alguém que não é exatamente um compositor experiente.

Mas, eu pergunto: o que um compositor talentoso e de grande experiência poderia fazer a partir dessas ideias?

É o que fez um dos maiores compositores brasileiros da atualidade, José Antônio de Almeida Prado, ao compor uma de suas obras mais célebres: As Cartas Celestes.

“As Cartas Celestes”

Planetário do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Divulgação/ Urbia Parques

“As Cartas Celestes” nasceram quando Almeida Prado recebeu, em 1974, uma encomenda para escrever uma música que evocasse os corpos celestes, para ser tocada como música de fundo em uma apresentação no Planetário do Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Almeida Prado começou por consultar o Atlas Celeste do astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Deste atlas o compositor escolheu o céu do Brasil nos meses de agosto e setembro.

Rigoroso ordenador de sonoridades, digno da tradição composicional francesa que absorveu em seu período de estudos na França, Almeida Prado criou 24 acordes, correspondentes às 24 letras do alfabeto grego que representam as constelações.

Utilizando esses acordes, o compositor procurou reduzir ao mínimo as melodias e ritmos, privilegiando outros elementos sonoros. Por exemplo, procurou simbolizar a ausência de gravidade usando ritmos muito lentos. Acima de tudo, procurava sensibilizar o ouvinte por meio de diferentes texturas sonoras, acelerações e desacelerações.

1ª Carta Celeste

A 1ª Carta celeste é dividida em três partes: a 1ª, chamada Pórtico da Manhã, descreve o pôr do sol; a 2ª representa a noite com a visão da Via Láctea, da Nebulosa de Andrômeda, Meteoros, entre outros corpos. A 3ª parte, o pórtico da Aurora, descreve o amanhecer.

Essa é a história da Carta Celeste nº 1, criada em 1974. Após essa 1ª experiência, Almeida Prado criou mais treze, fazendo delas uma obra aberta, que pode ser ampliada cada vez mais.

O vídeo abaixo é bem longo; sugiro que, neste momento, ouça 2 os dois minutos inciais, para conferir o que eu até aqui procurei descrever em palavras: as cintilações e o escurecer no final do dia…

Almeida Prado – Cartas Celestes No.1 (Fernando Lopes, piano)

Esta 1ª Carta Celeste recebeu uma entusiasmada acolhida da crítica especializada, quando foi tocada pela primeira vez na Europa, pelo próprio compositor. Foi considerada uma obra que transcendia o impasse criado pela estética atonal da época.

“XIV Variações sobre o Tema de Xangô”

Contudo, nem toda a obra de Almeida Prado segue esta linha que poderíamos chamar de “transtonal”.

Um exemplo é “XIV variações sobre o tema de xangô, composta originalmente para piano, em 1961, quando o compositor estudava sob orientação de Camargo Guarnieri, grande mestre da escola nacionalista.

Este tema de xangô foi extraído do livro “Ensaio sobre a música Brasileira”, de Mário de Andrade, e, segundo palavras do próprio compositor, “cada variação é um comentário estilizado sobre um gesto do folclore brasileiro, como a modinha, a toada paulista, os melismas do candomblé, a seresta, etc.”

Almeida Prado, XIV Variações sobre o tema de Xangô para fagote e piano

Carreira e Sucesso

José Antônio Rezende de Almeida Prado nasceu na cidade de Santos, em 1943. Estudou piano com Dinorah de Carvalho, harmonia com Osvaldo Lacerda, e composição com Camargo Guarnieri e Gilberto Mendes.

Entre 1970 e 1973 esteve na Europa, onde estudou com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen em Paris, e com Gyorgy Ligeti e Lukas Foss em Darmstadt, na Alemanha.

Conquistou seu primeiro prêmio de composição em 1969, antes de ir para o exterior, com a peça “Pequenos Funerais Cantantes”, no 1º Festival de Música da Guanabara.

De volta ao Brasil em 1974, tornou-se professor de composição da Universidade de Campinas, onde lecionou até o ano 2000.

Obteve muitos outros prêmios, concedidos pela Comissão Estadual de Música de São Paulo, em 1972, pelo Instituto Goethe e pela Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, em 1973, pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1976 e 1993, Medalha Mário de Andrade, concedida pelo Governo do Estado de São Paulo, em 1979, entre outros, todos eles ligados a obras excepcionais. A Funarte, em 1995 lhe concedeu o Prêmio Nacional pelo conjunto da obra.

Além de possuir uma linguagem e estilo absolutamente próprios e inconfundíveis, Almeida Prado soube como poucos vincular sua obra a elementos culturais universais os mais variados, o que acrescenta a ela uma modernidade que poucos compositores conseguem obter.

Escultura em bronze de Almeida Prado, por Eduarda Duvivier

“Savanas”

Um bom exemplo é “Savanas”, um mural sonoro baseado em ritmos e melodias africanas, que o compositor encontrou no livro “A Música da África”, do Dr. Kwabena Nketia.

O próprio compositor diz: “a obra não tem nenhum tema meu, tudo é tema folclórico e um passeio pelas paisagens da África”.

A introdução é surpreendente, e quando a ouvimos pela primeira vez não podemos imaginar de onde vem aquela sonoridade. Trata-se de um bambu colocado sobre as cordas mais graves de um piano de cauda, percutido por um par de baquetas de xilofone. Assim como em Cartas Celestes, Almeida Prado valoriza sobremaneira as ressonâncias do piano, com a utilização dos pedais.

Durante este painel sonoro, ouvimos várias vezes a simulação do som da Mbira, ou Kalimba, um instrumento tipicamente africano.

Almeida Prado – Ana Claudia de Assis (1999) Savanas (1983)

Muito mais poderia ter sido mostrado. Dos corpos celestes, aos cantos africanos, a música de Almeida Prado passeia ainda por sua profunda religiosidade, pela influência do jazz, pelas pesquisas de ressonância, pela música para cinema e muitas outras vertentes. Um verdadeiro jorro de criatividade.

Hoje tivemos tempo apenas para uma pequena mostra da obra deste que é um de nossos maiores compositores.

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Saudações Musicais!

Villa-Lobos & Roberto Duarte

Hoje falarei sobre o maestro brasileiro Roberto Duarte, e o trabalho que ele tem feito em favor da divulgação das obras de Villa-Lobos.

Embora seja considerado o maior compositor brasileiro de todos os tempos, há quem diga o contrário. Tudo bem. Alguns podem não gostar de sua música, mas não é possível discordar do fato que nenhum outro compositor erudito de nosso país teve ou tem a projeção internacional que ele conseguiu. Falecido há quase 70 anos (escrevo este post em 2026) sua obra continua sendo tocada e gravada em todo mundo, por inúmeros artistas e orquestras. As obras para violão, por exemplo, são referências em toda parte, e não há professor de violão no mundo que não inclua as peças violonísticas de Villa em seu programa de ensino.

Pois bem, dito isso, é preciso acrescentar que infelizmente apenas uma pequena parcela de sua obra é conhecida pelos próprios brasileiros. Bachianas Brasileiras nº 5, Trenzinho do Caipira… muita gente só conhece essas duas peças.

Ousadia de Villa

Antes de falar do maestro Roberto Duarte e de seu trabalho, gostaria de falar um pouquinho sobre o início da carreira internacional de Villa. À sua ousadia como compositor, a sorte aliou a ajuda de algumas pessoas importantes.

Uma delas foi o compositor francês Darius Milhaud, que viveu no Rio de Janeiro, trabalhando para a embaixada francesa, entre 1917 e 1919. Esses dois anos foram suficientes para que Milhaud se interessasse profundamente pela música brasileira. E ao procurar conhecer a música carioca, não poderia deixar de notar Villa-Lobos.

Segundo Vasco Mariz, em seu livro História da Música no Brasil, Villa levou Milhaud a rodas de choro, terreiros de umbanda, a blocos de carnaval, e isso os tornou grandes amigos. Mais tarde Milhaud comporia a suíte Saudades do Brasil certamente inspirado por essas lembranças.

Trajetória Internacional

Buenos Aires, Argentina (Alex dos Santos)

Vasco Mariz também conta como Villa se aproximou de outro grande músico da época: o pianista Arthur Rubisntein.

Rubisntein estava em Buenos Aires, quando Ernest Ansermet, maestro de prestígio internacional, lhe disse ter conhecido no Rio de Janeiro um músico excepcional. Rubinstein realmente impressionou-se com Villa e o ajudou em sua trajetória internacional, começando por gravar algumas de suas peças para piano, e ajudando-o a conseguir apoio financeiro de uma rica família carioca, a família Guinle. Graças a essa ajuda, Villa pôde ir para Paris.

Villa foi para a França em 1923, e em menos de um ano tornou-se conhecido. Em maio de 1924 organizou um concerto com obras suas, auxiliado pela casa editora Max Eschig. Essa estada em Paris o levou a ser conhecido em todo o mundo.

