Os Eruditos no Teatro

Teatro e música sempre estiveram intensamente ligados. Uma peça montada sem música não é uma coisa comum. Música quase sempre há, nem que seja uma simples e despretensiosa trilha sonora. Ainda mais hoje, quando uma pessoa sozinha, em casa, pode com facilidade montar essa trilha em seu computador, gravar um CD e levar para os ensaios.

Mas imaginem agora como eram as coisas nos séculos passados. Se o diretor de um espetáculo quisesse música, o único jeito seria contratar músicos para fazer essa trilha ao vivo. Nos casos em que havia mais dinheiro, não se fazia uma simples trilha, mas sim várias peças musicais inéditas que acompanhavam e sublinhavam a trama. É o que chamamos de música incidental. E nos melhores casos, essa música incidental seria tocada por uma orquestra completa.

Muitas peças escritas especialmente para serem tocadas em peças de teatro não funcionam em uma sala de concertos, ou seja, não despertam interesse quando dissociadas da cena. Outras, porém, são capazes de cativar as plateias mesmo quando apenas executadas por uma orquestra. Assim, sempre que percebiam essa característica, o compositor ou seu editor passavam a executar essas peças em concertos.

Algumas fizeram tanto sucesso que continuam a ser tocadas até hoje. Vamos conhecer algumas dessas obras incidentais que resistem ao tempo, de três compositores: Beethoven, Grieg e Bizet.

“Egmont”

Beethoven, gravura do século 19

Egmont é o nome de um aristocrata nascido nos Países Baixos no século XVI, época em que essa parte da Europa era dominada pelo império Espanhol. Egmont lutou pela libertação de seu país, desafiou o Rei Felipe da Espanha e acabou decapitado em 1567.

Em 1810, Beethoven foi convidado pelo diretor do Teatro Imperial de Viena a compor a música incidental para a peça que Johann Wolfgang von Goethe havia escrito sobre esse episódio. Admirador de Goethe, Beethoven sentiu-se tão honrado que abriu mão de pagamento pelo trabalho.

Escreveu uma abertura e nove números para serem tocados durante o espetáculo. A Abertura é uma das obras mais tocadas do compositor. Beethoven, logo de início, nos apresenta um ritmo de sarabanda, que é uma dança de origem espanhola. Toda a primeira parte da abertura será tomada por esse ritmo, e o caráter da música é amargurado, pesado, simbolizando a opressão do império espanhol. Após essa primeira parte, ouvem-se duas notas aparentemente sem nexo que simbolizam a decapitação de Egmont.

Elas são seguidas por um pequeno trecho fúnebre que retrata a morte do herói. Imediatamente tem início um alegro em pianíssimo e um eletrizante crescendo que é a “Sinfonia da Vitória”.

Segundo o texto de Goethe, a peça deve terminar não com a morte de Egmont, mas com a vitória do ideal de liberdade, que acabaria por vir. Beethoven segue fielmente o texto de Goethe e termina a abertura com um gran finale.

Beethoven: Egmont, Op. 84: Abertura

“Peer Gynt”

Edvard Grieg, por Eilif Peterssen

Ibsen é considerado um dos pais do drama moderno, por tratar de modo realista problemas sociais e psicológicos que sobretudo eram familiares ao público de seu tempo. Com isso, ele deixou para trás os melodramas construídos artificialmente, tão comuns naquele tempo.

Quando jovem, iniciou estudos para tornar-se farmacêutico e depois médico, mas finalmente optou por uma vida dedicada ao teatro. Em 1851, com 23 anos de idade, começou a trabalhar no Teatro Nacional de Bergen, onde permaneceu por 6 anos, quando se tornou diretor do Teatro de Oslo, onde ficou por mais 5 anos. Foi um período em que escreveu suas primeiras peças, estimulado pelo trabalho diário com teatro. A partir de 1863, viveu principalmente na Itália e na Alemanha, alcançando reconhecimento internacional.

O reconhecimento de seu próprio país também veio na forma de uma pensão anual, concedida pelo Parlamento Norueguês. Suas obras mais conhecidas, e que são montadas até hoje, são Casa de Bonecas e Hedda Gabler.

