Inspirados por Mozart

No desenvolvimento da música artística europeia, foi sempre muito comum um compositor se inspirar em outro. Bach transcreveu para cravo e órgão concertos de Vivaldi escritos originalmente para cordas. Schumann criou acompanhamentos pianísticos para as sonatas de Bach escritas para violino solo. Britten fez variações sobre um tema de Purcell. A lista é imensa.

É interessante notar como um compositor “brinca”, no bom sentido, com as ideias musicais de outro, criando novas obras a partir das obras originais. Hoje, a fonte de inspiração será Wolfgang Amadeus Mozart.

Johann Nepomuk Hummel

Hummel nasceu em 1778, e era 22 anos mais jovem. Mozart conheceu Hummel quando este tinha 8 anos de idade e ficou tão impressionado com seu talento que lhe ofereceu aulas de graça. O garoto foi morar no apartamento dos Mozart, e lá ficou por dois anos. Naquela época ainda era muito comum um artista abrigar um pupilo em sua casa.

Após deixar o convívio com Mozart, Hummel viajou muito, e teve aulas com alguns dos maiores professores daquele tempo. Depois fixou-se em Viena e tornou-se amigo do jovem Beethoven.

Tornou-se um dos mais estimados pianistas de seu tempo, mas como compositor ele não conseguiu aderir às novidades do romantismo nascente.

Abaixo você poderá ouvir dele a Pequena Fantasia sobre temas da ópera “As Bodas de Figaro”, de Mozart, opus 124. Apesar do título se referir a “temas” de Bodas de Figaro, sobressai um tema em particular, a aria “Non più andrai”.

No primeiro arquivo, você ouve a aria original, de Mozart; em seguida as variações de Hummel.

Fantasia em dó maior sobre Non più andrai, Op. 124

Muzio Clementi

Clementi  foi um dos maiores pianistas da Europa, e um grande inovador da técnica pianística. Era 4 anos mais velho que Mozart, e consequentemente muito mais velho que Hummel; mas diferente deste, não teve grandes dificuldades em dar os primeiros passos no novo estilo que nascia, o Romantismo.

A importância de Clementi na música para piano do final do século XVIII e começo do XIX foi muito grande, e algo que pode atestar isso é a frase que ouvi certa vez do pianista Eduardo Monteiro: “Beethoven andava com as partituras de Clementi debaixo do braço”.

Abaixo, a aria “Batti, batti, o bel Masetto”, da ópera “As Bodas de Fígaro”, e em seguida a fantasia para piano composta por Clementi sobre essa aria.

Mozart – Don Giovanni, Ato I: Ária: Batti, batti, o bel Masetto, WoO 10
Mozart – Don Giovanni, Ato I: Ária: Batti, batti, o bel Masetto, WoO 10

Fernando Sor

Outros compositores daquela época que não conheceram Mozart pessoalmente também escreveram obras a partir de suas melodias, inclusive alguns que não eram pianistas. É o caso do guitarrista espanhol Fernando Sor, que viveu entre 1778 e 1839.

Sor deixou a Espanha aos 35 anos de idade, por razões políticas, e nunca mais voltou a seu país. Viveu em Londres e Moscou, radicando-se em Paris no final da vida. Assim como Clementi foi fundamental no desenvolvimento da técnica do piano, o mesmo pode-se dizer de Sor em relação ao violão. Levou o instrumento às salas da nobreza, e era profundamente admirado. No final da vida, alcançou um elevadíssimo grau artístico. Suas obras eram consideradas por demais sofisticadas; o público queria dele obras simples e despretensiosas, o que o aborrecia profundamente.

Uma de suas obras mais conhecida são as “Variações sobre um tema de Mozart”, opus 9. O tema recolhido por Sor faz parte do final do 1º ato da ópera “A Flauta Mágica”.

Variações de Fernando Sor sobre um tema de Mozart

Tema e Variações e Fantasia

Ao contrário do que aconteceu com J S Bach, por exemplo, cuja obra foi praticamente esquecida após sua morte, a música de Mozart tornava-se cada vez mais admirada no século XIX. Compositores distantes da Viena onde Mozart viveu, e que nasceram muito mais tarde continuaram a escrever variações e fantasias a partir das melodias Mozartianas.

Aliás, talvez este seja um bom momento para explicar a diferença entre Tema e Variações e Fantasia.

No tema e variações a estrutura original, ou o esqueleto, da melodia é mantido. O compositor pode ornamentar a melodia, acrescentando muitas notas; pode fazer o contrário, eliminando notas de modo a simplificá-la; pode mudar alguns acordes, o ritmo, etc, mas a o esqueleto está lá, preservado.

Isso é muito fácil de perceber: as variações são claramente separadas por pausas; ouvindo com atenção, podemos ir comparando uma com outra e isso nos mostra essa “estrutura” que se mantém.

Já numa fantasia, o compositor desmonta esse esqueleto, podendo montar as suas as peças de outro jeito. Por exemplo: começar tocando um trecho final da melodia, em seguida o começo dela e depois a parte central.

Mikhail Glinka e Pablo de Sarasate

Nas próximas duas obras nós teremos exemplos de tudo isso que eu acabei de falar: são dois compositores distantes de Mozart no tempo e no espaço: o primeiro é o russo Mikhail Glinka, que viveu entre 1804 e 1857; e o segundo é o espanhol Pablo de Sarasate, que viveu entre 1844 e 1908.

De Glinka temos as Variações sobre um tema de Mozart em mi bemol maior, para harpa. E de Sarasate teremos a Fantasia de Concerto sobre temas da Flauta Mágica, de Mozart, para violino e orquestra.

Variações sobre um tema de Mozart
Fantasia de concerto sobre A Flauta Mágica, de Mozart, Op. 54

Ouvimos um pouquinho do imenso repertório criado por diversos compositores a partir de melodias de Mozart. Um repertório que envolve compositores de várias épocas, lugares e estilos diversos.

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Saudações Musicais!

As Estações de Joseph Haydn

Neste texto vamos conhecer as Estações de Joseph Haydn, um monumental oratório para Coro, solistas e orquestra. Com essa obra Haydn coroou sua carreira que começou muito modesta e atingiu no final de sua vida uma magnitude inimaginável.

Em sua juventude os compositores ocupavam uma posição social muito baixa. Mas os tempos mudaram e quando já era um sexagenário, às portas do século XIX, Haydn mal podia entender como havia se tornado uma celebridade internacional muito bem paga.

Início

Joseph Haydn

Tudo começou com partituras de suas sinfonias e quartetos circulando pela Europa, muitas delas em cópias manuscritas.

Seu nome em pouco tempo se tornou conhecido nos maiores centros musicais europeus, até que em 1785, quando estava com 53 anos de idade, ele recebeu uma encomenda para escrever seis Sinfonias para serem tocadas em Paris. Elas fizeram imenso sucesso, como podemos perceber ao ler esta crítica publicada em 1988 na capital francesa:

“Em todos os concertos foram tocadas sinfonias do sr Haydn. A cada dia aumenta a compreensão e admiração pelas obras desse grande gênio. Como ele consegue, a partir de um único tema, encetar os mais ricos e variados desenvolvimentos…”

Sucesso

Após esse sucesso parisiense, Haydn receberia outra encomenda, de maior importância ainda. O violinista e empresário Johann Peter Salomon, alemão radicado em Londres, levou Haydn àquela cidade em 1791, onde ele ficou por três anos, compondo e apresentando suas sinfonias de números 93 a 98. O sucesso foi estrondoso e com elas Haydn finalmente colheria os frutos de décadas de trabalho e dedicação a esse gênero.