Até sua morte, em 1959, Villa viajou muito, regeu muitas de suas obras, fez gravações, recebeu encomendas de grandes orquestras. Mas muitos anos se passaram e hoje é necessário que outras personalidades, outros Milhauds, Rubinsteins e Guinles ajudem a evitar que a música de Villa-Lobos caia no esquecimento. E entre as pessoas que se dispõem a fazer esse trabalho está o maestro Roberto Duarte.

Valioso Registro

A Duarte deve-se o grande mérito de ter gravado com a Orquestra da Rádio Eslovaca de Bratislava várias obras de Villa que apenas ocasionalmente são tocadas no Brasil. São 4 CDs, produzidos no início da década de 90 que representam um valioso registro para quem quer conhecer melhor a obra de Villa-Lobos.

Veremos abaixo, músicas que estão entre as menos conhecidas de Villa, e serão extraídas desses Cds gravados por Duarte. Algumas peças compostas por Villa na sua juventude são: as Danças Características Africanas. Foram escritas originalmente para piano em 1914, quando o compositor tinha 27 anos, e orquestradas dois anos depois.

Para muita gente, essa foi a sua fase mais criativa, e essas danças africanas, embora sejam muito representativas desse período, continuam desconhecidas por muita gente. São três: Farrapós, kankukus, kankikis.

Dancas caracteristicas africanas: No. 1 Farrapos
Dancas caracteristicas africanas: No. 2 Kankukus
Dancas caracteristicas africanas: No. 3 Kankikis

Apelo Rítmico

Roberto Duarte

Villa-Lobos teve a ideia de escrever essas danças em 1912. Usou melodias dos índios caripunas, de Mato Grosso, que, segundo alguns, seriam mestiços com africanos. Para a época devem ter soado bastante ousadas, principalmente por seu aspecto rítmico muito acentuado. Lembremos que a grande novidade do século XX, a Sagração da Primavera de Stravinsky, também com seu forte apelo rítmico, havia estreado há apenas um ano e Villa-Lobos certamente ainda não a conhecia.

Aqui no Brasil, Roberto Duarte foi assistente de dois grandes músicos, Francisco Mignone e Eleazar de Carvalho, com quem teve a oportunidade de aprender muito. Após ser premiado no Concurso Internacional de Regência do Festival Villa-Lobos, realizado no Rio de Janeiro sua carreira internacional tem início. Entre as importantes orquestras que dirigiu estão a Tonhalle Orchester Zürich, a Ungarische Philharmonie, a Orchestre de la Radio Suisse Romande, a Slovak Symphony Orchestra, a Moscow Chamber Orchestra, a Bruckner-Orchester Linz, a Tchaikowsky Symphony Orchestra Moscow, entre outras.

O que mais chama a minha atenção no trabalho de Roberto Duarte é que, tendo a oportunidade de gravar obras de Villa-Lobos, ele poderia ter optado pelo caminho mais fácil: gravar suas obras mais conhecidas, como os Choros, e as Bachianas Brasileiras. O fato de ter escolhido obras de Villa que já estão, talvez, começando a cair no esquecimento, é muito louvável.

“Dança dos Mosquitos”

A seguir, uma obra composta em 1922, ano em que Villa participa da Semana de Arte Moderna em São Paulo: a originalíssima “Dança dos Mosquitos”. Esta é uma peça dificílima, que demanda muito trabalho dos violinistas de qualquer orquestra. Eu tive a oportunidade de estar certa vez em uma palestra do próprio Maestro Duarte em que ele louvou a extrema boa vontade dos músicos eslovacos que trabalharam com ele na gravação da peça. Vejam, portanto, Villa-Lobos no auge de sua criatividade nessa obra raramente executada.

Danca dos mosquitos

Além divulgar a música de Villa-Lobos em concertos e gravações, Duarte tem feito um notável trabalho de revisão das partituras do mestre. Para vocês terem uma ideia da seriedade desse trabalho, ele tem sido feito sob encomenda da Editora Max Eschig, de Paris, uma das mais importantes da Europa e a primeira que editou trabalhos do nosso compositor.

Duarte publicou também no Brasil dois livros com o resultado desse seu trabalho de revisão pela Editora da Universidade Federal Fluminense; dois livros de grande utilidade para qualquer regente que se dispõe a dirigir alguma obra de Villa-Lobos.

“Origem do Rio Amazonas”

As Danças Africanas são obras da Juventude do compositor e a Dança dos Mosquitos, obra da época da Semana de Arte Moderna. Vejamos agora uma de suas obras sinfônicas de sua maturidade: o poema Sinfônico Erosão, escrito em 1950.

A obra foi encomendada pela Orquestra Sinfônica de Louisville, em Kentucky, Estados Unidos. Ela foi inspirada numa lenda amazônica que descreve a formação do Rio Amazonas. Daí o subtítulo da obra “Origem do Rio Amazonas”.

É uma obra densa, longa, séria e consistente, que mostra não o Villa-Lobos ousado experimentador da juventude, mas o metier maduro de um grande compositor de 63 anos de idade.

Erosao (Origem do rio Amazonas)

Relembramos algumas passagens da vida de Villa-Lobos, ouvimos obras suas pouco executadas, e destacamos o seríssimo trabalho do Maestro Roberto Duarte que, longe dos holofotes e das fogueiras de vaidades típicas da profissão, contribui valorosamente para que a música de Villa e de compositores brasileiros não seja esquecida.

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Guerra-Peixe: Além de “Mourão”

César Guerra-Peixe nasceu em março de 1914, em Petrópolis, e nesta cidade começou seus estudos musicais. Assim que pode, começou a ter aulas no Rio de Janeiro, para onde se mudou definitivamente aos 20 anos de idade. Lá ingressou no Instituto Nacional de Música e posteriormente no Conservatório Brasileiro de Música. Dentre os muitos professores que teve destacou-se a violinista Paulina Dambrósio.

Mourão

Composto em parceria com Clóvis Pereira, e sem dúvida sua peça mais conhecida, talvez seja a única peça dele tocada com frequência. Com uma produção tão grande, e de tão alta qualidade, não é justo que apenas essa pecinha seja conhecida.

OSB Apresenta – “Mourão” de César Guerra-Peixe/Clóvis Pereira

Concertino para Violino e Orquestra de Câmara

Graças a violinista Paulina Dambrósio, tornou-se um exímio violinista. Não é sem motivo, portanto que uma de suas obras mais cativantes seja um concertino para violino e orquestra, na qual Guerra revela o seu imenso conhecimento do instrumento.

Stanislaw Smilgin – Guerra Peixe Concertino Para Violino E Orquestra De Câmara

Diferentes Fases

Hans Joachim Koellreutter

Guerra-Peixe procurou diferentes caminhos. Além do estudo formal, certamente ele aprendeu muito tocando em confeitarias, bares e cafés da antiga capital federal. Durante esse período compôs muita música de sabor popular, além de peças baseadas na tradição erudita.

Em seguida veio uma fase em que Guerra-Peixe tornou-se discípulo do professor Hans Joachim Koellreutter, tendo aulas e militando no Grupo Música Viva. Esse período começou em 1944, com Guerra-Peixe compondo obras totalmente baseadas na teoria dodecafônica.

Em seguida, muito atraído pelo folclore brasileiro, logo tentou algum tipo de conciliação entre as duas correntes estéticas, até que em 1949 abandonou de vez a música dodecafônica para dedicar-se ao estudo do folclore.

Suíte Sinfônica nº 1 – Paulista

Há uma obra dessa fase que eu considero excepcional. Foi escrita após um período em que o compositor morou em São Paulo, e pesquisou a música folclórica que podia ser ouvida na região de Barueri, município da região metropolitana de SP.

É uma portentosa suíte orquestral em quatro movimentos, todos baseados no folclore paulista. Chama-se Suíte Sinfônica nº 1 – Paulista. A única gravação que existe é muito antiga, feita pelo maestro ítalo-brasileiro Edoardo de Guarnieri, à frente da orquestra estatal de Moscou, feita na década de 50. Ela tem 4 movimentos:

O 1º movimento intitula-se Cateretê, dança de tradição indígena, típica do centro do nosso país. Se o 1º movimento é baseado numa dança indígena, o 2º é tem como base uma dança africana: o Jongo. Destaque para as engenhosas combinações de timbres e deliciosa vivacidade rítmica.

O 3º movimento – que nesta suíte corresponderia ao movimento lento de uma sinfonia – chama-se Recomenda de Almas. A Recomenda de Almas é uma antiga tradição do interior paulista, ligada aos antigos tropeiros. No período de quaresma, os recomendeiros saem pelas ruas e vão parando de casa em casa cantando e rezando pelas almas que vagam pela terra, ajudando-as a encontrar o caminho de luz.

4º e último movimento – Tambu. Tambú é o nome de um tambor usado em danças africanas, em especial no jongo. Guerra-Peixe volta, portanto, à música de inspiração africana no final da suíte.

