
Os compositores de música instrumental do período barroco incluem muitos italianos bastante conhecidos: Corelli, Vivaldi, Scarlatti, Tartini, Albinoni, Frescobaldi, Benedetto e Alessandro Marcelo.
Mas quando o assunto é classicismo, nomes italianos não costumam vir à mente. Lembramo-nos sobretudo dos germânicos como Haydn e Mozart, em primeiro plano. Será que durante o período clássico os italianos se calaram? É claro que não.
Acontece que a música instrumental clássica italiana foi ofuscada pela exuberante produção operística da Itália, e também pelo pouco interesse dos próprios italianos em promovê-la e preservá-la. Hoje vamos falar de Bartolomeo Campagnoli e Giovanni Battista Viotti.
Bartolomeo Campagnoli

Bartolomeo Campagnoli foi um importante violinista italiano que nasceu em Bologna em 1751, ou seja, 4 anos antes de Mozart. Fez uma carreira notável; foi violinista de orquestra em Florença e Roma.
Com 24 anos de idade deixou a Itália, quando passou a servir um importante aristocrata. A seu serviço viajou pela Polônia, Alemanha e Escandinávia. Em Estocolmo foi eleito membro da Real Academia Sueca. Voltou para a Alemanha, onde estabeleceu-se em Dresden, a serviço de um outro aristocrata que, generosamente, lhe permitiu fazer frequentes turnês como solista. Percorreu diversas cidades italianas, visitando em seguida Praga e Berlim.
Nesse ponto de sua vida Campagnoli estava vivendo a transição entre dois mundos. Ao mesmo tempo em que era empregado de um aristocrata apreciador de música, situação típica do período pré-revolução francesa, pôde construir uma carreira de solista itinerante – situação típica da nova ordem social burguesa que se estabelecia.
Com a morte de seu patrão em 1797, Campagnoli, que estava com 36 anos, foi convidado para um cargo que até hoje é uma das maiores honrarias que um violinista pode obter: o de spalla da Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, até hoje uma das mais brilhantes orquestras do planeta. Ao chegar a esse posto Campagnoli estabeleceu-se, encerrou suas viagens e começou a publicar suas composições.
Dificuldade Técnica
Uma boa parte de suas obras são peças para violino solo, muitas de grande dificuldade técnica. Entre elas está uma coleção de prelúdios e fugas. Abaixo, uma das obras dessa coleção, o prelúdio e fuga opus 10 nº 3, na execução do violinista Davide Amodio.
A principal dificuldade que um violonista tem de enfrentar em fugas como essa são as cordas dobradas e acordes. Isso quer dizer tocar duas ou até três notas ao mesmo tempo, o que significa duas ou três cordas ao mesmo tempo.
O controle do arco nesses casos é muito mais difícil que quando toca em apenas uma corda. Para a mão esquerda a dificuldade é ainda maior. Se já não é fácil tocar uma sucessão de notas afinadas, imaginem quando se tem de fazer sucessões de dois ou três dedos simultaneamente, como num violão; mas sem dispor das marcas que o violão tem no braço. Qualquer deslize de meio milímetro significa desafinação na certa.
Obras
Suas peças para violino solo – Preludio, Fugas, Divertimentos, Polonaises, Fantasias, etc, somam mais de 300. Além delas, ele escreveu também música de câmara e concertos. Seu concerto para violino em si é um belo exemplo de classicismo lírico, pleno de delicadeza e elegância.
Campagnoli foi um bom compositor, autor de obras que podem ser executadas atualmente e certamente agradarão o público apreciador de música de concerto. Não foi um compositor excepcional, mas eu decidi apresentá-lo a vocês como um exemplo dos muitos violinistas italianos que durante o período clássico mantiveram viva a tradição italiana neste instrumento.
Giovanni Battista Viotti

Agora vamos passar para aquele que foi o mais influente internacionalmente, além de prolífico compositor: Giovanni Battista Viotti.
Viotti é considerado o mais importante violinista entre Tartini e Paganini, e o último grande representante da tradição italiana oriunda de Corelli. Além disso, é considerado o fundador da moderna escola violinística francesa. E finalmente, suas composições estão entre os mais refinados exemplos do repertório clássico do violino, e mesmo do início do romantismo. Não é pouco!
Viotti foi durante vários anos discípulo de Gaetano Pugnani, celebrado violinista que contribuiu para a transição entre o barroco e o clássico. Como discípulo, Viotti não só teve aulas, mas viajou com Pugnani por diversos países europeus.
A sua independência aconteceu em 1781, quando Viotti partiu sozinho para Paris e apresentou-se nos Concert Spirituel.
Para quem não sabe, até o comecinho do século XVIII, os concertos públicos praticamente não existiam. As atividades musicais públicas eram a ópera e a música sacra executada nos cultos religiosos. À parte raras exceções, música instrumental pura só era ouvida nas residências dos ricos aristocratas.
Concert Spirituel
Concert Spirituel foi o nome dado a uma das primeiras séries regulares de concertos públicos registradas na história. Elas aconteciam em Paris, e no seu auge – justamente quando Viotti lá esteve – funcionava como lançador de novos artistas.
Após apresentar-se lá, em março de 1782, Viotti obteve sucesso instantâneo, e foi lançado à linha de frente dos violinistas europeus. Além de tocar com frequência, sempre aclamado, Viotti começou a compor concertos para violino, obras de alta qualidade, resultado de um pensamento musical sólido e imaginativo.
Abaixo, dois movimentos finais de seu concerto nº 8 em ré maior, Andantino e Rondó, Allegretto.
Aqui temos o estilo clássico bem definido, com suas frases regulares e bem desenhadas, as emoções sob controle, e a equilibrada disposição de trechos cantantes e de demonstração de técnica.
Sintonia com seu Tempo
Como compositor, Viotti também esteve em sintonia com seu tempo, evoluindo seu estilo e apontando para o romantismo nas suas obras de maturidade.
Isso é muito fácil de constatar ouvindo os concertos que ele escreveu 10 anos depois deste que ouvimos. Um em especial, o nº 22 em lá menor, foi revivido muitos anos após a morte de Viotti por um dos mais célebres violinistas da 2ª metade do século XIX, Joseph Joachim. Johannes Brahms, amigo de Joachim, encantou-se com a obra e registrou sua admiração em uma carta endereçada a sua amiga Clara Schumann.
Já no início do 1º mov. sentimos a atmosfera do romantismo. Depois as frases se alongam, não são mais simétricas, e o trabalho harmônico produz nuances emocionais desconhecidas do classicismo ou do estilo galante. E não faltam momentos de impacto…
Não estamos ainda em pleno romantismo, com seus impactos dramáticos, profundidade emocional. Mas estamos bem adiantados no caminho, numa obra que ilustra a notável evolução musical de Viotti.
Eu os convido agora a ouvir na íntegra este 1º movimento do Concerto nº 22 de Viotti. E se me permitem a sugestão, procurem saborear essas transições e nuances, uma após a outra. Demanda atenção, mas valerá a pena!
Espero que tenha gostado deste post!
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Saudações Musicais!