Em 1794 Haydn voltaria pela segunda vez a Londres, novamente compondo e regendo mais 6 sinfonias, de números 99 a 104.

Após essas últimas experiencias sinfônicas, Haydn ainda dedicaria seu esforço à composição de dois magníficos oratórios. O primeiro deles foi a Criação, escrito em 1798 por sugestão do próprio Johann Salomon. E em entre 1799 e 1801 Haydn escreveria As Estações.

Inspiração

Gottfried von Switen

O texto foi escrito por um diplomata chamado Gottfried von Switen, baseado num poema do inglês James Thompson, escrito em 1726.

O texto relata as atividades dos homens do campo em suas atividades, nas diferentes épocas do ano. São três os personagens: Simão, um fazendeiro, Ana, sua filha, e Lucas um jovem camponês.

O próprio Haydn nasceu e foi criado no campo, e, portanto, sabia perfeitamente como tratar o assunto. Muitos consideram a obra precursora do romantismo que começaria logo a surgir, pois a volta à natureza era uma de suas principais características.

Assim como As Quatro Estações de Vivaldi, ela é dividida em quatro grandes partes, retratando respectivamente a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno. Enquanto Vivaldi optou por concertos para violino, Haydn constrói quatro grandes cantatas.

Primavera

A Primavera começa com uma introdução instrumental que representa a o final do inverno. Simão e Ana, em recitativo nos dizem:

“Vejam, como o triste e nebuloso inverno se vai,
indo ao longe, para o norte.
Ele chama suas rajadas
que obedientemente deixam a floresta, a colina e o vale
Vejam, como daquelas íngremes rochas
a neve se derrete e em agitadas torrentes e Anas fluem.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – A Primavera: Nº 1 Introdução/Recitativo: “Vede como o…”

E ainda neste recitativo surge Ana, que diz:

“Vejam como, das praias do sul,
através do ar tépido e sedutor,
espalha-se o mensageiro da primavera”

O anúncio da primavera se segue com a participação do coro, em um número de impressionante beleza e lirismo.

“Venha, gentil, primavera.
etérea e amena, venha.
Fora de sua sepultura invernal,
a natureza lentamente se levanta.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – A Primavera: Nº 2 Coro: “Vem, encantadora primavera!”

Verão

O anúncio do Verão é feito por Lucas e Simão, também por meio de um recitativo acompanhado. Haydn aqui soa bastante moderno, em um trecho da obra que prenuncia o romantismo. Ao retratar o nascer do sol, em vez de procurar uma descrição mais direta, o compositor usa a harmonia e as cores orquestrais para sugerir um sol turvo de um dia abafado de verão. Os versos descrevem a cena:

“Do este, com um brilho quase imperceptível, a manhã de olhos gentis aparece…
com passos tardios a noite marrom se retira, e o dia rapidamente flui
Para escuras cavernas voam os agourentos pássaros da noite.
e seus gritos dolorosos não mais oprimirão os corações temerosos.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Verão: Nº 9 Introdução/Recitativo: “Sob um véu cinzento…”

A música então segue até a nascer completo do sol, cujo brilho intenso e poder é anunciado num trecho de grande intensidade, no qual o coro canta:

“Observem o sol que se levanta!
Ele brilha esplendorosamente nos céus em confiante majestade!
Ó sol glorioso, tu que és fonte de luz e de vida,
alma de todos os mundos que nos rodeiam, no qual meu Criador resplandece,
nós erguemos nossa canção para ti!”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – texto baseado em J. Thomson – O Verão: Nº 11 Terçeto e…

Outono

O outono é retratado por Haydn como a época da colheita e da caça. A pequena introdução instrumental reflete o sentimento de bem-aventurança compartilhado por todos. Ana canta em seu recitativo:

“Tudo o que a florida primavera colocou em alva promessa
E tudo o que o sol do verão levou a uma completa perfeição,
agora no generoso verão alegram o coração dos homens.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Outono: Nº 23 Recitativo: “Agora o campo desnudo mostra…”

E em seguida coro e solistas celebra cantando:

“Assim a natureza recompensa o árduo esforço dos homens”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Outono: Nº 24 Ária: “Vede as largas campinas!”

E não poderia no outono faltar a descrição da caça. A trompa é o instrumento diretamente associado a essa atividade e aqui Haydn cria um deslumbrante show para as trompas da orquestra.

Inverno

Chegamos ao inverno, e a sua introdução simboliza a espessa neblina que o anuncia, numa harmonia que sugere uma atmosfera fúnebre, que simboliza a morte da natureza. Simão e Ana anunciam:

“Vejam, o Inverno chegou para dominar o ano, e vapores, nuvens e tempestades descem à terra.
Espessas nuvens deslizam pela montanha, e engole a planície sem vida
O sol do meio-dia está baixo, e fracos são seus raios.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Inverno: Nº 31 Recitativo: “Acorrentado jaz o vasto lago…”

Depois de alguns números que descrevem cenas de interior, como uma canção da mulher tecendo, a obra terminará com o prenúncio de uma nova primavera, festejando o renascimento da natureza. Coro e solistas cantam:

“E então virá a gloriosa manhã, o segundo nascimento do Céu e da Terra: o grande planejamento eterno.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Inverno: Nº 39 Terçeto e Coro Duplo: “Então rompe…”

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Música das Cruzadas

Entrada dos Cruzados em Constantinopla – Eugène Delacroix

Hoje o assunto é música antiga… muito antiga: a música do tempo das Cruzadas. Escolhi esse tema porque não é pequeno o número de pessoas que se mostram curiosas a respeito da música da idade média, bem como do que seria uma música popular daquela época. É sem dúvida um assunto muito vasto, tema de estudos profundos de musicólogos seríssimos de toda parte. E sobretudo, um assunto em que há muito para ser desvendado. De modo que estamos longe de esgotá-lo, mas, para quem nunca ouviu, será uma experiência muito interessante conhecer algumas obras daquela época, e ter algumas informações a respeito.

Origens

Os Menestréis de Beverley

Quando falamos nas Cruzadas, falamos do período que começa em 1095, quando o Papa Urbano II proclama a 1ª, até 1291, quando termina a última cruzada.

Esse período coincide com a início do desenvolvimento da música polifônica, que aconteceu dentro dos mosteiros europeus. Também era muito importante nessa época a música de dança, presente entre os nobres, nos castelos, e também entre o povo.

Acrescentemos a isso as canções dos menestréis, que cantavam acompanhados por um instrumento, como o alaúde e temos um riquíssimo repertório!

Os monges, trancados em seus monastérios, tinham tempo e paz suficientes para experimentar combinações de sons, e deram início no que chamamos hoje de erudição em música. Já as danças e canções dos menestréis podem bem ser considerados dentro do que hoje chamamos de música popular… mas sempre lembrando que essa divisão não é e nem era assim tão simples.

O Romance de Fauvel

O Romance de Fauvel é um longo poema francês do século XIV, atribuído a um funcionário real chamado Gervais du Bus. É uma divertida crítica à igreja e ao estado, feita, obviamente, de maneira camuflada, alegórica.

Vejam só a história: Fauvel é o nome de um asno, um asno ambicioso e tolo, que se sente insatisfeito com o estábulo onde vive. Assim, decide mudar-se para o cômodo mais espaçoso da casa de seu dono. Ao se mudar, para adaptar o cômodo às suas necessidades, manda construir uma espécie de prateleira para feno. A Fortuna, deusa romana da sorte, decide designar Fauvel o líder da casa. Imediatamente, líderes religiosos e seculares vêm de toda a parte, em grandes peregrinações, para conhecer Fauvel e render-lhe homenagens, simbolizando a tendência de Estado e Igreja penderem para o pecado e a corrupção.