César Guerra-Peixe: Suite Sinfônica n.1 “Paulista” (1955)

Fato Marcante

Hermann Scherchen

Logo após o final da 2ª Guerra Mundial, sua música começou a ser executada na Europa: sua 1ª Sinfonia, toda dodecafônica, fora tocada pela orquestra da BBC de Londres, e posteriormente transmitida pela Rádio de Bruxelas. Em 1948 a Rádio de Zurique levou ao ar seu Noneto. E nesse mesmo ano veio um convite que poderia ter mudado totalmente sua carreira. O maestro e professor Hemann Scherchen convidou Guerra-Peixe para viver em Zurique e ser seu aluno. Mas ele preferiu ficar no Brasil para estudar a fundo o folclore nacional.

Pesquisa

No final da década de 1940, Guerra assinou contrato com uma emissora de rádio de Recife, e lá começou um intenso trabalho de pesquisa da música folclórica, visitando as cidades de Olinda, Paulista, Igarassu, Jaboatão, São Lourenço da Mata, Limoeiro, Garanhuns e Caruarú.

Disso resultou uma série de 20 artigos que reuniu em 1952 sob o título de “Um século de Música no Recife”, e um livro de grande importância publicado em 1955 ao qual chamou “Maracatus do Recife”.

Música Indígena

Guerra também se interessou pela música indígena – algo não muito usual entre nossos compositores, que em geral se concentram mais no folclore do nordeste.

Desse interesse surgiu uma obra muitíssimo interessante: uma suíte para coro intitulada Série Xavante, em 4 movimentos:

O 1º é o Ritual de perfuração da orelha. O 2º movimento da Suíte Xavante, de Guerra-Peixe, é o Canto das Moças. Em seguida ao canto das moças, vem o canto dos rapazes. E a suíte xavante com a Corrida do Buriti.

Guerra Peixe – Série Xavante I e IV – Coral Cantus Firmus – Medalha de Ouro – World Choir Games 2018

Celebrado em Vida

A partir da década de 70, Guerra-Peixe atua em vários pontos do país como regente e recitalista, sempre divulgando obras de compositores brasileiros. E leciona muito. Muitos músicos importantíssimos tanto do mundo erudito quanto do popular estudaram com Guerra-Peixe.

A lista é longa e surpreendente: Juca Chaves, Chiquinho de Moraes, Sivuca, Capiba, Baden Powell, Roberto Menescal, Ernani Aguiar, Jorge Antunes, Paulo Moura, entre outros. Entre 1972 e 1980, foi professor de diversas instituições como o Centro de Estudos Musicais do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, e na Pró-Arte também do Rio.

Guerra-Peixe foi, felizmente reconhecido e celebrado em vida; ganhou muitos prêmios, mas o mais tocante talvez seja o de “Maior Compositor Brasileiro Vivo”, recebido em novembro de 1993, dias antes de falecer.

Mais do que um grande compositor, Guerra-Peixe foi um músico que escolheu ficar no Brasil e fazer algo pela nossa vida musical. Sua obra é uma riquíssima fonte de estudo para músicos e pesquisadores de diversas áreas.

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Ronaldo Miranda

Ronaldo Miranda, São Paulo, 2008. Foto de Gerardo Vilaseca

Começo contando a vocês alguns fatos do meu tempo de estudante. Corria o ano de 1981, quando eu tinha 20 anos de idade. Era janeiro, e eu, junto com muitos amigos, fui para Teresópolis, onde aconteceria mais um dos formidáveis Festivais Internacionais de Música da Pro-Arte, um dos festivais mais antigos do país, ainda mais antigo que o de Campos do Jordão.

Eu havia feito inscrição para várias atividades: aulas de viola, participação na orquestra, aulas de música de câmara e também aulas de teoria musical. Essas aulas de teoria não eram, confesso, meu objetivo principal, mas passaram a ser, simplesmente porque o professor era muito, muito, bom. A convivência com ele durante três semanas foi muitíssimo proveitosa, e eu aprendi a admirar este que veio a se tornar um dos mais importantes compositores brasileiros da atualidade: Ronaldo Miranda.

Início

Ronaldo Miranda nasceu no Rio de Janeiro em 1948. Fez seus estudos musicais na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, graduando-se em piano e composição. Mas não iniciou de imediato uma carreira musical. Como havia se formado também em jornalismo, começou sua vida profissional como crítico musical do Jornal do Brasil. Só em 1977, quando ele conquistou um 1º prêmio no Concurso de Composição da 2ª Bienal de Música Contemporânea da Sala Cecília Meireles, é que passou a dedicar-se prioritariamente à composição.

A peça premiada chamava-se “Trajetória”, sobre texto de Orlando Codá, e foi escolhida para representar o Brasil na Tribuna Internacional de Compositores da Unesco, que teve lugar em Paris. Para lá foi Ronaldo Miranda no ano seguinte, 1978.

Sucesso

Dom Casmurro, 1992, Teatro Municipal de São Paulo. Foto Gus Boer

A partir daí, começou a acumular prêmios: em 1981 foi o Troféu Golfinho de Ouro, do Governo do estado do Rio de Janeiro. No ano seguinte, a Associação Paulista dos Críticos de Arte premiou suas Variações Sinfônicas como a melhor obra orquestral do ano.

Em 1983, seu trio de flautas Oriens III foi escolhido para participar do World Music Days na cidade de Aarhus, na Dinamarca. Seguiram-se várias participações em Festivais internacionais: Berlim em 1985, Hungria em 1986, Áustria e Espanha em 1992. Neste mesmo ano estreou no Teatro Municipal de São Paulo sua ópera “Dom Casmurro”, sobre o romance homônimo de Machado de Assis.

Entre 1985 e 1989 Ronaldo Miranda trabalhou no Instituto Nacional de Música da Funarte, e entre 1993 e 1995 voltou a colaborar como crítico de música do Jornal do Brasil. Em 1995 assumiu a direção de uma das mais importantes salas de concertos do Rio, a Sala Cecília Meireles.

A partir de 1997, Ronaldo passou a vir com frequência a São Paulo, a fim de fazer seu doutorado pela USP. Tornou-se professor de composição do departamento de música da Escola de Comunicações e Artes, radicando-se na capital paulista.

Suíte Festiva

Neste mesmo ano de 1997, a prefeitura do Rio de Janeiro decidiu organizar um grande concerto em comemoração à visita do Papa João Paulo II à cidade. Para isso encomendou 5 obras sinfônicas a cinco dos mais importantes compositores brasileiros: Edino Krieger, Ricardo Tacuchian, Almeida Prado, David Korenchendler e Ronaldo Miranda. Ronaldo escreveu então uma peça à qual deu o título de Suíte Festiva. Ela tem três movimentos: Entrada, que lembra a música barroca, Luzes e Sombras, que é construído a partir de um canto gregoriano, e Toccata, de caráter marcadamente rítmico.

Orquestra Sinfônica Brasileira e maestro Robertp Tibiriçá execcutando a Suite Festiva de Ronaldo Miranda

Atividades Internacionais

Casa de Brahms em Baden-Baden

Por essa época, prestes a completar 50 anos de idade, Ronaldo Miranda era um compositor maduro e consagrado. Suas obras passaram a ser apresentadas nas principais salas de concerto do Brasil e do exterior, como o Queen Elizabeth II, de Londres, a sala da Orquestra Tonhalle de Zurique, o Mozarteum de Salzburgo, O Carnegie Hall de Nova Iorque, e o Teatro Colon de B. Ayres. Então iniciou uma série de atividades internacionais.

No ano de 2000 fez parte da comissão brasileira na Semana de Música Brasileira realizada na Hochschule für Musik, em Karlfuhe, Alemanha. Em 2001 recebeu o Prêmio Carlos Gomes como o melhor compositor do ano. Em 2003 integrou o grupo de compositores que participou do projeto Amazônia Desvendada, promovido pela Fundação Apollon, de Bremen, Alemanha, que resultou na música para três poemas de Herman Hesse, executada em Berlim, Bayreuth, e em outras cidades na Áustria, França e Inglaterra. No mesmo ano Miranda foi convidado a residir no Brahms Haus Studio, na cidade alemã de Baden Baden, onde compôs a obra Festspielmusik, para dois pianos e percussão.

Em 2004 participou do 1º Congresso Mundial de Violão em Baltimore, onde foi executado seu concerto para 4 violões e Orquestra.

Seguiram-se outras encomendas brasileiras: a ópera “A Tempestade”, encomendada pela Banda Sinfônica do Estado de São Paulo; a Missa Brevis, comissionada pela Sala Cecília Meireles, em 2008, em comemoração aos 200 anos da vinda da Família Real Portuguesa; a obra sinfônica Plenilunio, encomendada pela Orquestra Sinfônica da Usp.

Sinfonia 2000

Outro fruto de uma encomenda: a Sinfonia 2000, encomendada pelo Ministério da Cultura, como parte dos festejos dos 500 anos da descoberta do Brasil. A obra é magnífica e é em minha opinião uma das mais inspiradas do compositor. Foi gravada pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, sob a direção do Maestro Sílvio Barbato, num CD duplo, junto com obras de outros compositores, também encomendadas pelo Ministério da Cultura. São três os movimentos: Solene e Lírico, Lúdico, e Tema com Variações.

