
Hoje o assunto é música antiga… muito antiga: a música do tempo das Cruzadas. Escolhi esse tema porque não é pequeno o número de pessoas que se mostram curiosas a respeito da música da idade média, bem como do que seria uma música popular daquela época. É sem dúvida um assunto muito vasto, tema de estudos profundos de musicólogos seríssimos de toda parte. E sobretudo, um assunto em que há muito para ser desvendado. De modo que estamos longe de esgotá-lo, mas, para quem nunca ouviu, será uma experiência muito interessante conhecer algumas obras daquela época, e ter algumas informações a respeito.
Origens

Quando falamos nas Cruzadas, falamos do período que começa em 1095, quando o Papa Urbano II proclama a 1ª, até 1291, quando termina a última cruzada.
Esse período coincide com a início do desenvolvimento da música polifônica, que aconteceu dentro dos mosteiros europeus. Também era muito importante nessa época a música de dança, presente entre os nobres, nos castelos, e também entre o povo.
Acrescentemos a isso as canções dos menestréis, que cantavam acompanhados por um instrumento, como o alaúde e temos um riquíssimo repertório!
Os monges, trancados em seus monastérios, tinham tempo e paz suficientes para experimentar combinações de sons, e deram início no que chamamos hoje de erudição em música. Já as danças e canções dos menestréis podem bem ser considerados dentro do que hoje chamamos de música popular… mas sempre lembrando que essa divisão não é e nem era assim tão simples.
O Romance de Fauvel
O Romance de Fauvel é um longo poema francês do século XIV, atribuído a um funcionário real chamado Gervais du Bus. É uma divertida crítica à igreja e ao estado, feita, obviamente, de maneira camuflada, alegórica.
Vejam só a história: Fauvel é o nome de um asno, um asno ambicioso e tolo, que se sente insatisfeito com o estábulo onde vive. Assim, decide mudar-se para o cômodo mais espaçoso da casa de seu dono. Ao se mudar, para adaptar o cômodo às suas necessidades, manda construir uma espécie de prateleira para feno. A Fortuna, deusa romana da sorte, decide designar Fauvel o líder da casa. Imediatamente, líderes religiosos e seculares vêm de toda a parte, em grandes peregrinações, para conhecer Fauvel e render-lhe homenagens, simbolizando a tendência de Estado e Igreja penderem para o pecado e a corrupção.
Um dos 12 manuscritos existentes contêm muitos trechos musicais, que formam um rico repertório anônimo dos séculos 13 e 14.
Ductia

Uma palavra medieval que denota 2 formas musicais, uma dançada, que se chamava simplesmente ductia, e outra cantada, que era conhecida como cantilena ductia. No caso que nos interessa, a ductia dançada, consiste numa composição que tem sempre uma batida rítmica constante, feita por instrumentos de percussão.
Segundo o teórico medieval Johannes de Grocheo, em seu tratado “De Musica”, escrito em 1275, a ductia deve estimular a mente humana a dançar com gestos elaborados. A ductia tinha uma forma definida, diferente de outras danças, como a estampie, por exemplo.
Manuscrito de Bamberg
A cidade alemã de Bamberg, que fica na Baviera, sempre teve um importante papel político, pois foi durante muitos séculos a residência de um príncipe-arcebispo. Além disso, ou talvez também por causa disso, sempre foi um importante centro de música sacra, desde a idade média.
Atividade musical é mencionada em documentos que tratam das cerimônias realizadas na catedral lá existente, desde o ano de 1012.
Em 1192 foi instituída uma escola de canto, o que reforçou a importância musical da cidade. O mais importante registro dessa antiga atividade musical é o Manuscrito de Bamberg, documento que contém cerca de 100 peças vocais do século XII.
Manuscrito de Montpellier
Outra cidade que foi importante centro musical na idade média e nos legou uma admirável coleção de partituras é Montpellier, na França.
Também conhecido como o Codex de Montpellier, contém 336 obras polifônicas, provavelmente compostas entre os anos de 1250 e 1300.
A coleção é dividida em 8 fascículos, cada um dedicado a um tipo específico de composição. Por exemplo, o 1º fascículo é composto por peças usadas na liturgia; o segundo fascículo, por motetos a 4 vozes, os 6 fascículos por motetos a 2 vozes, e assim por diante.
Embora musicólogos atribuam a autoria de muitas peças a conhecidos compositores da época, trata-se de obras anônimas.
Porém, são documentos de enorme importância para estudiosos do desenvolvimento da polifonia francesa. E a maior parte das peças não são religiosas, mas compostas sobre textos amorosos.
Espero que tenha gostado deste post!
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Saudações Musicais!