Um dos 12 manuscritos existentes contêm muitos trechos musicais, que formam um rico repertório anônimo dos séculos 13 e 14.

O varium fortune · Joel Cohen · Boston Camerata · Dominique Visse
Douce dame débonnaire (Instrumental) · Joel Cohen · Boston Camerata · Ensemble Project Ars Nova

Ductia

Johannes de Grocheo

Uma palavra medieval que denota 2 formas musicais, uma dançada, que se chamava simplesmente ductia, e outra cantada, que era conhecida como cantilena ductia. No caso que nos interessa, a ductia dançada, consiste numa composição que tem sempre uma batida rítmica constante, feita por instrumentos de percussão.

Segundo o teórico medieval Johannes de Grocheo, em seu tratado “De Musica”, escrito em 1275, a ductia deve estimular a mente humana a dançar com gestos elaborados. A ductia tinha uma forma definida, diferente de outras danças, como a estampie, por exemplo.

Ductia (Anonymous, 13th century) – Arte Factvm

Manuscrito de Bamberg

A cidade alemã de Bamberg, que fica na Baviera, sempre teve um importante papel político, pois foi durante muitos séculos a residência de um príncipe-arcebispo. Além disso, ou talvez também por causa disso, sempre foi um importante centro de música sacra, desde a idade média.

Atividade musical é mencionada em documentos que tratam das cerimônias realizadas na catedral lá existente, desde o ano de 1012.

Em 1192 foi instituída uma escola de canto, o que reforçou a importância musical da cidade. O mais importante registro dessa antiga atividade musical é o Manuscrito de Bamberg, documento que contém cerca de 100 peças vocais do século XII.

Ave virgo regia – Ave gloriosa – Domino

Manuscrito de Montpellier

Outra cidade que foi importante centro musical na idade média e nos legou uma admirável coleção de partituras é Montpellier, na França.

Também conhecido como o Codex de Montpellier, contém 336 obras polifônicas, provavelmente compostas entre os anos de 1250 e 1300.

A coleção é dividida em 8 fascículos, cada um dedicado a um tipo específico de composição. Por exemplo, o 1º fascículo é composto por peças usadas na liturgia; o segundo fascículo, por motetos a 4 vozes, os 6 fascículos por motetos a 2 vozes, e assim por diante.

Embora musicólogos atribuam a autoria de muitas peças a conhecidos compositores da época, trata-se de obras anônimas.

Porém, são documentos de enorme importância para estudiosos do desenvolvimento da polifonia francesa. E a maior parte das peças não são religiosas, mas compostas sobre textos amorosos.

Amours mi font souffrir – En mai – [Flos Filius] (Mo 111)

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Mendelssohn – Lobgesang

Texto em Português

1. Sinfonia

2. Coro e Soprano

Que tudo o que tem fôlego louve ao Senhor.

Louvai ao Senhor com a harpa, louvai-o com o vosso cântico.

E que toda a carne bendiga o seu santo nome.

Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome.

Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças do que ele tem feito por ti.

3. Recitativo e Ária

Digam-lhe que vocês foram redimidos pelo Senhor; ele os livrou da angústia das tribulações severas, da vergonha e da servidão, cativos nas trevas, todos os que ele resgatou da angústia.

Digam-lhe: Deem-lhe graças e louvem a sua bondade.

Ele conta as nossas lágrimas na hora da necessidade ; ele consola os aflitos com a sua palavra.

Falem! Dê graças a Ele e louve a Sua bondade.

4. Coro Diga que você foi redimido pelo Senhor de toda tribulação. Ele conta nossas lágrimas em nossos momentos de necessidade.

5. Dueto e Coro

Esperei pacientemente pelo Senhor, e Ele se inclinou para mim e ouviu a minha súplica.

Bem-aventurado o homem cuja esperança está no Senhor.

Bem-aventurado o homem cuja esperança está nEle!

6. Tenor As dores da morte nos cercavam , e o medo do inferno nos atingiu; vagamos nas trevas.

Ele diz: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e eu te iluminarei!”

Clamamos nas trevas: “Vigia, passará logo a noite?”

Mas o Vigia respondeu: “Se a manhã vier logo, será noite novamente.”

E se perguntardes, perguntareis repetidamente: Vigia, passará logo a noite?

Soprano A noite passou!

7. Coro A noite passou, mas o dia chegou.

Portanto, deixemos de lado as obras das trevas e revistamo-nos da armadura da luz; vistamos a armadura da luz.

8. Coral

Agora, demos graças a Deus de todo o coração, de todas as mãos e de todas as vozes, porque em toda adversidade .

Ele terá misericórdia de nós.

Os Eruditos no Teatro

Teatro e música sempre estiveram intensamente ligados. Uma peça montada sem música não é uma coisa comum. Música quase sempre há, nem que seja uma simples e despretensiosa trilha sonora. Ainda mais hoje, quando uma pessoa sozinha, em casa, pode com facilidade montar essa trilha em seu computador, gravar um CD e levar para os ensaios.

Mas imaginem agora como eram as coisas nos séculos passados. Se o diretor de um espetáculo quisesse música, o único jeito seria contratar músicos para fazer essa trilha ao vivo. Nos casos em que havia mais dinheiro, não se fazia uma simples trilha, mas sim várias peças musicais inéditas que acompanhavam e sublinhavam a trama. É o que chamamos de música incidental. E nos melhores casos, essa música incidental seria tocada por uma orquestra completa.

Muitas peças escritas especialmente para serem tocadas em peças de teatro não funcionam em uma sala de concertos, ou seja, não despertam interesse quando dissociadas da cena. Outras, porém, são capazes de cativar as plateias mesmo quando apenas executadas por uma orquestra. Assim, sempre que percebiam essa característica, o compositor ou seu editor passavam a executar essas peças em concertos.

Algumas fizeram tanto sucesso que continuam a ser tocadas até hoje. Vamos conhecer algumas dessas obras incidentais que resistem ao tempo, de três compositores: Beethoven, Grieg e Bizet.

“Egmont”

Beethoven, gravura do século 19

Egmont é o nome de um aristocrata nascido nos Países Baixos no século XVI, época em que essa parte da Europa era dominada pelo império Espanhol. Egmont lutou pela libertação de seu país, desafiou o Rei Felipe da Espanha e acabou decapitado em 1567.

Em 1810, Beethoven foi convidado pelo diretor do Teatro Imperial de Viena a compor a música incidental para a peça que Johann Wolfgang von Goethe havia escrito sobre esse episódio. Admirador de Goethe, Beethoven sentiu-se tão honrado que abriu mão de pagamento pelo trabalho.

Escreveu uma abertura e nove números para serem tocados durante o espetáculo. A Abertura é uma das obras mais tocadas do compositor. Beethoven, logo de início, nos apresenta um ritmo de sarabanda, que é uma dança de origem espanhola. Toda a primeira parte da abertura será tomada por esse ritmo, e o caráter da música é amargurado, pesado, simbolizando a opressão do império espanhol. Após essa primeira parte, ouvem-se duas notas aparentemente sem nexo que simbolizam a decapitação de Egmont.

Elas são seguidas por um pequeno trecho fúnebre que retrata a morte do herói. Imediatamente tem início um alegro em pianíssimo e um eletrizante crescendo que é a “Sinfonia da Vitória”.

Segundo o texto de Goethe, a peça deve terminar não com a morte de Egmont, mas com a vitória do ideal de liberdade, que acabaria por vir. Beethoven segue fielmente o texto de Goethe e termina a abertura com um gran finale.