Mas foi com uma outra peça que o nome Ibsen se tornou familiar também para os amantes da música. Peer Gynt foi escrita em 1867, 12 anos antes de Casa de Bonecas.

Para vocês terem ideia do sucesso, na primeira edição foram impressas 1250 cópias, e apenas duas semanas depois foi lançada uma segunda edição com 2000 cópias.

E diferente de suas outras obras por ser uma fantasia e não uma obra realista. Mas o drama psicológico está lá, presente no protagonista da peça, Peer Gynt, um anti-herói, imprestável para as tarefas mais corriqueiras, e perdido na sua profundidade mental, procurando por seu próprio eu.

Quando o compositor Edvard Grieg começou a escrever a música de cena para Peer Gynt, em 1875, ele já era reconhecido em seu país como o maior compositor norueguês.

Assim como aconteceu com Ibsen, ele também fora agraciado com uma pensão anual oferecida pelo governo do país, e foi o próprio Ibsen que o convidou a escrever a música para Peer Gynt. A estreia aconteceu em 1876 e tornou a figura de Grieg ainda maior perante o povo norueguês. A partitura original escrita para a peça tem 23 números. Desses 23, o próprio Grieg selecionou 8 para serem apresentados em concerto.

Grieg: Peer Gynt Suíte nº 1, Op. 46: 1. Amanhecer

Grieg: Peer Gynt Suíte nº 1, Op. 46: II. A Morte de Ase

Grieg: Peer Gynt Suíte nº 1, Op. 46: III. Dança de Anitra

“L’Arlésienne’

George Bizet, Anônimo

Quatro anos antes da estreia de Peer Gynt com música de Grieg, Georges Bizet, o compositor francês que se tornou célebre por ter escrito a ópera Carmen, escreveu a música de cena para uma peça do escritor francês Alphonse Daudet chamada “L’Arlésienne”.

Após uma juventude muito difícil, Daudet foi para Paris, onde conseguiu trabalho no jornal Le Figaro. Era 1858, ele estava com 18 anos de idade e havia arriscado escrever e editar alguns poemas, que lhe trouxeram alguns admiradores. Escreveu em seguida algumas peças de teatro, que lhe trouxeram mais reconhecimento, até ser contratado como um dos secretários do Duque de Morny, meio-irmão e ministro de Napoleão 3º. A partir de então, a vida de Daudet começou a mudar para melhor. Seu grande sucesso chegou quando ele começou a escrever pequenos textos retratando aspectos pitorescos da vida na Provença, sua região natal. Escrevendo novela após novela, Daudet finalmente conquistou fama e fortuna.

A peça “A Arlesiana” foi escrita em 1869. Arlesiana é uma mulher da cidade de Arles, que está situada na Região da Provença, local onde acontece a trama.

Essa personagem é apaixonada por um jovem camponês chamado Frederí, e eles planejam se casar. Frederí, contudo, descobre, pouco antes do casamento, que sua noiva o havia traído, enlouquece e termina por se suicidar.

Para esse enredo muito simples, Bizet escreveu música de cena composta por 27 números, quase uma hora de música. A peça não foi bem recebida e logo caiu em esquecimento, mas a música de Bizet é tocada até hoje.

A música confirma a maestria do compositor em adaptar-se a universos musicais diferentes do seu. Foi assim na ópera Carmen, em que ele se sai bem ao lidar com a música espanhola, e o mesmo acontece com “A Arlesiana”, ao trabalhar com a música da Provença.

Aconteceu com A Arlesiana o mesmo que se passou com Peer Gynt. Foram selecionados oito, dos mais de vinte números, e passaram a ser tocados em concerto. O próprio Bizet selecionou 4, e os outros 4 foram selecionados após sua morte por seu amigo Ernest Guiraud.

Bizet: L’Arlésienne Suíte nº 1, WD 40: 1. Prelúdio “A Marcha dos Reis”

Bizet: L’Arlésienne Suíte nº 1, WD 40: II. Minueto

Bizet: L’Arlésienne Suíte nº 1, WD 40: III. Adagietto

Como eu disse, música e teatro sempre estiveram juntos. Muita música para teatro foi composta e serviu apenas para enriquecer os espetáculos. Mas algumas obras, especialmente inspiradas, alcançaram vida própria e são tocadas até hoje em salas de concerto.

