
Era uma vez um compositor que, ao começar um novo trabalho, pensou: muitos compositores escreveram música descritiva.
Vivaldi usou violinos para imitar passarinhos. Beethoven usou uma orquestra inteira para imitar o som de uma tempestade. Saint-Sëns usou o violoncelo para simbolizar a nobreza de um cisne, deslizando sobre as águas de um lago, cujas ondas são simbolizadas por um piano.
Nosso compositor então se propôs: como eu poderia fazer para, usando os sons, simbolizar uma… estrela?
Trinado
Em princípio a tarefa não pareceu ser fácil. Mas nosso amigo compositor, criativo que é, procurou uma saída. Logo de início pensou que toda estrela cintila… ; ao observarmos uma estrela, ela parece brilhar mais e menos, mais e menos, numa velocidade fixa. Ou seja, a cintilação é uma alternância de brilho.
Então ele pensou: vamos tentar uma analogia, fazendo uma alternância de sons… que é o que em música chamamos de trinado.
Hmm… isso pode ser um bom começo, pensou nosso compositor; e pôs-se a desenvolver sua ideia!
Uma estrela grande cintila diferente… pode ser representada por um trinado mais lento e mais grave…
Possibilidades

Estavam abertas muitas possibilidades para estrelas de diversos tamanhos luminosidade, representadas por sons mais agudos ou graves, cintilando mais lenta ou mais rapidamente… Mas e a escuridão do espaço profundo?
Bem, os músicos costumam com muita frequência se referir a sonoridades claras, brilhantes… E sonoridades opacas, escuras…
A essa altura, nosso compositor já estava em plena efervescência criativa, sentado ao piano, procurando por sonoridades de todas as cores, brilhos e cintilações, para representar estrelas, planetas, meteoros, asteroides, galáxias, nebulosas, buracos negros…
Bem… isso é só um exemplo, com finalidades didáticas, feito por alguém que não é exatamente um compositor experiente.
Mas, eu pergunto: o que um compositor talentoso e de grande experiência poderia fazer a partir dessas ideias?
É o que fez um dos maiores compositores brasileiros da atualidade, José Antônio de Almeida Prado, ao compor uma de suas obras mais célebres: As Cartas Celestes.
“As Cartas Celestes”