Beethoven: Egmont, Op. 84: Abertura

“Peer Gynt”

Edvard Grieg, por Eilif Peterssen

Ibsen é considerado um dos pais do drama moderno, por tratar de modo realista problemas sociais e psicológicos que sobretudo eram familiares ao público de seu tempo. Com isso, ele deixou para trás os melodramas construídos artificialmente, tão comuns naquele tempo.

Quando jovem, iniciou estudos para tornar-se farmacêutico e depois médico, mas finalmente optou por uma vida dedicada ao teatro. Em 1851, com 23 anos de idade, começou a trabalhar no Teatro Nacional de Bergen, onde permaneceu por 6 anos, quando se tornou diretor do Teatro de Oslo, onde ficou por mais 5 anos. Foi um período em que escreveu suas primeiras peças, estimulado pelo trabalho diário com teatro. A partir de 1863, viveu principalmente na Itália e na Alemanha, alcançando reconhecimento internacional.

O reconhecimento de seu próprio país também veio na forma de uma pensão anual, concedida pelo Parlamento Norueguês. Suas obras mais conhecidas, e que são montadas até hoje, são Casa de Bonecas e Hedda Gabler.

Mas foi com uma outra peça que o nome Ibsen se tornou familiar também para os amantes da música. Peer Gynt foi escrita em 1867, 12 anos antes de Casa de Bonecas.

Para vocês terem ideia do sucesso, na primeira edição foram impressas 1250 cópias, e apenas duas semanas depois foi lançada uma segunda edição com 2000 cópias.

E diferente de suas outras obras por ser uma fantasia e não uma obra realista. Mas o drama psicológico está lá, presente no protagonista da peça, Peer Gynt, um anti-herói, imprestável para as tarefas mais corriqueiras, e perdido na sua profundidade mental, procurando por seu próprio eu.

Quando o compositor Edvard Grieg começou a escrever a música de cena para Peer Gynt, em 1875, ele já era reconhecido em seu país como o maior compositor norueguês.

Assim como aconteceu com Ibsen, ele também fora agraciado com uma pensão anual oferecida pelo governo do país, e foi o próprio Ibsen que o convidou a escrever a música para Peer Gynt. A estreia aconteceu em 1876 e tornou a figura de Grieg ainda maior perante o povo norueguês. A partitura original escrita para a peça tem 23 números. Desses 23, o próprio Grieg selecionou 8 para serem apresentados em concerto.

Grieg: Peer Gynt Suíte nº 1, Op. 46: 1. Amanhecer

Grieg: Peer Gynt Suíte nº 1, Op. 46: II. A Morte de Ase

Grieg: Peer Gynt Suíte nº 1, Op. 46: III. Dança de Anitra

“L’Arlésienne’

George Bizet, Anônimo

Quatro anos antes da estreia de Peer Gynt com música de Grieg, Georges Bizet, o compositor francês que se tornou célebre por ter escrito a ópera Carmen, escreveu a música de cena para uma peça do escritor francês Alphonse Daudet chamada “L’Arlésienne”.

Após uma juventude muito difícil, Daudet foi para Paris, onde conseguiu trabalho no jornal Le Figaro. Era 1858, ele estava com 18 anos de idade e havia arriscado escrever e editar alguns poemas, que lhe trouxeram alguns admiradores. Escreveu em seguida algumas peças de teatro, que lhe trouxeram mais reconhecimento, até ser contratado como um dos secretários do Duque de Morny, meio-irmão e ministro de Napoleão 3º. A partir de então, a vida de Daudet começou a mudar para melhor. Seu grande sucesso chegou quando ele começou a escrever pequenos textos retratando aspectos pitorescos da vida na Provença, sua região natal. Escrevendo novela após novela, Daudet finalmente conquistou fama e fortuna.

A peça “A Arlesiana” foi escrita em 1869. Arlesiana é uma mulher da cidade de Arles, que está situada na Região da Provença, local onde acontece a trama.

Essa personagem é apaixonada por um jovem camponês chamado Frederí, e eles planejam se casar. Frederí, contudo, descobre, pouco antes do casamento, que sua noiva o havia traído, enlouquece e termina por se suicidar.

Para esse enredo muito simples, Bizet escreveu música de cena composta por 27 números, quase uma hora de música. A peça não foi bem recebida e logo caiu em esquecimento, mas a música de Bizet é tocada até hoje.

A música confirma a maestria do compositor em adaptar-se a universos musicais diferentes do seu. Foi assim na ópera Carmen, em que ele se sai bem ao lidar com a música espanhola, e o mesmo acontece com “A Arlesiana”, ao trabalhar com a música da Provença.

Aconteceu com A Arlesiana o mesmo que se passou com Peer Gynt. Foram selecionados oito, dos mais de vinte números, e passaram a ser tocados em concerto. O próprio Bizet selecionou 4, e os outros 4 foram selecionados após sua morte por seu amigo Ernest Guiraud.

Bizet: L’Arlésienne Suíte nº 1, WD 40: 1. Prelúdio “A Marcha dos Reis”

Bizet: L’Arlésienne Suíte nº 1, WD 40: II. Minueto

Bizet: L’Arlésienne Suíte nº 1, WD 40: III. Adagietto

Como eu disse, música e teatro sempre estiveram juntos. Muita música para teatro foi composta e serviu apenas para enriquecer os espetáculos. Mas algumas obras, especialmente inspiradas, alcançaram vida própria e são tocadas até hoje em salas de concerto.

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Saudações Musicais!

🎭 A Máscara Negra 🎶

Olá pessoal.

Escrevo este texto no mês de fevereiro; por isso, tive vontade de compartilhar com vocês um texto sobre carnaval. 


Carnaval e música, é claro.  😊


Pois bem, carnaval sempre me faz lembrar de uma música que me causou uma forte impressão ainda na infância: 


Uma marcha-rancho, foi composta por Zé Keti e Pereira Matos para o Carnaval de 1967, tornando-se um enorme sucesso na voz de Dalva de Oliveira.

Dalva de Oliveira

Eu tinha apenas sete anos de idade, mas me encantei com aquela melodia maravilhosa, a ponto de decorar a letra de tanto a cantarolar.

Um de seus versos, porém, me encafifou:


E logo depois, eu ouvia outro que produzia o mesmo efeito:


Não fazia muito tempo que eu tinha sido alfabetizado, de modo que estranhei muito aquelas palavras: Pierrô, Colombina, Arlequim…


Perguntei para meu pai, para minha mãe, mas eles não sabiam seus significados.
Também minha professora não soube me explicar direito.
Disse que eram “personagens”, e só.O que me deixou ainda mais insatisfeito.

Pierrô, Colombina e Arlequim.

Bem, logo eu esqueci o assunto e segui a vida.


Porém, na adolescência, já estudando música seriamente, eu comecei a encontrá-los de novo!  As palavras e os personagens.


Só que dessa vez, no contexto da música clássica! 


Bem, minha curiosidade sobre o assunto voltou, e ainda mais forte.
Afinal de contas, o que esses personagens que eu julgava carnavalescos, tinham a ver com música erudita?


Schumann, por exemplo, tem uma peça para piano chamada Arlequim, e outra chamada Pierrô.
E as duas fazem parte de uma suíte chamada “Carnaval”.

A famosa ópera “Pagliacci”, de Ruggero Leoncavallo falava de uma “Colombina”.

E qual não foi meu espanto, quando descobri o “Pierrot Lunaire”, de Arnold Schoenberg, numa apresentação em São Paulo que ficou para a história!

