
Teatro e música sempre estiveram intensamente ligados. Uma peça montada sem música não é uma coisa comum. Música quase sempre há, nem que seja uma simples e despretensiosa trilha sonora. Ainda mais hoje, quando uma pessoa sozinha, em casa, pode com facilidade montar essa trilha em seu computador, gravar um CD e levar para os ensaios.
Mas imaginem agora como eram as coisas nos séculos passados. Se o diretor de um espetáculo quisesse música, o único jeito seria contratar músicos para fazer essa trilha ao vivo. Nos casos em que havia mais dinheiro, não se fazia uma simples trilha, mas sim várias peças musicais inéditas que acompanhavam e sublinhavam a trama. É o que chamamos de música incidental. E nos melhores casos, essa música incidental seria tocada por uma orquestra completa.
Muitas peças escritas especialmente para serem tocadas em peças de teatro não funcionam em uma sala de concertos, ou seja, não despertam interesse quando dissociadas da cena. Outras, porém, são capazes de cativar as plateias mesmo quando apenas executadas por uma orquestra. Assim, sempre que percebiam essa característica, o compositor ou seu editor passavam a executar essas peças em concertos.
Algumas fizeram tanto sucesso que continuam a ser tocadas até hoje. Vamos conhecer algumas dessas obras incidentais que resistem ao tempo, de três compositores: Beethoven, Grieg e Bizet.
“Egmont”

Egmont é o nome de um aristocrata nascido nos Países Baixos no século XVI, época em que essa parte da Europa era dominada pelo império Espanhol. Egmont lutou pela libertação de seu país, desafiou o Rei Felipe da Espanha e acabou decapitado em 1567.
Em 1810, Beethoven foi convidado pelo diretor do Teatro Imperial de Viena a compor a música incidental para a peça que Johann Wolfgang von Goethe havia escrito sobre esse episódio. Admirador de Goethe, Beethoven sentiu-se tão honrado que abriu mão de pagamento pelo trabalho.
Escreveu uma abertura e nove números para serem tocados durante o espetáculo. A Abertura é uma das obras mais tocadas do compositor. Beethoven, logo de início, nos apresenta um ritmo de sarabanda, que é uma dança de origem espanhola. Toda a primeira parte da abertura será tomada por esse ritmo, e o caráter da música é amargurado, pesado, simbolizando a opressão do império espanhol. Após essa primeira parte, ouvem-se duas notas aparentemente sem nexo que simbolizam a decapitação de Egmont.
Elas são seguidas por um pequeno trecho fúnebre que retrata a morte do herói. Imediatamente tem início um alegro em pianíssimo e um eletrizante crescendo que é a “Sinfonia da Vitória”.
Segundo o texto de Goethe, a peça deve terminar não com a morte de Egmont, mas com a vitória do ideal de liberdade, que acabaria por vir. Beethoven segue fielmente o texto de Goethe e termina a abertura com um gran finale.
“Peer Gynt”