Sinfonia 2000 – Ronaldo Miranda

O leitor deve ter notado que eu cheguei a ter alguma dificuldade para mencionar todos os trabalhos, prêmios e conquistas deste compositor carioca que está no auge de sua carreira.

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Saudações Musicais!

Ernest Mahle

Ernst Mahle (Divulgação / Thiago Altafini)

Olhem, eu não sei quantos alemães existem em Piracicaba. Talvez existam muitos, talvez sejam poucos. Mas de um deles eu me sinto na obrigação de falar: um músico que nasceu em Stuttgart, veio para cá, aqui fixou-se e ajudou muitíssimo a enriquecer e dinamizar a vida musical brasileira.

Ernest Mahle nasceu em janeiro de 1929, e em 1951, portanto com 22 anos de idade, emigrou para o Brasil. Já havia estudado composição na Alemanha com o compositor Johann Nepomuk David, na Escola Superior de Música de Stuttgart, e aqui prosseguiu seus estudos o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, e nos cursos livres de música da Pró-Arte.

Estudos

Voltou para a Europa para mais uma temporada de estudos que aconteceram na Suíça, em Lucera, na Alemanha, em Darmstadt e em Salzburgo, na Áustria. Nessas viagens teve a oportunidade de estudar com alguns dos maiores mestres da composição do século XX, como o francês Olivier Messiaen e austríaco Ernest Krenek. Mahle a essa altura possuía um solidíssimo preparo técnico na arte da composição musical, de profunda raiz europeia.

De volta ao Brasil, iria acrescentar ao seu métier o ingrediente que faltava: uma boa coleção de elementos musicais tipicamente brasileiros. Estava formado este compositor que viria produzir uma obra muito grande, variada e de altíssima qualidade.

Estilo

Essa mistura das sólidas técnicas de composição que absorveu de grandes mestres europeus com os elementos rítmicos e melódicos brasileiros acabou por criar um estilo de música de concerto que se comunica intensamente com o nosso público, sem jamais cair em formulinhas ou soluções fáceis.

Suas obras são sempre de muita personalidade, ou seja, após conhecer o estilo de Mahle, o ouvinte o reconhece, quando volta a ouvir alguma de suas obras.

Apesar disso, as suas composições são, em minha opinião, menos valorizadas do que deveriam, e talvez isso se deva à grande humildade e simplicidade do homem Ernest Mahle.

Ernst Mahle: Divertimento Hexatonal (1983) | Camerata SESI | Regência: Leonardo David

Educador

Ernst Mahle, além de compositor, foi um grande educador. Em 1953 participou da fundação da Escola de Música de Piracicaba. Esta escola tornou-se uma referência da educação musical no estado de São Paulo e por conseguinte do Brasil. De lá saíram muitos músicos que se destacaram na vida musical brasileira como competentes instrumentistas de orquestra, além de solistas e recitalistas de alto nível.

A Escola de Música de Piracicaba, sob a direção de Mahle, gerou uma orquestra de estudantes de ótimo nível. Criou o Concurso para Jovens Instrumentistas, que aconteceu entre 1971 e 1995, sempre muito concorridos; e incentivou a criação de um importante repertório didático usado por muitas outras escolas e professores do país. Alguns exemplos são “As Melodias de Cecília”, em versões para vários instrumentos.

Ernst Mahle “As Melodias da Cecília” – 10 – Valsa da Preguiça

Obras

Como vimos, Mahle dedicou muito de seu tempo a criação de obras didáticas. E isso talvez o tenha estigmatizado, de modo que muita gente esquece de suas obras de maior valor estético. E elas não são poucas.

Vamos a algumas delas, começando com uma fabulosa peça para coro: A Arca de Noé, sobre texto de Vinicius de Moraes.

A Arca de Noé (Ernst Mahle / Vinicius de Moraes) – Coral Municipal de São Carlos

“Saudades”

A obra de Mahle tem sido tocada com frequência fora do Brasil, por músicos não brasileiros. Pois é isso, Mahle escreveu música para todos os instrumentos. E dessa atividade iam surgindo pequenas joias, até peças desacompanhadas para instrumentos não tão conhecidos, como o clarone.

SAUDADES (2018) de Ernst Mahle

“Saudades” é uma obra para clarone solo do compositor brasileiro Ernst Mahle, composta em 2018 e dedicada ao claronista Mário Marques. Gravação realizada em 08 de abril de 2020.

“Carimbó”

Finalizo este texto em grande estilo com uma obra vibrante e deliciosa. A suíte Carimbó, para piano a 4 mãos, com Sonia Maria Vieira e Maria Helena de Andrade.

Ernst Mahle – Carimbó (Sonia Maria Vieira e Maria Helena de Andrade, piano a 4 mãos)

Espero, caro leitor, que você tenha gostado de conhecer um pouco da vida e obra deste homem admirável que tanto fez pela música do Brasil.

Do alto de seus 95 anos, que receba nossa homenagem!!!

Espero que tenha gostado deste post!

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Saudações Musicais!

Mozart Camargo Guarnieri

Camargo é um caso especial entre tantos compositores que nosso país produziu. Ele foi, e ainda é considerado por muita gente, o maior de nossos compositores, maior ainda que Villa-Lobos. Contudo sua música sempre foi mais austera que a de Villa, e talvez por isso ele tenha obtido menor divulgação.

Reitero que essa é a opinião de muita gente, músicos, críticos, e apreciadores de música, e não a opinião de todo o mundo. Mas realmente, quem conhece a sua música, costuma concordar que ela é incrivelmente bem feita, mas que nem sempre nos fisga na primeira audição. É uma música que se revela aos poucos, quanto mais ouvimos mais gostamos dela.

Além de grande compositor, Camargo Guarnieri também foi um grande professor: formou uma importante geração de compositores. E foi também regente. Além de ter dirigido várias de suas obras com orquestras brasileiras e estrangeiras, foi regente titular da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo.

Início

Camargo nasceu em 1907, na cidade de Tietê, no interior de São Paulo. Ainda jovem mudou-se para São Paulo, onde passou a ter aulas de música com bons professores. Mas o mais importante contato que Camargo teve na capital foi com Mário de Andrade.

O próprio compositor declarou em uma entrevista, no ano de 1943:

“Passei a frequentar a residência de Mário de Andrade assiduamente. Essa convivência ofereceu-me a oportunidade de aprender muita coisa. A casinha da Rua Lopes chaves agitava-se como se fosse uma colmeia. Discutia-se literatura, sociologia, filosofia, arte, o diabo! Aquilo para mim era o mesmo que assistir aulas na Universidade.”

Quando esse convívio aconteceu, Camargo tinha 21 anos de idade. A Semana de Arte Moderna já havia passado, e Mário de Andrade era sem dúvida um dos mais importantes intelectuais brasileiros na época. Camargo havia procurado Mário para lhe mostrar duas de suas obras: Canção Sertaneja e Dança Brasileira.

Mário de Andrade percebeu o talento do jovem compositor e se entusiasmou, e de certa forma o adotou, ajudando em sua educação e na divulgação de sua obra.

A Dança Brasileira

Dansa Brasileira · Leonard Bernstein · Camargo Guarnieri · New York Philharmonic Orchestra

A obra acima foi composta originalmente para piano, e foi orquestrada pelo compositor muitos anos mais tarde. Assim como aconteceu com muitos outros compositores, Camargo só começou a escrever para orquestra quando já era um músico maduro. Até os 35 anos de idade, aproximadamente, Camargo havia escrito quase que só para o piano, instrumento que dominava muito bem.

A Dança Negra

Até hoje, sempre que se fala na Dança Brasileira, os conhecedores da música do compositor se lembram de outra dança, escrita para piano, que fez grande sucesso à época. É a Dança Negra. Escrita bem mais, tarde, em 1946, foi gravada muitas vezes.

Dansa Negra · Caio Pagano

Os Ponteios

Camargo Guarneiri foi realmente um pianista muito bom, conhecia muito bem o instrumento, e grande parte de sua obra foi escrita para ele. Não podemos deixar de mencionar algumas de suas mais importantes peças pianísticas: Os Ponteios.

Segundo o próprio Mário de Andrade, a palavra ponteio é o mesmo que Ponteado, e se refere à maneira como tocam os violeiros do interior de São Paulo ou Minas Gerais. Os Ponteios de Guarnieri se baseiam nesse material musical; são peças curtas, inspirada na música de viola, e muitos músicos os consideram semelhantes aos Prelúdios cultivados pelos compositores europeus.

Ponteio No. 22
Ponteio No. 30
Ponteio No. 46

Sucesso

Filadélfia, 1933

Em 1938, com 31 anos de idade, Camargo Guarnieri vai para Paris, para estudar. Ficou pouco tempo, pois com o início da 2ª Guerra Mundial, em 1939, regressou ao Brasil. Apesar disso, teve aulas com músicos europeus de grande estatura: compositor Charles Koechlin, o regente Charles Münch, e a compositora Nadia Boulanger.

