
Música de câmara é uma expressão que intriga muita gente. Volta e meia alguém me pergunta do que se trata. Pra quem ainda não sabe, música de câmara é, a rigor, música para ser tocada em pequenos espaços. A palavra câmara aqui se refere a um aposento de uma casa ou de um palácio.
Nos séculos XVI, XVII e início do XVIII ainda não havia espaços públicos dedicados à música puramente instrumental. Esse tipo de atividade se restringia às residências dos aristocratas.
Mas quando começa a surgir a classe média, o panorama muda um pouco de figura.
Arcangelo Corelli

Tomemos por exemplo um compositor barroco, como o italiano Arcangelo Corelli, que viveu entre 1653 e 1713. Ele trabalhou para personalidades ricas e importantes, como a Rainha Cristina da Suécia, que naquela época estava exilada em Roma, o Cardeal Pietro Ottoboni, que viria a ser o Papa Alexandre 8º, ou o Duque de Modena.
Quando eu digo “trabalhou”, significa que ele tomava parte de execuções de música num dos luxuosos salões onde residiam essas personalidades.
Assim era a música de câmara
Popularização
Ninguém mais, além dos ricos e poderosos, tinha, naquele tempo, o privilégio do acesso à música instrumental de tamanha qualidade. Porém, aos poucos a sociedade europeia foi passando por uma admirável evolução. A riqueza começou a mudar de mãos com o surgimento da burguesia, uma classe que apesar de não ter sangue azul, passou a ter muito dinheiro.
Visando esse público começam a surgir os concertos em salas grandes, para centenas de pessoas. As orquestras saíram do fosso da ópera e das igrejas para se apresentar em pleno palco: tornam-se o centro das atenções. Paris foi um dos centros em que essa novidade mais se difundiu.
Beethoven

Além de frequentar concertos, essa nova classe social endinheirada também procurou aprender música, um dos principais passatempos da época. E como procuravam em tudo imitar os aristocratas, os burgueses também passaram a organizar a sua própria música de câmara.
Não estamos mais no final do século XVII, como Corelli, mas no início do século XIX, quando o jovem Beethoven começa a despontar no meio musical Vienense.
Não é à toa, portanto, que a primeira obra que o jovem compositor alemão decidiu levar a público foi escrita numa das formações preferidas pelos músicos amadores: piano, violino e violoncelo.
Clicando abaixo, você poderá ouvir o primeiro movimento do seu Trio opus 1, número 1.
Música Doméstica
Quem tinha acesso à educação, incluindo aulas de música, e possuía uma bela casa onde pudesse receber os amigos, não se furtava ao prazer de convidá-los para noites de música … música executada por eles mesmos.
E os compositores, sempre atentos às novas possibilidades de ganhar algum dinheiro, passaram a escrever música para esse público. Boa parte da música de câmara do século XIX surgiu desta maneira.
Quarteto Razumovsky nº1
Ainda jovem, Beethoven se preocupava em conquistar um público que pudesse comprar o que ele tinha para vender. Mas logo ele tumultuaria esse jogo, inculcando mais e mais um novo conceito: a música pura como grande arte, à qual todos deveriam se curvar. Muito mais que um simples produto…
Baseado nesse conceito é que surgiram as suas monumentais sinfonias, a sua única e admirável ópera, Fidélio e sua gigantesca Missa Solene.
Sua música de câmara seguiria o mesmo caminho, ficando cada vez mais difícil e complexa. Já não havia como ser tocada por amadores, e foi aí que os quartetos profissionais começaram a surgir.
O embaixador russo em Viena, Andrey Kirillovich Razumovsky, era um fervoroso amante de música. Ele mantinha um quarteto de cordas estável em seu palácio, que fazia apresentações frequentes e tinha um nível musical muito acima da média.

Andrey Razumovsky em 1810, por Lampi, o jovem.
O líder e primeiro violinista deste quarteto chamava-se Ignaz Schuppanzigh, e era um dos melhores amigos de Beethoven.
Neste contexto surgiriam 3 obras primas da música de câmara do século XIX, os quartetos opus 59 de Beethoven, dedicados ao embaixador Razumovsky e estreados por seu quarteto.
Logo o quarteto conseguiria de Razumovsky autorização para apresentar-se a públicos pagantes. Nascia a música de câmara profissional.
O 1o. movimento do quarteto Razumovsky no. 1 tem, em minha opinião, uma das mais belas melodias criadas por Beethoven.
Música Depurada
O que eu quero dizer com “música depurada”?
Sabe, caro leitor, aquele molho reduzido que os grandes chefes fazem? Aquele caldo de legumes que fica horas no fogo baixo, para que a água evapore lentamente, de modo que os aromas mais surpreendentes sejam revelados?
Quando falo em música depurada, é nisso que eu penso!
Voltemos a Beethoven. Com ele o mundo passou a conviver com essa difícil oposição: a busca pelo transcendental, pela beleza inexplicável que a obra de arte musical podia oferecer, e a comezinha necessidade da sobrevivência diária, ligada à música de entretenimento…
Então, coisas surpreendentes passaram a acontecer.
Beethoven tomou sua Sinfonia no. 2, e arranjou-a para um trio com piano.
Mas por que Beethoven fez isso? Por que se dar ao trabalho – enorme trabalho – de reescrever para um pequeno grupo toda uma sinfonia, composta originalmente para dezenas de músicos?
A resposta é simples: naquela época não havia gravação; um potencial fã de Beethoven não podia simplesmente entrar numa loja, comprar um CD de uma de suas sinfonias para ouví-la calmamente em casa. O jeito que o compositor tinha de divulgar sua obra era justamente valer-se do hábito dos músicos amadores de se reunir em casa para tocar. Uma boa parte da aceitação conquistada por compositores naquela época se devia a arranjos de suas obras maiores em versões facilitadas, criadas para este público.
Isso não foi invenção de Beethoven, e muito menos se restringia às obras sinfônicas. Antes dele despontar na cena musical vienense, já era uma prática corrente na ópera.
A Europa estava, já no final do século XVIII, inundada de arranjos e transcrições das mais conhecidas árias de óperas. A pessoa ia ao teatro, se encantava com uma determinada aria, e no dia seguinte ia correndo comprar a partitura para piano, ou para voz e piano, flauta e piano, violino e piano, ou seja lá o que fosse, para tocá-la em casa.
E o inverso também acontecia: convidado a ir à casa de um amigo, ele ouvia a aria, encantava-se, e no dia seguinte ia comprar os ingressos para assistir ao espetáculo.
Isso ajudava muito os autores, executantes e empresários a ganhar seu necessário sustento.
Mas aí voltamos àquela oposição sobre a qual falei: será que um arranjo desses não deturpa a obra de arte? Não a empobrece? É válido?
Nos dias de hoje pergunta-se se espetáculos de música clássica mais “light” como o de André Rieu ajudam o público não conhecedor a ingressar no maravilhoso mundo da música artística… pois é, mais de 200 anos se passaram e a pergunta permanece
Para terminar, deixo abaixo um link para você ouvir o 1o. movimento deste arranjo que o próprio Beethoven fez de sua 2a. Sinfonia.
Espero que tenha gostado deste post!
Ah, e não vá embora sem antes deixar um comentário!
Saudações Musicais!
Quando só ouvir a música não é suficiente. Saber do que está por trás também é muito importante para quem ama música.
Grato Maestro! Sempre muito instrutivo!!!
Sempre muito esclarecedor seus textos. Escutar depois de ler a música parece diferente.
Excelente post, ótimo conteúdo, Maestro!
Muito boas suas aulas incluindo a música para entendermos melhor.
Obrigada Maestro!