“As Cartas Celestes” nasceram quando Almeida Prado recebeu, em 1974, uma encomenda para escrever uma música que evocasse os corpos celestes, para ser tocada como música de fundo em uma apresentação no Planetário do Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Almeida Prado começou por consultar o Atlas Celeste do astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Deste atlas o compositor escolheu o céu do Brasil nos meses de agosto e setembro.
Rigoroso ordenador de sonoridades, digno da tradição composicional francesa que absorveu em seu período de estudos na França, Almeida Prado criou 24 acordes, correspondentes às 24 letras do alfabeto grego que representam as constelações.
Utilizando esses acordes, o compositor procurou reduzir ao mínimo as melodias e ritmos, privilegiando outros elementos sonoros. Por exemplo, procurou simbolizar a ausência de gravidade usando ritmos muito lentos. Acima de tudo, procurava sensibilizar o ouvinte por meio de diferentes texturas sonoras, acelerações e desacelerações.
1ª Carta Celeste
A 1ª Carta celeste é dividida em três partes: a 1ª, chamada Pórtico da Manhã, descreve o pôr do sol; a 2ª representa a noite com a visão da Via Láctea, da Nebulosa de Andrômeda, Meteoros, entre outros corpos. A 3ª parte, o pórtico da Aurora, descreve o amanhecer.
Essa é a história da Carta Celeste nº 1, criada em 1974. Após essa 1ª experiência, Almeida Prado criou mais treze, fazendo delas uma obra aberta, que pode ser ampliada cada vez mais.
O vídeo abaixo é bem longo; sugiro que, neste momento, ouça 2 os dois minutos inciais, para conferir o que eu até aqui procurei descrever em palavras: as cintilações e o escurecer no final do dia…
Esta 1ª Carta Celeste recebeu uma entusiasmada acolhida da crítica especializada, quando foi tocada pela primeira vez na Europa, pelo próprio compositor. Foi considerada uma obra que transcendia o impasse criado pela estética atonal da época.
“XIV Variações sobre o Tema de Xangô”
Contudo, nem toda a obra de Almeida Prado segue esta linha que poderíamos chamar de “transtonal”.
Um exemplo é “XIV variações sobre o tema de xangô, composta originalmente para piano, em 1961, quando o compositor estudava sob orientação de Camargo Guarnieri, grande mestre da escola nacionalista.
Este tema de xangô foi extraído do livro “Ensaio sobre a música Brasileira”, de Mário de Andrade, e, segundo palavras do próprio compositor, “cada variação é um comentário estilizado sobre um gesto do folclore brasileiro, como a modinha, a toada paulista, os melismas do candomblé, a seresta, etc.”
Carreira e Sucesso
José Antônio Rezende de Almeida Prado nasceu na cidade de Santos, em 1943. Estudou piano com Dinorah de Carvalho, harmonia com Osvaldo Lacerda, e composição com Camargo Guarnieri e Gilberto Mendes.
Entre 1970 e 1973 esteve na Europa, onde estudou com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen em Paris, e com Gyorgy Ligeti e Lukas Foss em Darmstadt, na Alemanha.
Conquistou seu primeiro prêmio de composição em 1969, antes de ir para o exterior, com a peça “Pequenos Funerais Cantantes”, no 1º Festival de Música da Guanabara.
De volta ao Brasil em 1974, tornou-se professor de composição da Universidade de Campinas, onde lecionou até o ano 2000.
Obteve muitos outros prêmios, concedidos pela Comissão Estadual de Música de São Paulo, em 1972, pelo Instituto Goethe e pela Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, em 1973, pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1976 e 1993, Medalha Mário de Andrade, concedida pelo Governo do Estado de São Paulo, em 1979, entre outros, todos eles ligados a obras excepcionais. A Funarte, em 1995 lhe concedeu o Prêmio Nacional pelo conjunto da obra.
Além de possuir uma linguagem e estilo absolutamente próprios e inconfundíveis, Almeida Prado soube como poucos vincular sua obra a elementos culturais universais os mais variados, o que acrescenta a ela uma modernidade que poucos compositores conseguem obter.

“Savanas”
Um bom exemplo é “Savanas”, um mural sonoro baseado em ritmos e melodias africanas, que o compositor encontrou no livro “A Música da África”, do Dr. Kwabena Nketia.
O próprio compositor diz: “a obra não tem nenhum tema meu, tudo é tema folclórico e um passeio pelas paisagens da África”.
A introdução é surpreendente, e quando a ouvimos pela primeira vez não podemos imaginar de onde vem aquela sonoridade. Trata-se de um bambu colocado sobre as cordas mais graves de um piano de cauda, percutido por um par de baquetas de xilofone. Assim como em Cartas Celestes, Almeida Prado valoriza sobremaneira as ressonâncias do piano, com a utilização dos pedais.
Durante este painel sonoro, ouvimos várias vezes a simulação do som da Mbira, ou Kalimba, um instrumento tipicamente africano.
Muito mais poderia ter sido mostrado. Dos corpos celestes, aos cantos africanos, a música de Almeida Prado passeia ainda por sua profunda religiosidade, pela influência do jazz, pelas pesquisas de ressonância, pela música para cinema e muitas outras vertentes. Um verdadeiro jorro de criatividade.
Hoje tivemos tempo apenas para uma pequena mostra da obra deste que é um de nossos maiores compositores.
Espero que tenha gostado deste post!
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Ah, e não vá embora sem antes deixar um comentário!
Saudações Musicais!




























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