De volta, passou a escrever para Orquestra, produzindo obras admiráveis, que lhe renderam prêmios e outras viagens, não mais para estudar, mas para apresentar-se como compositor consagrado.

Teve seu concerto para violino e orquestra premiado na Filadélfia, e seu 2º Quarteto de Cordas premiado em Washington. Em 1948 inscreveu sua Sinfonia nº 2 um concurso de composição realizado na cidade de Detroit, também nos Estados Unidos da América, e obteve o 2º prêmio. Detalhe: Lorenzo Fernandez e Villa-Lobos, que também participaram da competição, foram eliminados. Guarnieri já estava sem dúvida, entre os grandes compositores do Brasil.

Reputação

A década de 40 foi, portanto, o período de consolidação da reputação internacional do compositor. Além dos prêmios que recebeu, Camargo dirigiu duas obras frente a Orquestra de Boston: a sua Sinfonia nº 1 e a admirável Abertura Concertante.

Abertura Concertante (Energico e ritmando) · Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo · John Neschling

Polêmica

Hans Joachim Koellreutter

Apesar desse sucesso internacional, a música de Camargo Guarnieri continuava a ser apresentada quase que só em São Paulo. Só na década de 50 ela passa a ser mais divulgada por todo o país. Talvez o que tenha levado o nome de Guarnieri a todo o país tenha sido a imensa polêmica que ele produziu em 1950, quando publicou uma Carta Aberta aos Músicos do Brasil. Neste documento ele atacava o trabalho do compositor alemão Hans Joachim Koellreutter, que naquela época havia se fixado no Brasil, e encantava toda uma geração de jovens compositores, ensinando a técnica dodecafônica.

Camargo não aceitava essa linha estética e a combateu ferozmente. Infelizmente, por isso, criou uma legião de adversários, que passaram também a atacar sua música. Acredito que não seja o caso de nos estendermos aqui sobre esse assunto, mas não se pode falar sobre a vida de Guarnieri sem pelo menos citar esse momento tão importante.

Passados 50 anos, vemos algo interessante: como alguns desses jovens compositores acabaram por beber nas duas fontes – na fonte de Guarnieri e na de Koellreutter – e como isso foi positivo.

Reconhecimento

Em 1975, já quase septuagenário, Camargo Guarnieri assumiu a direção da recém-criada Orquestra Sinfônica da USP. E foi assistindo os concertos dessa orquestra que muitos jovens dos anos 70 e 80 conheceram a música do velho mestre.

Foi o meu caso. Eu já era estudante universitário de música, ouvia falar de Guarnieri, mas não conhecia nada de sua obra. E foi num concerto da Orquestra da USP que eu ouvi uma obra sua pela 1a. vez – e me encantei. A obra foi uma peça que eu considerei muito original, para a época: seu concerto para orquestra de cordas e percussão.

Camargo Guarnieri: Symphony No. 2 ‘Uirapuru’ (Neschling, OSESP)

Guarnieri faleceu em 1992, e deixou uma obra imensa. Óperas, sinfonias, concertos, canções, peças para piano, muita música de câmara. É muita música de imensa inspiração e qualidade, muito pouco divulgada – pelo menos, muito menos divulgada do que certamente merece. Ao amante de boa música é uma verdadeira mina de diamantes a ser garimpada.

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Edino Krieger

Edino Krieger nasceu em Santa Catarina, na cidade de Brusque, em março de 1928. Começou a estudar música aos 7 anos, tocando violino, e aos 15 anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá estudou as matérias teóricas no Conservatório Brasileiro de Música, onde foi orientado por Hans Joachin Koellreutter.

Assim Edino começou a trabalhar com a técnica dodecafônica, como aconteceu com outros compositores que estudaram com o mestre alemão. Dedicado, o jovem compositor concorreu a uma bolsa de estudos para o Berkshire Music Center, nos Estados Unidos, e obteve o prêmio. Lá teve a oportunidade de estudar com dois dos mais importantes compositores do século XX: o francês Darius Milhaud, autor de “Saudades do Brasil”, e o norte-americano Aaron Copland, autor da “Fanfarra para um homem comum”.

Início

Trabalhando com esses dois compositores, Edino começou a afastar-se da técnica dodecafônica, e principalmente, aprofundou-se no estudo de orquestração. Foi quando escreveu uma primeira obra para orquestra completa, chamada Fantasia.

O Berkshire Center of Music havia sido organizado pelo grande regente russo radicado nos Estados Unidos, Sergei Koussevitzky. Deste admirável centro de ensino Krieger foi para outro ainda mais renomado: a Julliard School of Music, onde além de composição prosseguiu seus estudos de violino. Durante sua permanência em Nova Iorque, várias obras suas foram apresentadas em concertos da Julliard School.

No ano de 1949, Edino Krieger voltaria ao Brasil. Além da Brasiliana para viola e cordas, uma outra obra muito conhecida é a Sonatina para piano em dois movimentos, Moderato e Allegro.

Edino Krieger – Brasiliana, para viola e cordas (1960)
Edino Krieger – Sonatina (Maria Teresa Madeira, piano)

Carreira

Em 1949, com apenas 21 anos de idade, Edino Krieger já era um compositor premiado, que havia frequentado duas importantes escolas norte-americanas, onde teve aulas com grandes mestres. De volta ao Brasil o jovem procurou emprego – e conseguiu uma vaga de terapeuta musical num Hospital carioca. Não era exatamente sua especialidade.

 Mas logo surgiria uma oportunidade mais adequada aos seus conhecimentos: tornou-se colaborador da Rádio Ministério da Educação e Cultura, a Rádio MEC, onde dedicou-se à divulgação da música de concerto. Organizou e dirigiu programas como “Concertos para a Juventude”, “Concurso de Solistas e Orfeões”, e outros programas especiais dedicados à música brasileira. Na mesma ocasião foi incumbido de organizar e administrar a Orquestra Sinfônica Nacional da mesma Rádio MEC. A emissora, durante muito tempo, manteve além da Sinfônica Nacional, a Orquestra de Câmara da Rádio MEC.

Suíte para Cordas, de Edino Krieger

De volta aos estudos

The Royal Academy of Music

Em 1952, com apenas 24 anos de idade, Edino já acumulava, como vimos, uma formidável experiência profissional. Mas sentia que precisava continuar estudando. Nesta profissão, é muito comum que um jovem músico deixe de lado os estudos quando obtém alguma estabilidade profissional, o que é de se lamentar. Mas com Edino isso não se deu. Entre 1950 e 1952 ele frequentou os cursos internacionais da Pró-Arte, em Teresópolis, e numa das ocasiões teve a oportunidade de conhecer mais um compositor de grande importância internacional: o austríaco Ernst Krenek, que além de ter uma obra de grande extensão, foi importante pedagogo.

Empolgado com os estudos, Edino Krieger partiu mais uma vez para o exterior, desta vez para Londres, com uma bolsa concedida pelo Conselho Britânico, onde teve aulas de composição com Lennox Berkley, da Royal Academy of Music.

Um ano antes havia recebido mais dois prêmios: o Prêmio Internacional da Paz do Festival de Varsóvia e o Prêmio da Fundação Rottelini de Roma

De volta de Londres, Edino reassumiu seu posto na Rádio MEC, tornando-se regente assistente da orquestra sinfônica da Emissora.

Sucesso

A partir de então Edino viria a desenvolver uma carreira impressionante. Embora não tenha composto uma quantidade volumosa de obras, tudo o que escreveu é de extraordinária qualidade. Além de compor, Edino continuou muito ativo em outras áreas. Recebeu inúmeros prêmios; fez música para filmes; viajou muitas vezes para o exterior, não mais para estudar, mas para participar de festivais e seminários.

Krieger também foi o criador de uma das mais importantes atividades musicais do Rio de Janeiro e do país: a Bienal Brasileira de Música Contemporânea, cuja 1ª versão aconteceu em 1975. Nesta ocasião, a Bienal aconteceu entre os dias 8 e 12 de outubro, e apresentou 35 compositores de diferentes correntes estéticas.

Na 2ª versão, a Bienal incorporou um Concurso Nacional de Composição; As Bienais seguintes cresceram, apresentando cada vez mais obras e compositores, contando com a participação das mais importantes orquestras cariocas, abrindo espaço para debates e lançamentos editoriais.

“Canticum Naturale”

Edino Krieger estudou muito cedo a técnica dodecafônica com Koellreutter, mas não se tornou radicalmente ligado a ela. Logo ele a abrandou, e a abandonou totalmente em várias obras. A música e atonal assusta muita gente, mas há uma peça em especial de Edino Krieger que pode servir de porta de entrada para esse universo. Nela o compositor não usa o atonalismo de forma abstrata, mas sim para nos remeter aos sons da floresta amazônica.

Trata-se de “Canticum Naturale” – um canto da natureza, os sons da natureza. A obra é de 1972, e foi encomendada pela Orquestra Filarmônica de São Paulo, por ocasião do Sesquicentenário da Independência. É toda baseada em cantos de pássaros e ruídos ambientais que nos colocam em plena floresta. É uma construção sonora impressionante, que demonstra, entre outras coisas, um impressionante domínio dos instrumentos orquestrais. A obra tem duas partes: Diálogo dos Pássaros e Monólogo das Águas.