Espero que tenha gostado deste post!

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Ah, e não vá embora sem antes deixar um comentário!

Saudações Musicais!

🎭 A Máscara Negra 🎶

Olá pessoal.

Escrevo este texto no mês de fevereiro; por isso, tive vontade de compartilhar com vocês um texto sobre carnaval. 


Carnaval e música, é claro.  😊


Pois bem, carnaval sempre me faz lembrar de uma música que me causou uma forte impressão ainda na infância: 


Uma marcha-rancho, foi composta por Zé Keti e Pereira Matos para o Carnaval de 1967, tornando-se um enorme sucesso na voz de Dalva de Oliveira.

Dalva de Oliveira

Eu tinha apenas sete anos de idade, mas me encantei com aquela melodia maravilhosa, a ponto de decorar a letra de tanto a cantarolar.

Um de seus versos, porém, me encafifou:


E logo depois, eu ouvia outro que produzia o mesmo efeito:


Não fazia muito tempo que eu tinha sido alfabetizado, de modo que estranhei muito aquelas palavras: Pierrô, Colombina, Arlequim…


Perguntei para meu pai, para minha mãe, mas eles não sabiam seus significados.
Também minha professora não soube me explicar direito.
Disse que eram “personagens”, e só.O que me deixou ainda mais insatisfeito.

Pierrô, Colombina e Arlequim.

Bem, logo eu esqueci o assunto e segui a vida.


Porém, na adolescência, já estudando música seriamente, eu comecei a encontrá-los de novo!  As palavras e os personagens.


Só que dessa vez, no contexto da música clássica! 


Bem, minha curiosidade sobre o assunto voltou, e ainda mais forte.
Afinal de contas, o que esses personagens que eu julgava carnavalescos, tinham a ver com música erudita?


Schumann, por exemplo, tem uma peça para piano chamada Arlequim, e outra chamada Pierrô.
E as duas fazem parte de uma suíte chamada “Carnaval”.

A famosa ópera “Pagliacci”, de Ruggero Leoncavallo falava de uma “Colombina”.

E qual não foi meu espanto, quando descobri o “Pierrot Lunaire”, de Arnold Schoenberg, numa apresentação em São Paulo que ficou para a história!

Caro leitor, cara leitora, não vou dar mais exemplos para não deixar o texto chato. 

Apenas cito rapidamente mais alguns nomes que também seguiram por este caminho: Paganini, Berlioz, Dvorak, Debussy, Tchaikovsky, Stravinsky, Prokofieff, Massenet, Chaminade….

Quanto mais eu estudava música, mais me deparava com Arlequim, Pierrô e Colombina retratados musicalmente por grandes compositores.


Fui assim entendendo que os grandes compositores eruditos, apesar de nunca terem tido a oportunidade de sequer imaginar o que era o samba, também criaram sua música de carnaval.

Historicamente, as máscaras permitiam que nobres e plebeus se misturassem sem julgamentos, eliminando temporariamente as distinções de classe. 


Funcionavam como um símbolo de liberdade e transgressão, permitindo comportamentos que seriam proibidos no dia a dia, como o jogo ou a frequência a locais de má reputação sem comprometer a identidade. 


Modelos icônicos como a Bauta veneziana são marcos desta tradição.

Uma “Bauta” veneziana

Na Península Ibérica, em comunidades rurais, durante o ciclo carnavalesco as máscaras encarnam figuras grotescas ou diabólicas, como os Caretos em Portugal.

Eles simbolizam a expulsão de maus espíritos, a fertilidade e a vitalidade da comunidade no fim do inverno.

Caretos de Podence, cidade no extremo noroeste português


Outro exemplo fascinante na Europa é o Carnaval de Binche, na Bélgica.

Os personagens principais, chamados Gilles, usam máscaras de cera idênticas, caracterizadas por óculos verdes, bigodes finos e pequenas costeletas. 

A uniformidade visual simboliza a igualdade total entre os participantes durante a festa.


A máscara é um símbolo de identidade tão forte que, por lei local, só pode ser usada em Binche.


É estritamente proibido sentar-se ou estar bêbado enquanto se usa o traje de Gille em público!