Caro leitor, cara leitora, não vou dar mais exemplos para não deixar o texto chato. 

Apenas cito rapidamente mais alguns nomes que também seguiram por este caminho: Paganini, Berlioz, Dvorak, Debussy, Tchaikovsky, Stravinsky, Prokofieff, Massenet, Chaminade….

Quanto mais eu estudava música, mais me deparava com Arlequim, Pierrô e Colombina retratados musicalmente por grandes compositores.


Fui assim entendendo que os grandes compositores eruditos, apesar de nunca terem tido a oportunidade de sequer imaginar o que era o samba, também criaram sua música de carnaval.

Historicamente, as máscaras permitiam que nobres e plebeus se misturassem sem julgamentos, eliminando temporariamente as distinções de classe. 


Funcionavam como um símbolo de liberdade e transgressão, permitindo comportamentos que seriam proibidos no dia a dia, como o jogo ou a frequência a locais de má reputação sem comprometer a identidade. 


Modelos icônicos como a Bauta veneziana são marcos desta tradição.

Uma “Bauta” veneziana

Na Península Ibérica, em comunidades rurais, durante o ciclo carnavalesco as máscaras encarnam figuras grotescas ou diabólicas, como os Caretos em Portugal.

Eles simbolizam a expulsão de maus espíritos, a fertilidade e a vitalidade da comunidade no fim do inverno.

Caretos de Podence, cidade no extremo noroeste português


Outro exemplo fascinante na Europa é o Carnaval de Binche, na Bélgica.

Os personagens principais, chamados Gilles, usam máscaras de cera idênticas, caracterizadas por óculos verdes, bigodes finos e pequenas costeletas. 

A uniformidade visual simboliza a igualdade total entre os participantes durante a festa.


A máscara é um símbolo de identidade tão forte que, por lei local, só pode ser usada em Binche.


É estritamente proibido sentar-se ou estar bêbado enquanto se usa o traje de Gille em público!

Os Gilles no Carnaval de Binche, na Bélgica


O leitor pode estar se perguntando por que só dou exemplos europeus.


Sim, poderia falar de maravilhosos exemplos africanos…

FESTIMA,  festival de máscaras em Dédougou, norte de Burkina Faso

… ou asiáticos…

Festival Dinagyang na Cidade de Iloilo, nas Filipinas

Contudo, minha intenção é justamente mostrar o caminho para entendermos como os compositores eruditos europeus alimentaram sua música com o espírito do Carnaval.


Sempre interessados em explorar diferentes estados de espírito através da linguagem musical, muitos compositores sentiram-se atraídos pela liberdade oferecida pela súbita sensação de igualdade social, bem como pelos mistérios das conexões espirituais.


O resultado foi um número bem grande de obras musicais muito interessantes!!!

Espero que tenha gostado da leitura! 🙂

E caso a leitora ou o leitor queiram continuar a explorar esse fascinante caminho, basta escrever um comentário dizendo que sim!

Saudações Musicais do maestro João Mauricio Galindo.

Luigi Boccherini

Boccherini por Pompeo Batoni 

O compositor italiano Luigi Boccherini foi um dos mais importantes representantes do classicismo. Boccherini viveu entre 1743 e 1805, e foi contemporâneo de Mozart e Haydn.

A produção de Boccherini permanece praticamente desconhecida dos apreciadores da música de concerto; a única peça popularizada foi um singelo minueto, e isso porque fez parte da trilha sonora de um longa-metragem britânico chamado “The Ladykillers”, lançado em 1955.

Não fosse por esse filme, a música de Boccherini teria talvez continuado esquecida, o que vinha acontecendo desde sua morte no início do século XIX.

Ladykillers 1955 – Minueto de Luigi Boccherini

O minueto faz parte do quinteto de cordas opus 11 nº 5, em mi maior, que tem quatro movimentos. Tanto o minueto como o allegro são ótimos exemplos do estilo galante do início do classicismo: um estilo que procurou uma música mais fácil de ser compreendida, sem as complexas texturas do contraponto, com belas e agradáveis melodias sobre estruturas de acompanhamento claras e simples.

Concerto para Violoncelo em Ré maior, G. 478: I. Allegro con spirito

Estilo Galante

Como eu disse há pouco, Boccherini foi um representante do estilo galante, que sucedeu o barroco e marcou o início do classicismo. Pois bem, embora esse estilo tenha sido muito apreciado entre 1720 e 1770, aproximadamente, ele foi saindo de cena a partir do início do século XIX. Naquela época, com o surgimento do Romantismo, gigantescas forças emocionais foram libertadas. Um exemplo: a titânica sinfonia Eroica de Beethoven, foi completada em 1804, um ano antes da morte de Boccherini.

Então vocês podem me perguntar: Mozart e Haydn não escreveram obras em estilo galante? Se a resposta é sim, por que não foram esquecidos também? É verdade, Mozart e Haydn também escreveram obras nesse estilo. Aliás, a peça mais conhecida de Mozart é galantíssima – se me permitem a expressão. Falo da conhecidíssima Pequena Serenata Noturna, K. 525. A maioria das obras de Mozart e Haydn são em estilo galante, e uma menor parte, menor mas muito importante, explora um mundo emocional mais complexo, apontando para o futuro.

Evolução

Boccherini, assim como Mozart, amadureceu e seu estilo próprio foi se desenvolvendo com o passar dos anos.

Podemos constatar essa evolução expressiva de Boccherini ouvindo as peças listadas abaixo.

Vejamos o 1º movimento do Quinteto de Cordas opus 13 nº 4, em ré menor, Allegro Moderato. Aqui já não temos mais pura galanteria; as melodias não são simplesmente agradáveis; mais que isso, são expressivas, meditativas. O espírito geral da peça é mais sério e muito lírico.

Quinteto nº 16 em ré menor, Op. 13 nº 4, G. 280: I. Allegro moderato

Como disse, trata-se de uma peça mais séria, com um caráter geral bem diferente do descompromissado estilo galante.

E essa tendência à seriedade e introspecção encontra-se em diversas outras obras de Boccherini, como o 4º movimento, Allegro Assai, do Quarteto de Cordas em fá menor, opus 52 nº 4.

Quarteto de Cordas em fá menor, Op. 52, nº 4, G. 235: IV. Allegro assai

Se a peça anterior ainda ficava entre o estilo galante e um clássico amadurecido, nesta não há dúvidas: de galante ela tem muito pouco, e não faltam momentos de verdadeira dramaticidade e introspecção.

A essa altura o leitor deve estar se perguntando: “maestro, por que só quartetos e quintetos”? Hoje optei por me concentrar na música de câmara. Esses três são os principais gêneros desenvolvidos durante o classicismo, e no caso específico da música de câmara, a contribuição de Boccherini foi notável. Primeiro pela quantidade: ele deixou muitas centenas de obras do gênero. Quanto à qualidade, é algo surpreendente.

Estilo Muito Particular

Uma informação muito importante é o fato de Boccherini ter ido ainda muito jovem para Madrid, onde passou toda o restante de sua vida. Joseph Haydn costuma dizer que, a serviço da família Esterhazy, passou 30 anos distante de Viena e da vida musical vienense, e por isso foi forçado a se tornar original.

Exatamente o mesmo aconteceu com Boccherini. Madrid estava muito distante dos centros musicais que “ditavam a moda”, por assim dizer, como Viena, Paris ou Milão, e por isso Boccherini desenvolveu um estilo muito particular.