Mesmo quem não gosta de música atonal poderá apreciar esta obra, se fechar os olhos e imaginar que está em plena floresta tropical…

Edino Krieger – Canticum Naturale por OSMC | FMCB 2

Versatilidade

Enquanto muitos compositores se filiaram ferrenhamente a uma ou outra linha estética, muitos provocando até mesmo situações antagônicas e hostis, Krieger tem sabido usar com maestria toda a técnica que adquiriu. Por isso não é difícil para ele sair do neo-classicismo, passar pelo nacionalismo, pelo atonalismo e até mesmo flertar com a música popular.

Um exemplo desse flerte pode ser ouvido no vídeo abaixo, seu choro para flauta e cordas, de 1952. Nele percebemos claramente momentos de pureza popular entremeados a outros de grande sofisticação rítmica e harmônica, não faltando inclusive os elementos atonais que assustam tanta gente.

Edino Krieger – Choro, para flauta e cordas (1952)

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José Maurício Nunes Garcia

Retrato de José Maurício Nunes Garcia.

Hoje vamos falar sobre um compositor brasileiro que foi contemporâneo de Mozart e Haydn, e dedicou toda sua vida àmusica: o padre José Maurício Nunes Garcia.

O Padre José Maurício passou por três fases bem distintas em sua carreira. Até os 32 anos viveu numa colônia; dos 32 aos 46, numa corte europeia – embora deslocada da Europa; e dos 46 aos 62, quando morreu, numa ex-colônia liberta que se intitulava um Império. Gostaria portanto de tratar com um pouco mais de atenção cada um dessas fases.

Apesar de ser descendente de escravos por parte de mãe, José Maurício conseguiu ter acesso a uma boa educação. Estudou música com um mineiro de nome Salvador José de Almeida Faria. É espantoso imaginar como o Brasil daquela época podia gerar compositores e professores de música.

Apesar da precariedade em que se vivia, as partituras europeias aqui chegavam pelas caravelas portuguesas e eram a fonte de estudo dos compositores. Isso acontecia principalmente nas Minas Gerais, onde circulava o ouro. Onde havia ouro, havia novos ricos. E com eles havia o desejo de ostentação, que não dispensava a música. Casamentos, batizados, missas fúnebres, eram enriquecidas com música inédita e tocada por profissionais.

Estudos

Mas voltemos ao padre José Maurício. Além de música, ele também estudou filosofia, retórica e gramática latina com Manoel Inácio da Silva Alvarenga, também mineiro, formado pela Universidade de Coimbra.

José Maurício provavelmente já atuava como músico profissional no Rio de Janeiro desde a adolescência. O que leva a pensar assim é o fato de ter composto sua primeira obra aos 16 anos de idade; e por tratar-se de uma peça sacra, não a escreveu para seu próprio deleite: foi com certeza uma encomenda para algum serviço religioso.

Tota Pulchra es Maria – José Mauricio Nunes Garcia.

Primeira Fase

Um indício seguro de que José Maurício atuava como músico profissional já na adolescência é o fato de sua assinatura constar na ata de criação da Irmandade de Santa Cecília, confraria que reunia os “professores da arte da música” da cidade.

Em 1792, com 25 anos de idade, José Maurício ordenou-se padre. Os estudiosos são unânimes em afirmar que tomou essa decisão menos por vocação e mais por um desejo de afirmação social, pois esse era um dos poucos caminhos abertos para alguém com ascendência negra.

A decisão produziu seus frutos: em 1798, com 31 anos de idade, foi nomeado mestre de Capela do Rio de Janeiro. Deveria, entre outras coisas, escrever música para os serviços religiosos. Estes, diga-se de passagem, eram muitos e frequentes; a tradição católica portuguesa incluía um grande número de festas e cerimônias religiosas durante o ano, muitas das quais toda a cidade se envolvia, e sempre com muita música.

Vamos ouvir uma obra dessa fase da vida de José Maurício: o madrigal Dies Santificatus, cujo texto fala do dia de Natal. A peça foi escrita para coro e orquestra.

Dies Sanctificatus.

Segunda Fase

A segunda fase da vida de José Maurício começa em 1808, com a chegada ao Brasil de D. João VI e sua numerosa corte. Pode-se imaginar que com isso a situação do Padre J. Maurício melhorou. Infelizmente, não. É verdade que D. João reconheceu seu talento e o estimava, tanto que ele chegou a ser condecorado com a Ordem de Cristo, em 1809.

Contudo, J. Maurício foi ofuscado por Marcos Portugal, compositor português que na época desfrutava de fama internacional, tendo várias de suas óperas encenadas na Itália. Ofuscado, diga-se de passagem, não porque Portugal fosse melhor músico, mas por se tratar de alguém muito adulado pelos portugueses à época.

José Maurício enfrentou a inveja de Portugal, o que dificultou muito o seu reconhecimento. Mas por outro lado, estava com 41 anos, no auge da criatividade, e esse período não deixou de ser muito produtivo.

Desse período consta a Missa em Mi bemol também conhecida como Missa Diamantina. Sabe-se que essa obra foi muito tocada durante o século XIX mesmo depois da morte do compositor. Isso porque foram encontradas várias cópias de diferentes no Rio, em Minas Gerais e em São Paulo. Numa época em que não existia xerox, ninguém se empenharia em copiar partituras, se não fosse para efetivamente executar a obra.

Glória – Missa em Mi bemol Maior – de Padre José Maurício Nunes Garcia (1767/1830).

Sigismund Neukomm

Ao mesmo tempo em que notamos a influência italiana, pode-se perceber também a admiração que J. Maurício tinha pelos compositores vienenses, notadamente J. Haydn. Com a chegada da corte portuguesa havia aportado no Rio de Janeiro Sigismund Neukomm, compositor austríaco que havia sido aluno de Haydn.

Diferente do que aconteceu com Marcos Portugal, Neukomm aproximou-se de J. Maurício e entre eles desenvolveu-se uma relação muito cordial. Aliás, de volta a Viena, Neukomm escreveu um artigo para um jornal citando o padre brasileiro como um músico à altura dos grandes de seu tempo.

Réquiem

Com a morte da mãe de D. João VI, D. Maria, conhecida como a Rainha Louca, que aconteceu em 20 de março de 1816, o compositor recebeu a ordem para escrever duas obras em homenagem `a Rainha, um ofício e uma missa de Réquiem. Ocorre porém que no mesmo dia falecia também a mãe do compositor. Não há dúvidas de que foi para esta que J. Maurício escreveu essas duas obras que estão entre as mais belas e expressivas de toda sua produção.

Missa de Réquiem e Oficio faziam parte da liturgia do dia de Finados, ou de um serviço religioso em memória de alguém. No ofício havia as chamadas “Lições”, textos sacros cantados em estilo gregoriano. Após cada “Lição”, vinha uma resposta cantada pelo coro profissional. Essas repostas eram chamadas de “Responsórios”.

O ofício tinha sempre 9 lições e 9 responsórios. E cada responsório tinha uma forma musical muito bem definida: uma primeira parte em andamento lento ou moderado, uma segunda parte em andamento vivo, uma terceira parte novamente em andamento lento ou moderado, e uma quarta parte que era a repetição da segunda.

Como a forma já estava pré-determinada, a principal tarefa do compositor era criar música que sublinhasse adequadamente o texto religioso. E esse ofício 1816 é pleno de momentos de grande expressividade, verdadeiramente pungentes. É uma notável obra de maturidade, quando José Maurício já havia depurado toda a informação que havia recebido tanto do estilo italiano quanto do estilo Vienense.

José Maurício Nunes Garcia, REQUIEM 1816, PHOENIX, Myrna Herzog.

E uma informação: a Missa de Réquiem e o Oficio encomendados às pressas para José Maurício não foram ouvidos na missa de 30 dias de morte Rainha D. Maria I. Essa honra coube ao compositor lusitano Marcos Portugal.

Terceira Fase

A terceira fase da vida do Padre foi um tanto triste. Com a volta de João VI para Lisboa, foram-se com a ele os cantores, os músicos que formavam a orquestra da corte, e o público. Ao mesmo tempo que obtinha sua independência, o novo país contraía dívidas, envolvia-se em guerras, e a decadência musical da corte foi inevitável.

José Maurício entrou em um período de grandes dificuldades financeiras, e chegou a fechar o curso de música gratuito que mantinha em sua casa havia décadas.

Sua última composição, a última encomenda que recebeu, foi a Missa de Santa Cecília, escrita em 1826. É uma obra fabulosa, grandiosa e dificilíssima para os cantores, de quem é exigido alto grau de virtuosismo.

José Maurício Nunes Garcia (1767 – 1830) – Missa de Santa Cecília (1826).

Esta foi a última obra do padre compositor, que viveria ainda mais quatro anos.

