
O compositor italiano Luigi Boccherini foi um dos mais importantes representantes do classicismo. Boccherini viveu entre 1743 e 1805, e foi contemporâneo de Mozart e Haydn.
A produção de Boccherini permanece praticamente desconhecida dos apreciadores da música de concerto; a única peça popularizada foi um singelo minueto, e isso porque fez parte da trilha sonora de um longa-metragem britânico chamado “The Ladykillers”, lançado em 1955.
Não fosse por esse filme, a música de Boccherini teria talvez continuado esquecida, o que vinha acontecendo desde sua morte no início do século XIX.
O minueto faz parte do quinteto de cordas opus 11 nº 5, em mi maior, que tem quatro movimentos. Tanto o minueto como o allegro são ótimos exemplos do estilo galante do início do classicismo: um estilo que procurou uma música mais fácil de ser compreendida, sem as complexas texturas do contraponto, com belas e agradáveis melodias sobre estruturas de acompanhamento claras e simples.
Estilo Galante
Como eu disse há pouco, Boccherini foi um representante do estilo galante, que sucedeu o barroco e marcou o início do classicismo. Pois bem, embora esse estilo tenha sido muito apreciado entre 1720 e 1770, aproximadamente, ele foi saindo de cena a partir do início do século XIX. Naquela época, com o surgimento do Romantismo, gigantescas forças emocionais foram libertadas. Um exemplo: a titânica sinfonia Eroica de Beethoven, foi completada em 1804, um ano antes da morte de Boccherini.
Então vocês podem me perguntar: Mozart e Haydn não escreveram obras em estilo galante? Se a resposta é sim, por que não foram esquecidos também? É verdade, Mozart e Haydn também escreveram obras nesse estilo. Aliás, a peça mais conhecida de Mozart é galantíssima – se me permitem a expressão. Falo da conhecidíssima Pequena Serenata Noturna, K. 525. A maioria das obras de Mozart e Haydn são em estilo galante, e uma menor parte, menor mas muito importante, explora um mundo emocional mais complexo, apontando para o futuro.
Evolução
Boccherini, assim como Mozart, amadureceu e seu estilo próprio foi se desenvolvendo com o passar dos anos.
Podemos constatar essa evolução expressiva de Boccherini ouvindo as peças listadas abaixo.
Vejamos o 1º movimento do Quinteto de Cordas opus 13 nº 4, em ré menor, Allegro Moderato. Aqui já não temos mais pura galanteria; as melodias não são simplesmente agradáveis; mais que isso, são expressivas, meditativas. O espírito geral da peça é mais sério e muito lírico.
Como disse, trata-se de uma peça mais séria, com um caráter geral bem diferente do descompromissado estilo galante.
E essa tendência à seriedade e introspecção encontra-se em diversas outras obras de Boccherini, como o 4º movimento, Allegro Assai, do Quarteto de Cordas em fá menor, opus 52 nº 4.
Se a peça anterior ainda ficava entre o estilo galante e um clássico amadurecido, nesta não há dúvidas: de galante ela tem muito pouco, e não faltam momentos de verdadeira dramaticidade e introspecção.
A essa altura o leitor deve estar se perguntando: “maestro, por que só quartetos e quintetos”? Hoje optei por me concentrar na música de câmara. Esses três são os principais gêneros desenvolvidos durante o classicismo, e no caso específico da música de câmara, a contribuição de Boccherini foi notável. Primeiro pela quantidade: ele deixou muitas centenas de obras do gênero. Quanto à qualidade, é algo surpreendente.
Estilo Muito Particular
Uma informação muito importante é o fato de Boccherini ter ido ainda muito jovem para Madrid, onde passou toda o restante de sua vida. Joseph Haydn costuma dizer que, a serviço da família Esterhazy, passou 30 anos distante de Viena e da vida musical vienense, e por isso foi forçado a se tornar original.
Exatamente o mesmo aconteceu com Boccherini. Madrid estava muito distante dos centros musicais que “ditavam a moda”, por assim dizer, como Viena, Paris ou Milão, e por isso Boccherini desenvolveu um estilo muito particular.
O musicólogo belga François-Joseph Fétis, que viveu entre 1784 e 1871, declarou que “um ouvinte da época, ao ouvir uma obra de Boccherini, podia muito bem imaginar que ele não conhecia nenhuma outra música além da sua própria.”
Para ilustrar, uma outra obra de Boccherini, que apesar de ser de juventude – é seu opus 2 – já mostra elementos bastante diferentes do clássico usual.
Stanley Sadie, respeitadíssimo musicólogo britânico do século XX, concorda com essa tese do isolamento de Boccherini, semelhante ao de Haydn, e diz que é muito difícil apontar quais compositores o influenciaram.
Influência Espanhola

Contudo uma influência é certa: a música popular do seu país de adoção, a Espanha. Segundo Stanley Sadie, essa influência se dá de duas maneiras. A primeira é muitíssimo sutil, com o uso de ritmos espanhóis de um modo que só pode ser identificado a partir de uma escuta muito atenta. Mas há peças em que essa influência é explícita. É o caso de “Introdução e Fandango”, para quinteto formado por dois violinos, viola, violoncelo e violão.
Diferente de Mozart e Haydn, para quem o violão não tinha qualquer importância, Boccherini dedicou várias obras ao instrumento; e essa abaixo é a preferida dos violonistas, com seu ritmo dançante direto e seu bom humor.
“Música Noturna das Ruas de Madrid”
Ainda nessa linha de forte influência espanhola, veremos uma obra muito interessante, e que o próprio Boccherini proibiu que fosse executada fora da Espanha. O motivo, segundo ele, é que só os madrilenhos seriam capazes de compreendê-la. Trata-se da “Música Noturna das Ruas de Madrid”.
Ela tem cinco movimentos, cada um descrevendo um evento típico da noite madrilenha. O primeiro movimento são os sinos da paróquia que chamam a população para rezar a Ave Maria, ao anoitecer. Ouve-se também o violino imitando os tambores dos soldados.
Em seguida, a canção dos cegos que pedem esmola em frente à igreja. Nessa, Boccherini pede aos violoncelistas que coloquem seus violoncelos sobre os joelhos, como se fossem violões.
O próximo movimento é o rosário, a oração católica em devoção à Maria. Nessa peça Boccherini pede aos músicos para não tocar com ritmo definido, a fim de simular a sonoridade típica da oração. Ouvimos nitidamente o padre e a resposta dos fiéis.
Em seguida, após sair da igreja, ouvem-se os cantos do povo. Boccherini intitulou esse movimento “Los Manolos”. Temos os violinos viola e um violoncelo imitando o violão. O segundo violoncelo toca uma melodia que certamente os ouvintes da época poderiam reconhecer de imediato.
O novo som de tambor indica a chegada da guarda militar. É hora do toque de recolher. No último movimento, Boccherini descreve a passagem da guarda.
Procurei mostrar a vocês um pouquinho da notável música de câmara de Luigi Boccherini, em minha opinião e também na opinião de musicólogos do maior respeito, um dos mais importantes compositores do classicismo.
Espero que tenha gostado deste post!
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Ah, e não vá embora sem antes deixar um comentário!
Saudações Musicais!
Tudo o q o maestro compartilha é interessante! Obrigada pela generosidade e a alegria calma de suas aulas!
Olá Laura. E eu agradeço pela maneira como prestigia meu trabalho. Abraços musicais!
Grande Maestro
Tenha um bom inicio de 2026 e como eu varios fãs seus contnuam admirando as obras que nos mostram.
Antonio Augusto C. R. Lisboa
Obrigado, Antonio! Excelente 2026 para você também!