O musicólogo belga François-Joseph Fétis, que viveu entre 1784 e 1871, declarou que “um ouvinte da época, ao ouvir uma obra de Boccherini, podia muito bem imaginar que ele não conhecia nenhuma outra música além da sua própria.”

Para ilustrar, uma outra obra de Boccherini, que apesar de ser de juventude – é seu opus 2 – já mostra elementos bastante diferentes do clássico usual.

Boccherini – Quarteto de Cordas, Op. 1 nº 2: IV. Allegro

Stanley Sadie, respeitadíssimo musicólogo britânico do século XX, concorda com essa tese do isolamento de Boccherini, semelhante ao de Haydn, e diz que é muito difícil apontar quais compositores o influenciaram.

Influência Espanhola

Madri, Julius Silver por Pixabay

Contudo uma influência é certa: a música popular do seu país de adoção, a Espanha. Segundo Stanley Sadie, essa influência se dá de duas maneiras. A primeira é muitíssimo sutil, com o uso de ritmos espanhóis de um modo que só pode ser identificado a partir de uma escuta muito atenta. Mas há peças em que essa influência é explícita. É o caso de “Introdução e Fandango”, para quinteto formado por dois violinos, viola, violoncelo e violão.

Diferente de Mozart e Haydn, para quem o violão não tinha qualquer importância, Boccherini dedicou várias obras ao instrumento; e essa abaixo é a preferida dos violonistas, com seu ritmo dançante direto e seu bom humor.

Quinteto para cordas nº 4 em ré maior, G. 448, Fandango: III. Grave assai

“Música Noturna das Ruas de Madrid”

Ainda nessa linha de forte influência espanhola, veremos uma obra muito interessante, e que o próprio Boccherini proibiu que fosse executada fora da Espanha. O motivo, segundo ele, é que só os madrilenhos seriam capazes de compreendê-la. Trata-se da “Música Noturna das Ruas de Madrid”.

Ela tem cinco movimentos, cada um descrevendo um evento típico da noite madrilenha. O primeiro movimento são os sinos da paróquia que chamam a população para rezar a Ave Maria, ao anoitecer. Ouve-se também o violino imitando os tambores dos soldados.

Em seguida, a canção dos cegos que pedem esmola em frente à igreja. Nessa, Boccherini pede aos violoncelistas que coloquem seus violoncelos sobre os joelhos, como se fossem violões.

O próximo movimento é o rosário, a oração católica em devoção à Maria. Nessa peça Boccherini pede aos músicos para não tocar com ritmo definido, a fim de simular a sonoridade típica da oração. Ouvimos nitidamente o padre e a resposta dos fiéis.

Em seguida, após sair da igreja, ouvem-se os cantos do povo. Boccherini intitulou esse movimento “Los Manolos”. Temos os violinos viola e um violoncelo imitando o violão. O segundo violoncelo toca uma melodia que certamente os ouvintes da época poderiam reconhecer de imediato.

O novo som de tambor indica a chegada da guarda militar. É hora do toque de recolher. No último movimento, Boccherini descreve a passagem da guarda.

L. Boccherini: A Música Noturna das Ruas de Madri, Op. 30 nº 6 (G. 324) / J. Savall

Procurei mostrar a vocês um pouquinho da notável música de câmara de Luigi Boccherini, em minha opinião e também na opinião de musicólogos do maior respeito, um dos mais importantes compositores do classicismo.

Espero que tenha gostado deste post!

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Saudações Musicais!

Natal Desconhecido

Quando pensamos neste assunto, vêm à logo mente obras muito conhecidas e grandiosas como O Messias, de Handel, o Oratório de Natal, de J. S. Bach, ou mesmo simples canções natalinas tradicionais como Noite Feliz ou Adeste Fidelis.

Como essas obras são tocadas com frequência, eu pensei em procurar obras natalinas menos conhecidas, pois existe um imenso repertório sobre esse assunto a ser explorado. Dá mais trabalho, mas é muito gratificante!

Afinal, se Bach e Handel escreveram esses verdadeiros monumentos musicais que são o Oratório de Natal ou O Messias, é porque já existia na Europa um grande repertório de peças mais curtas, fruto de uma longa tradição composicional natalina. E sem dúvida essas peças mais simples prepararam o terreno para as imensas obras que eu citei.

Nos mesmos séculos XVII e XVIII em que viveram Bach e Handel, encontramos peças encantadoras, que verdadeiramente evocam o espírito do Natal.

Faremos um passeio musical pela Europa, mostrando obras de vários países. E sobretudo, deixemos que a música fale por si mesma.

Pavel Josef Vejvanovsky

Vamos começar com um compositor chamado Pavel Josef Vejvanovsky com a Sonata Natalis, para cordas e trompetes com a Academia de Música Antiga, dirigida por Christopher Hogwood.

Vejvanovsky viveu entre 1633 e 1693 na Moravia, onde era trompetista da corte de Kromeriz. Nesta peça é possível perceber a presença de melodias de caráter popular, quem sabe melodias cantadas pela população local no Natal.

 Pavel Vejvanovsky – Sonata Natalis – Academy of Ancient Music – Christopher Hogwood

“Espírito Natalino”

O que faz com que essas peças compostas para o Natal sejam semelhantes? Afinal são peças puramente instrumentais. Como os compositores transmitiam através de sons o tal “espírito natalino”?

Uma maneira fácil de entender é fazer uma analogia com os presépios. No presépio temos a presença dos animais e dos pastores, ou seja, um cenário rústico e muito simples, que acolhe o nascimento do filho de Deus. Esse é um grande símbolo do Natal e do Cristianismo. Pois bem, do mesmo modo, na música natalina europeia do século XVIII era comum o uso de melodias de pastores, e referências a esse ambiente rústico e simples.

Há relatos que dizem que no sul da Itália, nos dias que antecediam o Natal, os pastores desciam das montanhas e na praça principal da cidade tocavam melodias natalinas em suas gaitas de foles e outros instrumentos rústicos. Essas melodias estão perdidas para nós, mas certamente eram usadas por compositores de música séria. Uma das mais célebres obras que se referem ao Natal é o Concerto Grosso opus 6 nº 8, de Arcangelo Corelli. Em vez de terminar com uma dança animada, Corelli finaliza com uma “Pastoralle”, que com certeza foi composta no espírito das melodias populares de sua época.

Concerto Grosso in G Minor, Op. 6, No. 8 “Christmas Concerto”: VI. Largo. Pastorale ad libitum

Giuseppe Torelli

Curiosamente, existe um compositor contemporâneo de Arcangelo Corelli, chamado Giuseppe Torelli, que também compôs um concerto grosso para o Natal. Torelli escreveu em seu manuscrito. “Concerto a quatro in forma di Pastoralle, per il Santissimo Natale” Notem sempre a referência aos pastores e seu universo musical.

Torelli: Concerto Grosso in G minor, Op. 8, No. 6 “Christmas Concerto”

Alessandro Scarlatti

Scarlatti nasceu em Palermo em 1660 e faleceu em Nápoles em 1725. Embora seu nome esteja nos livros de história da música sempre ligado ao desenvolvimento da ópera napolitana, ele escreveu uma enorme quantidade de música sacra. Foram mais de 600 cantatas, abaixo, você poderá ouvir a Cantata de Natal, para soprano solo e orquestra. Ela é formada por uma abertura instrumental, seguida por três pares de recitativo e aria.

Christmas Cantata: Allegro

Gregor Joseph Werner

Agora vamos deixar a Itália. Iremos de Nápoles para um outro importante centro musical europeu: a corte dos Esterházy. A família Esterházy tinha no interior da Hungria um palácio que entrou para a história da música, pois lá viveu e trabalhou por 30 anos ninguém menos que Joseph Haydn. Neste palácio Haydn foi precedido pelo compositor Gregor Joseph Werner. Abaixo, você poderá ouvir uma Pastoral de Natal.