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Cláudio Santoro

Olá amigos. Neste post continuo o trabalho da divulgação dos grandes compositores brasileiros. Vamos conhecer um pouco da vida e obra de Cláudio Santoro.

Claudio Santoro
Cláudio Santoro ao piano

Formação inicial

Cláudio Santoro nasceu em Manaus em 1919, e faleceu em Brasília em 1989.

Começou seus estudos musicais com o violino, e se destacou tão rapidamente que ganhou do governo amazonense uma bolsa de estudos para estudar no Rio de Janeiro.

No Conservatório de Música do então Distrito Federal Santoro continuou a estudar violino, e iniciou-se nas matérias teóricas. Terminou o curso com 17 anos, e destacou-se tanto que foi imediatamente convidado para assumir o cargo de professor adjunto de violino da mesma escola.

Logo em seguida Claudio Santoro tornou-se também professor de harmonia.

Claudio Santoro e a vanguarda

Começou então a compor, antes de completar 20 anos de idade. Havia escrito algumas poucas peças quando tornou-se aluno de Hans Joachim Koellreutter, com quem aprendeu a técnica dodecafônica.

Hans Joachin Koellreutter
Hans Joachin Koeullretter

Embora tenha se ligado plenamente à música mais moderna e experimental de sua época, Santoro nunca abandonou a escrita musical mais tradicional. Em muitas de suas primeiras obras mesclou o estilo tradicional com a modernidade do dodecafonismo, e isto viria a ser uma marca em toda sua obra.

Os anos passavam e Cláudio Santoro além de compor trabalhava como violinista na Orquestra Sinfônica Brasileira. Já havia escrito várias obras, com destaque para seu 1º quarteto de cordas, que foi a premiado em um concurso em Washington.

Santoro também já tinha completado duas sinfonias, das quais a segunda era admirada pelo célebre regente alemão Erich Kleiber, que na época vivia na América do Sul.

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Erich Kleiber

Cláudio Santoro na Europa

Em 1947, Santoro foi premiado com uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim. Contudo, não pode dela usufruir, pois teve seu visto de entrada nos Estados Unidos da América do Norte negado.

Foi então para a França, onde estudou com Nadia Boulanger, uma das mais importantes e requisitadas professoras de composição do século XX. Boulanger teve entre seus alunos ninguém menos que Astor Piazzolla, Igor Stravinsky, Leonard Bernstein, Aaron Copland, entre tantos outros.

Nadia Boulanger, professora de Claudio Santoro em Paris
Nadia Boulanger

De Paris, Santoro foi para Varsóvia e Praga, estabelecendo uma forte ligação com a cultura dos países da então Cortina de Ferro.

Em 1948 foi o delegado Brasileiro no 20. Congresso de Compositores Progressistas de Praga.

Esse congresso condenou a música dodecafônica como “Burguesa e Decadente”. Isso causou grande impacto sobre Cláudio Santoro, que vinha trabalhando uma espécie de mistura entre os estilos dodecafônico e nacionalista.

Cláudio Santoro, o fazendeiro da paz.

Voltando ao Rio em 1949, não conseguiu nenhum trabalho na área musical, e para ganhar a vida aceitou o emprego de administrador de uma fazenda em Minas Gerais.

Compôs muito pouco nesse período, até que em 1950 surge uma obra que marca o final de sua crise: o Canto de Amor e Paz, para orquestra de cordas.

Santoro, que já havia composto 3 sinfonias, 3 sonatas para violino e piano, 3 quartetos de cordas, entre outras peças, alcança com o Canto de Amor e Paz uma expressão musical da maior sinceridade, ainda não encontrada em suas obras anteriores.

O grande compositor armênio Aram Katchaturiam declarou que esta peça se assemelhava a uma grande canção em forma de Sinfonia.

Cláudio Santoro (1919-1989): Canto de Amor e Paz. Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, de Brasília, dirigida Sérgio Kuhlmann.

De volta ao Rio de Janeiro

A partir da década de 50, Cláudio Santoro estabeleceu-se no Rio de Janeiro e trabalhou em várias frentes. Elaborou um programa infantil na Rádio Tupi e escreveu partituras para cinema que lhe fizeram merecer um prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

Com o Canto de Amor e Paz a música de Santoro se tornava mais lírica. E em 1954, dentro desse espírito, surge uma série que eu considero especial: são as “Paulistanas”, para piano solo, pequenas peças de grande beleza e simplicidade.

Cláudio Santoro – Paulistana n.5 Abnader Domingues, piano.

Canções de Amor

Uma bela surpresa no catálogo de Cláudio Santoro são suas “Canções de Amor”, feitas em parceria com ninguém menos Vinícius de Moraes. Como seria de se esperar, nesta coleção e a música de Santoro se aproxima bastante de nossa música popular.

E aqui vai um depoimento pessoal: eu tive a oportunidade de conviver um mês com Cláudio Santoro em 1983, durante o Festival de Música Pró-Arte, realizado na cidade de Teresópolis. Na ocasião tive com ele aulas de regência.

Toda noite havia recitais e concertos. Numa delas as canções foram apresentadas e me impressionaram muito. Ao conversar sobre elas com o mestre ele me disse: “essas canções eu compus quando estava perdidamente apaixonado….” Por quem, ele não revelou….

A obra mais conhecida de Cláudio Santoro

Vamos agora a uma pequena peça que talvz seja a obra mais popular de Santoro, o Ponteio. Escrito também nos anos 50, para orquestra de Cordas, o Ponteio é uma peça nacionalista, como viriam a ser muitas de sua última fase. Agrada a qualquer público e não é de difícil execução; por isso é muito difundida.

Cláudio Santoro: Ponteio. Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Maestro John Neschling.

As Sinfonias

Num texto sobre as obras de Claudio Santoro, não podemos deixar de falar de suas sinfonias. Santoro escreveu nada menos que 14 delas, que formam uma parte portentosa de sua obra.

Por ter sido músico de orquestra por muitos anos, Santoro compreendia a fundo a linguagem e sonoridade sinfônicas, de modo que todas suas sinfonias são no mínimo maravilhosamente orquestradas.

Muitas foram executadas por orquestras européias, como o Filarmônica de Leningrado e a Sinfônica da Rádio de Berlim.

Ainda naquele Festival de Música da Pró-Arte, em 1983, houve uma noite em que Cláudio Santoro fez uma conferência, falando sobre sua vida e obra. Ao final, ele fez tocar um CD, em que a Orquestra de Leningrado executava a sua 5a. Sinfonia.

Ao final, houve uma verdadeira ovação, com todos nós, alunos e colegas, aplaudindo em pé por vários minutos.

Na capa deste CD, há uma frase de Santoro que eu considero um verdadeiro resumo de sua vida. Ei-la:

Eu faço música como quem faz sapato. Cada um tem um dom. Deus me deu esse dom e é isto que eu faço. Vou fazer música até o fim”.

Finalizemos com este link para o youtube, onde nosso leitor poderá ouvir sua 4a. Sinfonia, em um belíssimo registro feito pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, dirigida pelo maestro John Neschling.

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Osvaldo Lacerda

Osvaldo Lacerda ao piano.
Osvaldo Lacerda ao piano

Osvaldo Lacerda foi um dos mais importantes compositores brasileiros, nascido em São Paulo a 23 de março de 1927 e falecido também em São Paulo, em 18 de julho de 2011.

Ao falar de Osvaldo Lacerda, me ocorre falar primeiro de outro importante compositor brasileiro: Camargo Guarnieri.

Uma escola de composição

Guarnieri foi, além de notável compositor, um dos poucos a criar uma verdadeira escola de composição.

Não se tratava de uma escola no sentido físico, um prédio, com salas de aula. Digo escola no sentido de ser uma referência nacional, tendo sido professor de muitos dos mais importantes compositores brasileiros da geração posterior à sua.

Marlos Nobre e Almeida Prado, por exemplo, dois destacados compositores brasileiros, foram seus alunos.

E aí entra Osvaldo Lacerda, que também foi aluno de Guarnieri, e talvez aquele que mais tenha se mantido fiel ao estilo do mestre.

Osvaldo Lacerda e Guarnieri

Osvaldo Lacerda procurou Guarnieri em 1952, quando estava com 25 anos de idade.

Já tinha boa formação musical. Começara a estudar piano aos 9 anos de idade. Pretendia tornar-se pianista concertista, e foi Guarnieri quem o dissuadiu da idéia, convencendo-o a dedicar-se à composição.

Assim, durante 10 anos, Osvaldo Lacerda manteve-se como discípulo de Guarnieri, de quem absorveu plenamente a técnica e o estilo.

Camargo Guarnieri, o mestre brasileiro de Osvaldo Lacerda.
Camargo Guarnieri.

O Quarteto de Cordas no. 1 de Osvaldo Lacerda

Já de início convido-os, caro leitor, cara leitora, para conhecer uma obra de Osvaldo Lacerda que eu acho particularmente inspirada: o “Quarteto de Cordas no. 1”

Ele tem três movimentos, de formas bem definidas.