Os Gilles no Carnaval de Binche, na Bélgica


O leitor pode estar se perguntando por que só dou exemplos europeus.


Sim, poderia falar de maravilhosos exemplos africanos…

FESTIMA,  festival de máscaras em Dédougou, norte de Burkina Faso

… ou asiáticos…

Festival Dinagyang na Cidade de Iloilo, nas Filipinas

Contudo, minha intenção é justamente mostrar o caminho para entendermos como os compositores eruditos europeus alimentaram sua música com o espírito do Carnaval.


Sempre interessados em explorar diferentes estados de espírito através da linguagem musical, muitos compositores sentiram-se atraídos pela liberdade oferecida pela súbita sensação de igualdade social, bem como pelos mistérios das conexões espirituais.


O resultado foi um número bem grande de obras musicais muito interessantes!!!

Espero que tenha gostado da leitura! 🙂

E caso a leitora ou o leitor queiram continuar a explorar esse fascinante caminho, basta escrever um comentário dizendo que sim!

Saudações Musicais do maestro João Mauricio Galindo.

Luigi Boccherini

Boccherini por Pompeo Batoni 

O compositor italiano Luigi Boccherini foi um dos mais importantes representantes do classicismo. Boccherini viveu entre 1743 e 1805, e foi contemporâneo de Mozart e Haydn.

A produção de Boccherini permanece praticamente desconhecida dos apreciadores da música de concerto; a única peça popularizada foi um singelo minueto, e isso porque fez parte da trilha sonora de um longa-metragem britânico chamado “The Ladykillers”, lançado em 1955.

Não fosse por esse filme, a música de Boccherini teria talvez continuado esquecida, o que vinha acontecendo desde sua morte no início do século XIX.

Ladykillers 1955 – Minueto de Luigi Boccherini

O minueto faz parte do quinteto de cordas opus 11 nº 5, em mi maior, que tem quatro movimentos. Tanto o minueto como o allegro são ótimos exemplos do estilo galante do início do classicismo: um estilo que procurou uma música mais fácil de ser compreendida, sem as complexas texturas do contraponto, com belas e agradáveis melodias sobre estruturas de acompanhamento claras e simples.

Concerto para Violoncelo em Ré maior, G. 478: I. Allegro con spirito

Estilo Galante

Como eu disse há pouco, Boccherini foi um representante do estilo galante, que sucedeu o barroco e marcou o início do classicismo. Pois bem, embora esse estilo tenha sido muito apreciado entre 1720 e 1770, aproximadamente, ele foi saindo de cena a partir do início do século XIX. Naquela época, com o surgimento do Romantismo, gigantescas forças emocionais foram libertadas. Um exemplo: a titânica sinfonia Eroica de Beethoven, foi completada em 1804, um ano antes da morte de Boccherini.

Então vocês podem me perguntar: Mozart e Haydn não escreveram obras em estilo galante? Se a resposta é sim, por que não foram esquecidos também? É verdade, Mozart e Haydn também escreveram obras nesse estilo. Aliás, a peça mais conhecida de Mozart é galantíssima – se me permitem a expressão. Falo da conhecidíssima Pequena Serenata Noturna, K. 525. A maioria das obras de Mozart e Haydn são em estilo galante, e uma menor parte, menor mas muito importante, explora um mundo emocional mais complexo, apontando para o futuro.

Evolução

Boccherini, assim como Mozart, amadureceu e seu estilo próprio foi se desenvolvendo com o passar dos anos.

Podemos constatar essa evolução expressiva de Boccherini ouvindo as peças listadas abaixo.

Vejamos o 1º movimento do Quinteto de Cordas opus 13 nº 4, em ré menor, Allegro Moderato. Aqui já não temos mais pura galanteria; as melodias não são simplesmente agradáveis; mais que isso, são expressivas, meditativas. O espírito geral da peça é mais sério e muito lírico.

Quinteto nº 16 em ré menor, Op. 13 nº 4, G. 280: I. Allegro moderato

Como disse, trata-se de uma peça mais séria, com um caráter geral bem diferente do descompromissado estilo galante.