Ela tem como título “Christmas Pastorella”, que poderíamos traduzir por “Uma Pequena Pastoral de Natal”, para órgão e cordas. Aqui remetemo-nos novamente à música dos pastores, e a seus instrumentos.

Não é difícil perceber, em alguns momentos, cordas e órgão tentando imitar o som dos rústicos instrumentos musicais dos pastores.

Werner Gregor (1693-1766) Pastorella for Christmas – Academy of Ancient Music – Christopher Hogwood

Pál Esterházy

Sempre ouvimos falar neste palácio dos Esterházy que fica no interior da Hungria, onde trabalhou por 30 anos o grande Franz Joseph Haydn. Mas o que nunca ouvimos falar é que um dos membros desta família aristocrática foi muito bom compositor. É o caso de Pál Esterházy, que viveu entre 1711 e 1762. Pál foi responsável por um dos mais importantes capítulos da cultura europeia, pois foi ele que contratou Joseph Haydn e estimulou sua atividade como compositor.

Além de político e militar, Pál Esterházy era um apaixonado pelas artes. Foi poeta, dançarino, músico e compositor muito respeitado. Sua obra “Harmonia Celestis” tornou-se conhecida por toda a Europa. Trata-se de um ciclo de 150 pequenas cantatas, música simples, mas muito inspirada.

No. 4: Nil canitur iucundius

Michel-Richard de Lalande

Essa nossa busca pela música natalina do barroco terminará na França, com o compositor Michel-Richard de Lalande. Lalande viveu na corte de Versalhes, sob à proteção do Rei Luís XIV, tornando-se diretor da Capela Real em 1683. Compôs muitos ballets e música sacra. Abaixo, três de suas Symphonies de Nöel, ou seja, Sinfonia de Natal.

Não devemos confundir essas sinfonias com as Sinfonias grandiosas que conhecemos hoje. Nos séculos XVII a palavra sinfonia era usada de modo muito diferente, e podia se referir a pequenas peças instrumentais, e é esse o caso das sinfonias de Lalande.

Elas são baseadas em melodias tradicionais francesas. Cada sinfonia apresenta a melodia e em seguida uma variação. São peças simples, sem grandes pretensões formais, mas absolutamente encantadoras. Eram tocadas na Capela Real, durante a noite de Natal.

Symphonies for Christmas (excerpts) : No. 4. Elle alloit au temple

Que essas peças natalinas que ouvimos nos lembrem que a simplicidade, na arte ou na vida, pode ser uma grande virtude e fonte de muita beleza.

Um felicíssimo Natal a todos!

Espero que tenha gostado deste post!

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Saudações Musicais!

Natan Schwartzman

Vamos conhecer a vida e o trabalho de um dos mais notáveis violinistas brasileiros: o fluminense Natan Schwartzman.

Natan nasceu em Niterói em 1930, e iniciou seus estudos ao violino com Paulina d’Ambrósio, violinista carioca importantíssima, responsável pela formação de toda uma geração de violinistas brasileiros.

Em seguida Natan Schwartzman transferiu-se para São Paulo e estudou no Conservatório Dramático e Musical da capital.

Concluído o curso, foi para Nova Iorque, para estudar na Juilliard School, uma das mais importantes escolas de música do mundo. Lá Schwartzman tornou-se spalla da orquestra da escola, realizou diversos recitais. Formou-se em 1951, com apenas 21 anos de idade.

Início

Juilliard School

Em 1952 Natan retornou ao Brasil, e iniciou uma carreira brilhante. Apresentou-se em recitais em nada menos que 90 cidades brasileiras, e em 1953, com 23 anos, venceu o concurso para spalla de uma recém-criada orquestra: a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Em 1957 Natan iniciou uma nova temporada de estudos: conquistou uma bolsa para estudar em Londres com um dos mais importantes professores europeus de então, o alemão Max Rostal.

Max Rostal

Rostal foi responsável pela formação de muitos dos mais importantes violinistas brasileiros. Vou citar alguns: a professora Maria Vischnia, que foi primeira violinista do Quarteto de Cordas Cidade de São Paulo, e spalla da Orquestra Brasi Jazz Sinfônica; o professor Paulo Bosísio, que se dedica há décadas à formação de jovens violinistas e violistas brasileiros; o professor Alberto Jaffé, criador do primeiro método de ensino de cordas através de prática em grupo em nosso país.

Em 1985, Max Rostal esteve no Brasil, em Curitiba, onde realizou uma série de aulas assistidas, ou master classes, que eu tive o privilégio de frequentar. E lembro dele ter dito que durante os muitos anos que lecionou na Europa recebeu centenas, senão milhares de alunos, e que se tivesse de citar os mais talentosos deles, não se esqueceria de modo algum do brasileiro Natan Schwartzman.

Carreira Internacional

Em 1958 Natan Schwartzman estava em Londres, estudando com Max Rostal fazia um ano, quando foi contratado pela Companhia de Radiodifusão Inglesa – a BBC como solista e recitalista. Dois anos depois voltou ao Brasil – tinha 30 anos, e uma notável experiência internacional.

A partir de então fixou-se por aqui, mas teve outras oportunidades de apresentar-se no exterior. Em 1966 realizou uma extensa turnê pelos Estados Unidos, e em 1978 realizou, sob o patrocínio do Itamarati uma turnê pela Europa acompanhado por outro brilhante músico brasileiro, o pianista Fernando Lopes.

As apresentações no Brasil também aconteciam. Em 1973 fez o recital de inauguração do Teatro Municipal de Santos, e em 1983 realizou mais uma turnê pelo Brasil, desta vez em 18 cidades, acompanhado pelo pianista Achille Picchi. A turnê tinha como tema o mais difícil repertório violinístico: a obra de Paganini.

Abaixo está um dos poucos vídeos em que podemos ver este grande violinista, acompanhado ao piano pela tamb´ém grande Eudóxia de Barros.

Eudoxia de Barros (1991) & N. Schwartzman – O. Lacerda: Acalanto Pentafonico

Reconhecimento

Natan Schwartzman recebeu muitos prêmios e homenagens no Brasil. Em 1960 venceu, por unanimidade, o concurso para violino organizado pela Comissão Estadual de Música de São Paulo. Em 1964 seu disco Recital de Peças Brasileiras recebeu da APCT o prêmio de melhor gravação de música brasileira. Em 1975 e 1980 recebeu o prêmio de melhor solista da APCA.

Além de tudo isso, Natan Schwartzman dedicou-se muito ao ensino. Foi o primeiro professor de violino do Departamento de Música da Universidade de Brasília, em 1964; de 1971 até 1992 foi professor de violino do Instituto de Arte da Universidade de Campinas; e foi também professor de violino do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Eudoxia de Barros (1991) & N. Schwartzman – Viana de Almeida: Seresta a Brasileira

Homenagem

Natan Schwartzman foi um dos mais talentosos, mais bem preparados e mais atuantes violinistas brasileiros por muitas décadas. Além de sua atuação internacional, tocou acompanhado por muitas orquestras brasileiras, sendo convidado com frequência pelos nossos mais destacados regentes, como Eleazar de Carvalho, Isaac Karabtchevsky, Roberto Schnorrenberg, Souza Lima e Cláudio Santoro.

Em 1990, Unicamp e a Orquestra Sinfônica de Campinas, dirigida pelo maestro Benito Juarez, homenagearam seus 60 anos com um concerto de gala, em que ele atuou como solista. Morreu em São Paulo, aos 90 anos, em 2020.