Ibsen é considerado um dos pais do drama moderno, por tratar de modo realista problemas sociais e psicológicos que sobretudo eram familiares ao público de seu tempo. Com isso, ele deixou para trás os melodramas construídos artificialmente, tão comuns naquele tempo.
Quando jovem, iniciou estudos para tornar-se farmacêutico e depois médico, mas finalmente optou por uma vida dedicada ao teatro. Em 1851, com 23 anos de idade, começou a trabalhar no Teatro Nacional de Bergen, onde permaneceu por 6 anos, quando se tornou diretor do Teatro de Oslo, onde ficou por mais 5 anos. Foi um período em que escreveu suas primeiras peças, estimulado pelo trabalho diário com teatro. A partir de 1863, viveu principalmente na Itália e na Alemanha, alcançando reconhecimento internacional.
O reconhecimento de seu próprio país também veio na forma de uma pensão anual, concedida pelo Parlamento Norueguês. Suas obras mais conhecidas, e que são montadas até hoje, são Casa de Bonecas e Hedda Gabler.
Mas foi com uma outra peça que o nome Ibsen se tornou familiar também para os amantes da música. Peer Gynt foi escrita em 1867, 12 anos antes de Casa de Bonecas.
Para vocês terem ideia do sucesso, na primeira edição foram impressas 1250 cópias, e apenas duas semanas depois foi lançada uma segunda edição com 2000 cópias.
E diferente de suas outras obras por ser uma fantasia e não uma obra realista. Mas o drama psicológico está lá, presente no protagonista da peça, Peer Gynt, um anti-herói, imprestável para as tarefas mais corriqueiras, e perdido na sua profundidade mental, procurando por seu próprio eu.
Quando o compositor Edvard Grieg começou a escrever a música de cena para Peer Gynt, em 1875, ele já era reconhecido em seu país como o maior compositor norueguês.
Assim como aconteceu com Ibsen, ele também fora agraciado com uma pensão anual oferecida pelo governo do país, e foi o próprio Ibsen que o convidou a escrever a música para Peer Gynt. A estreia aconteceu em 1876 e tornou a figura de Grieg ainda maior perante o povo norueguês. A partitura original escrita para a peça tem 23 números. Desses 23, o próprio Grieg selecionou 8 para serem apresentados em concerto.
“L’Arlésienne’

Quatro anos antes da estreia de Peer Gynt com música de Grieg, Georges Bizet, o compositor francês que se tornou célebre por ter escrito a ópera Carmen, escreveu a música de cena para uma peça do escritor francês Alphonse Daudet chamada “L’Arlésienne”.
Após uma juventude muito difícil, Daudet foi para Paris, onde conseguiu trabalho no jornal Le Figaro. Era 1858, ele estava com 18 anos de idade e havia arriscado escrever e editar alguns poemas, que lhe trouxeram alguns admiradores. Escreveu em seguida algumas peças de teatro, que lhe trouxeram mais reconhecimento, até ser contratado como um dos secretários do Duque de Morny, meio-irmão e ministro de Napoleão 3º. A partir de então, a vida de Daudet começou a mudar para melhor. Seu grande sucesso chegou quando ele começou a escrever pequenos textos retratando aspectos pitorescos da vida na Provença, sua região natal. Escrevendo novela após novela, Daudet finalmente conquistou fama e fortuna.
A peça “A Arlesiana” foi escrita em 1869. Arlesiana é uma mulher da cidade de Arles, que está situada na Região da Provença, local onde acontece a trama.
Essa personagem é apaixonada por um jovem camponês chamado Frederí, e eles planejam se casar. Frederí, contudo, descobre, pouco antes do casamento, que sua noiva o havia traído, enlouquece e termina por se suicidar.
Para esse enredo muito simples, Bizet escreveu música de cena composta por 27 números, quase uma hora de música. A peça não foi bem recebida e logo caiu em esquecimento, mas a música de Bizet é tocada até hoje.
A música confirma a maestria do compositor em adaptar-se a universos musicais diferentes do seu. Foi assim na ópera Carmen, em que ele se sai bem ao lidar com a música espanhola, e o mesmo acontece com “A Arlesiana”, ao trabalhar com a música da Provença.
Aconteceu com A Arlesiana o mesmo que se passou com Peer Gynt. Foram selecionados oito, dos mais de vinte números, e passaram a ser tocados em concerto. O próprio Bizet selecionou 4, e os outros 4 foram selecionados após sua morte por seu amigo Ernest Guiraud.
Como eu disse, música e teatro sempre estiveram juntos. Muita música para teatro foi composta e serviu apenas para enriquecer os espetáculos. Mas algumas obras, especialmente inspiradas, alcançaram vida própria e são tocadas até hoje em salas de concerto.
Espero que tenha gostado deste post!
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Saudações Musicais!
bravo Maestro! Mais uma vez, grato …