As Estações de Joseph Haydn

Neste texto vamos conhecer as Estações de Joseph Haydn, um monumental oratório para Coro, solistas e orquestra. Com essa obra Haydn coroou sua carreira que começou muito modesta e atingiu no final de sua vida uma magnitude inimaginável.

Em sua juventude os compositores ocupavam uma posição social muito baixa. Mas os tempos mudaram e quando já era um sexagenário, às portas do século XIX, Haydn mal podia entender como havia se tornado uma celebridade internacional muito bem paga.

Início

Joseph Haydn

Tudo começou com partituras de suas sinfonias e quartetos circulando pela Europa, muitas delas em cópias manuscritas.

Seu nome em pouco tempo se tornou conhecido nos maiores centros musicais europeus, até que em 1785, quando estava com 53 anos de idade, ele recebeu uma encomenda para escrever seis Sinfonias para serem tocadas em Paris. Elas fizeram imenso sucesso, como podemos perceber ao ler esta crítica publicada em 1988 na capital francesa:

“Em todos os concertos foram tocadas sinfonias do sr Haydn. A cada dia aumenta a compreensão e admiração pelas obras desse grande gênio. Como ele consegue, a partir de um único tema, encetar os mais ricos e variados desenvolvimentos…”

Sucesso

Após esse sucesso parisiense, Haydn receberia outra encomenda, de maior importância ainda. O violinista e empresário Johann Peter Salomon, alemão radicado em Londres, levou Haydn àquela cidade em 1791, onde ele ficou por três anos, compondo e apresentando suas sinfonias de números 93 a 98. O sucesso foi estrondoso e com elas Haydn finalmente colheria os frutos de décadas de trabalho e dedicação a esse gênero.

Em 1794 Haydn voltaria pela segunda vez a Londres, novamente compondo e regendo mais 6 sinfonias, de números 99 a 104.

Após essas últimas experiencias sinfônicas, Haydn ainda dedicaria seu esforço à composição de dois magníficos oratórios. O primeiro deles foi a Criação, escrito em 1798 por sugestão do próprio Johann Salomon. E em entre 1799 e 1801 Haydn escreveria As Estações.

Inspiração

Gottfried von Switen

O texto foi escrito por um diplomata chamado Gottfried von Switen, baseado num poema do inglês James Thompson, escrito em 1726.

O texto relata as atividades dos homens do campo em suas atividades, nas diferentes épocas do ano. São três os personagens: Simão, um fazendeiro, Ana, sua filha, e Lucas um jovem camponês.

O próprio Haydn nasceu e foi criado no campo, e, portanto, sabia perfeitamente como tratar o assunto. Muitos consideram a obra precursora do romantismo que começaria logo a surgir, pois a volta à natureza era uma de suas principais características.

Assim como As Quatro Estações de Vivaldi, ela é dividida em quatro grandes partes, retratando respectivamente a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno. Enquanto Vivaldi optou por concertos para violino, Haydn constrói quatro grandes cantatas.

Primavera

A Primavera começa com uma introdução instrumental que representa a o final do inverno. Simão e Ana, em recitativo nos dizem:

“Vejam, como o triste e nebuloso inverno se vai,
indo ao longe, para o norte.
Ele chama suas rajadas
que obedientemente deixam a floresta, a colina e o vale
Vejam, como daquelas íngremes rochas
a neve se derrete e em agitadas torrentes e Anas fluem.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – A Primavera: Nº 1 Introdução/Recitativo: “Vede como o…”

E ainda neste recitativo surge Ana, que diz:

“Vejam como, das praias do sul,
através do ar tépido e sedutor,
espalha-se o mensageiro da primavera”

O anúncio da primavera se segue com a participação do coro, em um número de impressionante beleza e lirismo.

“Venha, gentil, primavera.
etérea e amena, venha.
Fora de sua sepultura invernal,
a natureza lentamente se levanta.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – A Primavera: Nº 2 Coro: “Vem, encantadora primavera!”

Verão

O anúncio do Verão é feito por Lucas e Simão, também por meio de um recitativo acompanhado. Haydn aqui soa bastante moderno, em um trecho da obra que prenuncia o romantismo. Ao retratar o nascer do sol, em vez de procurar uma descrição mais direta, o compositor usa a harmonia e as cores orquestrais para sugerir um sol turvo de um dia abafado de verão. Os versos descrevem a cena:

“Do este, com um brilho quase imperceptível, a manhã de olhos gentis aparece…
com passos tardios a noite marrom se retira, e o dia rapidamente flui
Para escuras cavernas voam os agourentos pássaros da noite.
e seus gritos dolorosos não mais oprimirão os corações temerosos.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Verão: Nº 9 Introdução/Recitativo: “Sob um véu cinzento…”

A música então segue até a nascer completo do sol, cujo brilho intenso e poder é anunciado num trecho de grande intensidade, no qual o coro canta:

“Observem o sol que se levanta!
Ele brilha esplendorosamente nos céus em confiante majestade!
Ó sol glorioso, tu que és fonte de luz e de vida,
alma de todos os mundos que nos rodeiam, no qual meu Criador resplandece,
nós erguemos nossa canção para ti!”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – texto baseado em J. Thomson – O Verão: Nº 11 Terçeto e…

Outono

O outono é retratado por Haydn como a época da colheita e da caça. A pequena introdução instrumental reflete o sentimento de bem-aventurança compartilhado por todos. Ana canta em seu recitativo:

“Tudo o que a florida primavera colocou em alva promessa
E tudo o que o sol do verão levou a uma completa perfeição,
agora no generoso verão alegram o coração dos homens.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Outono: Nº 23 Recitativo: “Agora o campo desnudo mostra…”

E em seguida coro e solistas celebra cantando:

“Assim a natureza recompensa o árduo esforço dos homens”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Outono: Nº 24 Ária: “Vede as largas campinas!”

E não poderia no outono faltar a descrição da caça. A trompa é o instrumento diretamente associado a essa atividade e aqui Haydn cria um deslumbrante show para as trompas da orquestra.

Inverno

Chegamos ao inverno, e a sua introdução simboliza a espessa neblina que o anuncia, numa harmonia que sugere uma atmosfera fúnebre, que simboliza a morte da natureza. Simão e Ana anunciam:

“Vejam, o Inverno chegou para dominar o ano, e vapores, nuvens e tempestades descem à terra.
Espessas nuvens deslizam pela montanha, e engole a planície sem vida
O sol do meio-dia está baixo, e fracos são seus raios.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Inverno: Nº 31 Recitativo: “Acorrentado jaz o vasto lago…”

Depois de alguns números que descrevem cenas de interior, como uma canção da mulher tecendo, a obra terminará com o prenúncio de uma nova primavera, festejando o renascimento da natureza. Coro e solistas cantam:

“E então virá a gloriosa manhã, o segundo nascimento do Céu e da Terra: o grande planejamento eterno.”

Haydn: As Estações – Hob. XXI:3 – O Inverno: Nº 39 Terçeto e Coro Duplo: “Então rompe…”

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