Merece ser lembrado desde já. Que lhe sejam rendidas homenagens sempre, por tudo que fez pela música deste país.

Natan Schwartzman e Fernando Lopes | Vivaldi, Franck, Brahms (Petrópolis, 1976)

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Saudações Musicais!

Música de Câmara

Música de câmara é uma expressão que intriga muita gente. Volta e meia alguém me pergunta do que se trata. Pra quem ainda não sabe, música de câmara é, a rigor, música para ser tocada em pequenos espaços. A palavra câmara aqui se refere a um aposento de uma casa ou de um palácio.

Nos séculos XVI, XVII e início do XVIII ainda não havia espaços públicos dedicados à música puramente instrumental. Esse tipo de atividade se restringia às residências dos aristocratas.

Mas quando começa a surgir a classe média, o panorama muda um pouco de figura.

Arcangelo Corelli

Tomemos por exemplo um compositor barroco, como o italiano Arcangelo Corelli, que viveu entre 1653 e 1713. Ele trabalhou para personalidades ricas e importantes, como a Rainha Cristina da Suécia, que naquela época estava exilada em Roma, o Cardeal Pietro Ottoboni, que viria a ser o Papa Alexandre 8º, ou o Duque de Modena.

Quando eu digo “trabalhou”, significa que ele tomava parte de execuções de música num dos luxuosos salões onde residiam essas personalidades.

Assim era a música de câmara

Popularização

Ninguém mais, além dos ricos e poderosos, tinha, naquele tempo, o privilégio do acesso à música instrumental de tamanha qualidade. Porém, aos poucos a sociedade europeia foi passando por uma admirável evolução. A riqueza começou a mudar de mãos com o surgimento da burguesia, uma classe que apesar de não ter sangue azul, passou a ter muito dinheiro.

Visando esse público começam a surgir os concertos em salas grandes, para centenas de pessoas. As orquestras saíram do fosso da ópera e das igrejas para se apresentar em pleno palco: tornam-se o centro das atenções. Paris foi um dos centros em que essa novidade mais se difundiu.

Beethoven

Além de frequentar concertos, essa nova classe social endinheirada também procurou aprender música, um dos principais passatempos da época. E como procuravam em tudo imitar os aristocratas, os burgueses também passaram a organizar a sua própria música de câmara.

Não estamos mais no final do século XVII, como Corelli, mas no início do século XIX, quando o jovem Beethoven começa a despontar no meio musical Vienense.

Não é à toa, portanto, que a primeira obra que o jovem compositor alemão decidiu levar a público foi escrita numa das formações preferidas pelos músicos amadores: piano, violino e violoncelo.

Clicando abaixo, você poderá ouvir o primeiro movimento do seu Trio opus 1, número 1.

Música Doméstica

Quem tinha acesso à educação, incluindo aulas de música, e possuía uma bela casa onde pudesse receber os amigos, não se furtava ao prazer de convidá-los para noites de música … música executada por eles mesmos.

E os compositores, sempre atentos às novas possibilidades de ganhar algum dinheiro, passaram a escrever música para esse público. Boa parte da música de câmara do século XIX surgiu desta maneira.

Quarteto Razumovsky nº1

Ainda jovem, Beethoven se preocupava em conquistar um público que pudesse comprar o que ele tinha para vender. Mas logo ele tumultuaria esse jogo, inculcando mais e mais um novo conceito: a música pura como grande arte, à qual todos deveriam se curvar. Muito mais que um simples produto…

Baseado nesse conceito é que surgiram as suas monumentais sinfonias, a sua única e admirável ópera, Fidélio e sua gigantesca Missa Solene.

Sua música de câmara seguiria o mesmo caminho, ficando cada vez mais difícil e complexa. Já não havia como ser tocada por amadores, e foi aí que os quartetos profissionais começaram a surgir.

O embaixador russo em Viena, Andrey Kirillovich Razumovsky, era um fervoroso amante de música. Ele mantinha um quarteto de cordas estável em seu palácio, que fazia apresentações frequentes e tinha um nível musical muito acima da média.

Andrey Razumovsky em 1810, por Lampi, o jovem.

O líder e primeiro violinista deste quarteto chamava-se Ignaz Schuppanzigh, e era um dos melhores amigos de Beethoven.

Neste contexto surgiriam 3 obras primas da música de câmara do século XIX, os quartetos opus 59 de Beethoven, dedicados ao embaixador Razumovsky e estreados por seu quarteto.

Logo o quarteto conseguiria de Razumovsky autorização para apresentar-se a públicos pagantes. Nascia a música de câmara profissional.

O 1o. movimento do quarteto Razumovsky no. 1 tem, em minha opinião, uma das mais belas melodias criadas por Beethoven.

Música Depurada

O que eu quero dizer com “música depurada”?

Sabe, caro leitor, aquele molho reduzido que os grandes chefes fazem? Aquele caldo de legumes que fica horas no fogo baixo, para que a água evapore lentamente, de modo que os aromas mais surpreendentes sejam revelados?

Quando falo em música depurada, é nisso que eu penso!

Voltemos a Beethoven. Com ele o mundo passou a conviver com essa difícil oposição: a busca pelo transcendental, pela beleza inexplicável que a obra de arte musical podia oferecer, e a comezinha necessidade da sobrevivência diária, ligada à música de entretenimento…

Então, coisas surpreendentes passaram a acontecer.

Beethoven tomou sua Sinfonia no. 2, e arranjou-a para um trio com piano.

Mas por que Beethoven fez isso? Por que se dar ao trabalho – enorme trabalho – de reescrever para um pequeno grupo toda uma sinfonia, composta originalmente para dezenas de músicos?

A resposta é simples: naquela época não havia gravação; um potencial fã de Beethoven não podia simplesmente entrar numa loja, comprar um CD de uma de suas sinfonias para ouví-la calmamente em casa. O jeito que o compositor tinha de divulgar sua obra era justamente valer-se do hábito dos músicos amadores de se reunir em casa para tocar. Uma boa parte da aceitação conquistada por compositores naquela época se devia a arranjos de suas obras maiores em versões facilitadas, criadas para este público.

Isso não foi invenção de Beethoven, e muito menos se restringia às obras sinfônicas. Antes dele despontar na cena musical vienense, já era uma prática corrente na ópera.

A Europa estava, já no final do século XVIII, inundada de arranjos e transcrições das mais conhecidas árias de óperas. A pessoa ia ao teatro, se encantava com uma determinada aria, e no dia seguinte ia correndo comprar a partitura para piano, ou para voz e piano, flauta e piano, violino e piano, ou seja lá o que fosse, para tocá-la em casa.

E o inverso também acontecia: convidado a ir à casa de um amigo, ele ouvia a aria, encantava-se, e no dia seguinte ia comprar os ingressos para assistir ao espetáculo.

Isso ajudava muito os autores, executantes e empresários a ganhar seu necessário sustento.

Mas aí voltamos àquela oposição sobre a qual falei: será que um arranjo desses não deturpa a obra de arte? Não a empobrece? É válido?

Nos dias de hoje pergunta-se se espetáculos de música clássica mais “light” como o de André Rieu ajudam o público não conhecedor a ingressar no maravilhoso mundo da música artística… pois é, mais de 200 anos se passaram e a pergunta permanece

Para terminar, deixo abaixo um link para você ouvir o 1o. movimento deste arranjo que o próprio Beethoven fez de sua 2a. Sinfonia.

Espero que tenha gostado deste post!

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Saudações Musicais!