E essa tendência à seriedade e introspecção encontra-se em diversas outras obras de Boccherini, como o 4º movimento, Allegro Assai, do Quarteto de Cordas em fá menor, opus 52 nº 4.

Quarteto de Cordas em fá menor, Op. 52, nº 4, G. 235: IV. Allegro assai

Se a peça anterior ainda ficava entre o estilo galante e um clássico amadurecido, nesta não há dúvidas: de galante ela tem muito pouco, e não faltam momentos de verdadeira dramaticidade e introspecção.

A essa altura o leitor deve estar se perguntando: “maestro, por que só quartetos e quintetos”? Hoje optei por me concentrar na música de câmara. Esses três são os principais gêneros desenvolvidos durante o classicismo, e no caso específico da música de câmara, a contribuição de Boccherini foi notável. Primeiro pela quantidade: ele deixou muitas centenas de obras do gênero. Quanto à qualidade, é algo surpreendente.

Estilo Muito Particular

Uma informação muito importante é o fato de Boccherini ter ido ainda muito jovem para Madrid, onde passou toda o restante de sua vida. Joseph Haydn costuma dizer que, a serviço da família Esterhazy, passou 30 anos distante de Viena e da vida musical vienense, e por isso foi forçado a se tornar original.

Exatamente o mesmo aconteceu com Boccherini. Madrid estava muito distante dos centros musicais que “ditavam a moda”, por assim dizer, como Viena, Paris ou Milão, e por isso Boccherini desenvolveu um estilo muito particular.

O musicólogo belga François-Joseph Fétis, que viveu entre 1784 e 1871, declarou que “um ouvinte da época, ao ouvir uma obra de Boccherini, podia muito bem imaginar que ele não conhecia nenhuma outra música além da sua própria.”

Para ilustrar, uma outra obra de Boccherini, que apesar de ser de juventude – é seu opus 2 – já mostra elementos bastante diferentes do clássico usual.

Boccherini – Quarteto de Cordas, Op. 1 nº 2: IV. Allegro

Stanley Sadie, respeitadíssimo musicólogo britânico do século XX, concorda com essa tese do isolamento de Boccherini, semelhante ao de Haydn, e diz que é muito difícil apontar quais compositores o influenciaram.

Influência Espanhola

Madri, Julius Silver por Pixabay

Contudo uma influência é certa: a música popular do seu país de adoção, a Espanha. Segundo Stanley Sadie, essa influência se dá de duas maneiras. A primeira é muitíssimo sutil, com o uso de ritmos espanhóis de um modo que só pode ser identificado a partir de uma escuta muito atenta. Mas há peças em que essa influência é explícita. É o caso de “Introdução e Fandango”, para quinteto formado por dois violinos, viola, violoncelo e violão.

Diferente de Mozart e Haydn, para quem o violão não tinha qualquer importância, Boccherini dedicou várias obras ao instrumento; e essa abaixo é a preferida dos violonistas, com seu ritmo dançante direto e seu bom humor.

Quinteto para cordas nº 4 em ré maior, G. 448, Fandango: III. Grave assai

“Música Noturna das Ruas de Madrid”

Ainda nessa linha de forte influência espanhola, veremos uma obra muito interessante, e que o próprio Boccherini proibiu que fosse executada fora da Espanha. O motivo, segundo ele, é que só os madrilenhos seriam capazes de compreendê-la. Trata-se da “Música Noturna das Ruas de Madrid”.

Ela tem cinco movimentos, cada um descrevendo um evento típico da noite madrilenha. O primeiro movimento são os sinos da paróquia que chamam a população para rezar a Ave Maria, ao anoitecer. Ouve-se também o violino imitando os tambores dos soldados.

Em seguida, a canção dos cegos que pedem esmola em frente à igreja. Nessa, Boccherini pede aos violoncelistas que coloquem seus violoncelos sobre os joelhos, como se fossem violões.

O próximo movimento é o rosário, a oração católica em devoção à Maria. Nessa peça Boccherini pede aos músicos para não tocar com ritmo definido, a fim de simular a sonoridade típica da oração. Ouvimos nitidamente o padre e a resposta dos fiéis.