1o. movimento

O primeiro movimento é um prelúdio seguido de uma fuga.

O prelúdio é em ritmo de toada. Sobre esse ritmo obstinado, Osvaldo Lacerda criou melodia muito lírica, de imensa beleza.

É muito fácil identificar o momento em que o Prelúdio termina e a Fuga começa, pois a Fuga tem um ritmo vivo, que contrastata bastante com o lirismo do prelúdio.

Camargo Guarnieri gabava-se de seu domínio da técnica do contraponto – a arte de entrelaçar melodias. Ao ouvir essa fuga, podemos perceber que Lacerda absorveu perfeitamente a sabedoria de seu mestre.

2o. movimento

O segundo movimento leva o nome de Aria. Sua melhor tradução para o português seria “canção”.

É um movimento lento, no qual se percebe novamente a grande facilidade de Lacerda para criar belas melodias.

Logo no início temos uma, executada na região grave pelo violoncelo.

Uma outra melodia aparece no meio do movimento, executada pelo 1º violino

Este segundo movimento transcorre todo assim; é um derramar de belas melodias, uma depois da outra.

De caráter intuitivo, ele estabelece um belo contraste com a racionalidade da fuga anterior, fiel, portanto, ao modelo clássico das obras constituídas em vários movimentos.

30. movimento

No terceiro movimento deste Quarteto no. 1 de Osvaldo Lacerda temos o envolvente ritmo do baião.

E temos também uma coisa curiosa: o ritmo de baião nada mais é que aquele mesmo ritmo de toada do primeiro movimento, porém tocado bem mais rápido.

Este terceiro movimento confirma que Lacerda se mantém fiel ao modelo clássico: ele é em ritmo de dança e contrasta com o segundo movimento por ser em andamento vivo. Além disso, é mais curto que os anteriores, como acontecia nos quartetos do período clássico.

Um sólido modelo clássico

Porém, o mais importante é notar que, sobre esse sólido modelo clássico reina, do começo ao fim, o caráter da música popular brasileira, ideal estético também herdado de Camargo Guarnieri.

Convido-o agora a clicar no link abaixo, e assistir a um ótimo vídeo do Quarteto da Cidade de São Paulo, executando essa belíssima obra de Osvaldo Lacerda.

Os integrantes do Quarteto são:

Betina Stegmann, violino; Nelson Rios, violino; Marcelo Jaffé, viola; Rafael Cesario, violoncelo.

Osvaldo Lacerda e a Escola Nacionalista

Voltemos àquilo que falávamos antes: a mescla da forma clássica com o conteúdo nacionalista. Essa era a essência da estética de Guarnieri que Osvaldo Lacerda adotou, cultivou e defendeu até o fim de sua vida.

Muitos compositores oscilaram entre esta estética e outra que procurava beber nas experiências mais radicais do modernismo.

Foi assim com Marlos Nobre, já citado, bem como com outros grandes compositores como Cláudio Santoro ou Guerra Peixe. Todos estes tiveram uma fase nacionalista e outra experimental.

Osvaldo Lacerda, contudo, foi nacionalista convicto por toda sua vida.

Osvaldo Lacerda pelo mundo

Voltemos um pouco à sua biografia. Depois de estudar composição com Guarnieri por 10 anos – de 1952 a 1962 – Osvaldo Lacerda foi para os Estados Unidos, como bolsista da Johan Simmon Guggenheim Memorial Foundation de Nova Iorque.

Lá estudou composição com Vittorio Giannini e Aaron Copland, dois compositores norte-americanos de expressão internacional.

Aaron Copland, um dos professores de Osvaldo Lacerda
Aaron Copland. Foto picryl.com.

Em 1965 foi representante brasileiro no Seminário Internacional de Compositores na Universidade de Indiana, e no 3º Festival Interamericano de Música de Washington D.C..

Osvaldo Lacerda professor

De volta ao Brasil, dedicou-se à atividade pedagógica, ministrando aulas de contraponto, harmonia, análise, composição, orquestração e até de teoria musical elementar.

Aliás, muitos colegas meus estudaram teoria pelo livro escrito por Lacerda, que se tornou referência para muitas gerações de músicos.

Clicando na foto abaixo, você o acessa no site da Amazon!

Lacerda era um estudioso de nossa música popular, e refletia como ela podia ser aproveitada como matéria prima para a criação erudita.

Dessa atividade intelectual surgiram textos interessantes, como “Constâncias harmônicas e polifônicas e na música popular brasileira e seu aproveitamento na música sacra”, e “A criação do recitativo brasileiro”.

Experiências

Á luz desses estudos de Osvado Lacerda, como ficaria, por exemplo, a transposição de um ponto de candomblé da cultura popular para a erudita?

Ficaria assim:

Osvaldo Lacerda: “Ponto de Oxalá”; soprano Lenice Prioli, acompanhada por Maria José Carrasqueira ao piano.

Obras orquestrais de Osvaldo Lacerda

Osvaldo Lacerda também deixou várias obras orquestrais:

-Suite Piratininga, de 1962, que ganhou o 1º prêmio do Concurso de Composição da Cidade de São Paulo

– 2 aberturas sinfônicas

-Cromos, para piano e orquestra

-Concerto para Flautim e Cordas

Esta obra eu considero muito interessante pelo seguinte: o flautim moderno é um instrumento bastante difícil de tocar, para o qual existe um pequeno repertório solista. Mesmo na orquestra sinfônica ele é usado com moderação, pois sua sonoridade ultra aguda tende a ser cansativa.

Nesse concerto, Lacerda conseguiu manejar sua sonoridade com muita sabedoria.

Osvaldo Lacerda: Concerto para Flautim, 1o. movimento. Michel De Paula – Piccolo.
LIME Luzern International Music Ensemble

Osvaldo Lacerda brincalhão

Uma outra característica de Osvaldo Lacerda é o caráter jocoso, brincalhão, que ele confere a muitas de suas peças. Este é o caso do 1º movimento da sua suíte para xilofone e piano, ao qual ele deu o título de “Arrasta Pé”.

Osvaldo Lacerda: Arrasta-Pé, para xilofone e piano. “Arrasta-pé” Xilofone, David Friederich. Piano, Stephanos Katsaros.

Cromos

Por fim, quero falar de uma obra de Lacerda que considero muitíssimo especial. De grande envergadura, com cerca de 30 minutos de duração, “Cromos”, para piano e orquestra é absolutamente admirável.

No canal do youtube de Wandrei Braga, há uma belíssima gravação da obra. Peço licença ao autor do texto que lá encontramos, para reproduzi-lo aqui:

Esta obra data de 1992, e é dedicada a Eudóxia de Barros.

O compositor faz questão de salientar que “Cromos” não é um Concerto para piano e orquestra, no sentido tradicional da palavra “Concerto”.

Conforme o dicionário, “cromo” é “uma estampa colorida”. E é nesse sentido que se deve entender esta obra de Lacerda, que consiste numa série de 8 pequenos quadros musicais, onde o piano é muito mais a voz principal da orquestra, do que um solista que a ela se contrapõe.

A ênfase não é dada à técnica, porém, à sonoridade e à interpretação.

Do ponto de vista formal, “Cromos” é uma Suite em oito movimentos, que oferece uma curiosa particularidade instrumental: nos movimentos de números 1, 3, 5 e 8, é utilizada toda a Orquestra (tutti), enquanto nos de números 2, 4, 6 e 7, os naipes orquestrais são tratados separadamente.

Cromos recebeu da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), em 1994, o prêmio de melhor obra orquestra.

Eudoxia de Barros

Ao falarmos de Osvaldo Lacerda não podemos de modo algum deixar de falar da pianista Eudóxia de Barros

Eudóxia de Barros, piansta e esposa de Osvaldo Lacerda
Eudoxia de Barros.

Nascida em São Paulo em 18 de setembro de 1937, é uma das mais importantes figuras da música de concerto do Brasil.

Seus principais professores foram Guilherme Fontainha, Magda Tagliaferro, Nellie Braga e Lina Pires de Campos.

Aperfeiçoou-se na França, Estados Unidos e Alemanha.

Venceu por unanimidade o concurso para solista da North Carolina Symphony, e foi solista da Cleveland Philharmonic Orchestra

Apresentou-se nas principais capitais do mundo e inúmeras cidades de todo o Brasil.

Em 1979, publicou o livro Técnica Pianística.

Gravou 31 discos. Recebeu o Prêmio Nacional da Música outorgado pela Funarte em 1995.

Ocupa a cadeira número 14 da Academia Brasileira de Música.

Eudoxia foi aluna de Osvaldo Lacerda e viria a se casar com ele em 3 de setembro de 1982.

Tem contribuído magnificamente para divulgar a obra musical de seu marido.

Finalizo esta postagem com Eudoxia interpretando um trecho desta bela obra que é “Cromos”, para piano e orquestra.

Osvaldo Lacerda: Cromos. Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. Maestro Henrique Morelenbaum. Eudoxia de Barros, solista.

Por ora é isso, caros leitores.

Até a próxima postagem!