Em seguida, após sair da igreja, ouvem-se os cantos do povo. Boccherini intitulou esse movimento “Los Manolos”. Temos os violinos viola e um violoncelo imitando o violão. O segundo violoncelo toca uma melodia que certamente os ouvintes da época poderiam reconhecer de imediato.

O novo som de tambor indica a chegada da guarda militar. É hora do toque de recolher. No último movimento, Boccherini descreve a passagem da guarda.

L. Boccherini: A Música Noturna das Ruas de Madri, Op. 30 nº 6 (G. 324) / J. Savall

Procurei mostrar a vocês um pouquinho da notável música de câmara de Luigi Boccherini, em minha opinião e também na opinião de musicólogos do maior respeito, um dos mais importantes compositores do classicismo.

Espero que tenha gostado deste post!

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Saudações Musicais!

Natal Desconhecido

Quando pensamos neste assunto, vêm à logo mente obras muito conhecidas e grandiosas como O Messias, de Handel, o Oratório de Natal, de J. S. Bach, ou mesmo simples canções natalinas tradicionais como Noite Feliz ou Adeste Fidelis.

Como essas obras são tocadas com frequência, eu pensei em procurar obras natalinas menos conhecidas, pois existe um imenso repertório sobre esse assunto a ser explorado. Dá mais trabalho, mas é muito gratificante!

Afinal, se Bach e Handel escreveram esses verdadeiros monumentos musicais que são o Oratório de Natal ou O Messias, é porque já existia na Europa um grande repertório de peças mais curtas, fruto de uma longa tradição composicional natalina. E sem dúvida essas peças mais simples prepararam o terreno para as imensas obras que eu citei.

Nos mesmos séculos XVII e XVIII em que viveram Bach e Handel, encontramos peças encantadoras, que verdadeiramente evocam o espírito do Natal.

Faremos um passeio musical pela Europa, mostrando obras de vários países. E sobretudo, deixemos que a música fale por si mesma.

Pavel Josef Vejvanovsky

Vamos começar com um compositor chamado Pavel Josef Vejvanovsky com a Sonata Natalis, para cordas e trompetes com a Academia de Música Antiga, dirigida por Christopher Hogwood.

Vejvanovsky viveu entre 1633 e 1693 na Moravia, onde era trompetista da corte de Kromeriz. Nesta peça é possível perceber a presença de melodias de caráter popular, quem sabe melodias cantadas pela população local no Natal.

 Pavel Vejvanovsky – Sonata Natalis – Academy of Ancient Music – Christopher Hogwood

“Espírito Natalino”

O que faz com que essas peças compostas para o Natal sejam semelhantes? Afinal são peças puramente instrumentais. Como os compositores transmitiam através de sons o tal “espírito natalino”?

Uma maneira fácil de entender é fazer uma analogia com os presépios. No presépio temos a presença dos animais e dos pastores, ou seja, um cenário rústico e muito simples, que acolhe o nascimento do filho de Deus. Esse é um grande símbolo do Natal e do Cristianismo. Pois bem, do mesmo modo, na música natalina europeia do século XVIII era comum o uso de melodias de pastores, e referências a esse ambiente rústico e simples.

Há relatos que dizem que no sul da Itália, nos dias que antecediam o Natal, os pastores desciam das montanhas e na praça principal da cidade tocavam melodias natalinas em suas gaitas de foles e outros instrumentos rústicos. Essas melodias estão perdidas para nós, mas certamente eram usadas por compositores de música séria. Uma das mais célebres obras que se referem ao Natal é o Concerto Grosso opus 6 nº 8, de Arcangelo Corelli. Em vez de terminar com uma dança animada, Corelli finaliza com uma “Pastoralle”, que com certeza foi composta no espírito das melodias populares de sua época.

Concerto Grosso in G Minor, Op. 6, No. 8 “Christmas Concerto”: VI. Largo. Pastorale ad libitum

Giuseppe Torelli

Curiosamente, existe um compositor contemporâneo de Arcangelo Corelli, chamado Giuseppe Torelli, que também compôs um concerto grosso para o Natal. Torelli escreveu em seu manuscrito. “Concerto a quatro in forma di Pastoralle, per il Santissimo Natale” Notem sempre a referência aos pastores e seu universo musical.

Torelli: Concerto Grosso in G minor, Op. 8, No. 6 “Christmas Concerto”

Alessandro Scarlatti

Scarlatti nasceu em Palermo em 1660 e faleceu em Nápoles em 1725. Embora seu nome esteja nos livros de história da música sempre ligado ao desenvolvimento da ópera napolitana, ele escreveu uma enorme quantidade de música sacra. Foram mais de 600 cantatas, abaixo, você poderá ouvir a Cantata de Natal, para soprano solo e orquestra. Ela é formada por uma abertura instrumental, seguida por três pares de recitativo e aria.

Christmas Cantata: Allegro

Gregor Joseph Werner

Agora vamos deixar a Itália. Iremos de Nápoles para um outro importante centro musical europeu: a corte dos Esterházy. A família Esterházy tinha no interior da Hungria um palácio que entrou para a história da música, pois lá viveu e trabalhou por 30 anos ninguém menos que Joseph Haydn. Neste palácio Haydn foi precedido pelo compositor Gregor Joseph Werner. Abaixo, você poderá ouvir uma Pastoral de Natal.

Ela tem como título “Christmas Pastorella”, que poderíamos traduzir por “Uma Pequena Pastoral de Natal”, para órgão e cordas. Aqui remetemo-nos novamente à música dos pastores, e a seus instrumentos.

Não é difícil perceber, em alguns momentos, cordas e órgão tentando imitar o som dos rústicos instrumentos musicais dos pastores.

Werner Gregor (1693-1766) Pastorella for Christmas – Academy of Ancient Music – Christopher Hogwood

Pál Esterházy

Sempre ouvimos falar neste palácio dos Esterházy que fica no interior da Hungria, onde trabalhou por 30 anos o grande Franz Joseph Haydn. Mas o que nunca ouvimos falar é que um dos membros desta família aristocrática foi muito bom compositor. É o caso de Pál Esterházy, que viveu entre 1711 e 1762. Pál foi responsável por um dos mais importantes capítulos da cultura europeia, pois foi ele que contratou Joseph Haydn e estimulou sua atividade como compositor.

Além de político e militar, Pál Esterházy era um apaixonado pelas artes. Foi poeta, dançarino, músico e compositor muito respeitado. Sua obra “Harmonia Celestis” tornou-se conhecida por toda a Europa. Trata-se de um ciclo de 150 pequenas cantatas, música simples, mas muito inspirada.

No. 4: Nil canitur iucundius

Michel-Richard de Lalande

Essa nossa busca pela música natalina do barroco terminará na França, com o compositor Michel-Richard de Lalande. Lalande viveu na corte de Versalhes, sob à proteção do Rei Luís XIV, tornando-se diretor da Capela Real em 1683. Compôs muitos ballets e música sacra. Abaixo, três de suas Symphonies de Nöel, ou seja, Sinfonia de Natal.

Não devemos confundir essas sinfonias com as Sinfonias grandiosas que conhecemos hoje. Nos séculos XVII a palavra sinfonia era usada de modo muito diferente, e podia se referir a pequenas peças instrumentais, e é esse o caso das sinfonias de Lalande.

Elas são baseadas em melodias tradicionais francesas. Cada sinfonia apresenta a melodia e em seguida uma variação. São peças simples, sem grandes pretensões formais, mas absolutamente encantadoras. Eram tocadas na Capela Real, durante a noite de Natal.

Symphonies for Christmas (excerpts) : No. 4. Elle alloit au temple

Que essas peças natalinas que ouvimos nos lembrem que a simplicidade, na arte ou na vida, pode ser uma grande virtude e fonte de muita beleza.

Um felicíssimo Natal a todos!

Espero que tenha gostado deste post!

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Saudações Musicais!

Natan Schwartzman

Vamos conhecer a vida e o trabalho de um dos mais notáveis violinistas brasileiros: o fluminense Natan Schwartzman.

Natan nasceu em Niterói em 1930, e iniciou seus estudos ao violino com Paulina d’Ambrósio, violinista carioca importantíssima, responsável pela formação de toda uma geração de violinistas brasileiros.

Em seguida Natan Schwartzman transferiu-se para São Paulo e estudou no Conservatório Dramático e Musical da capital.

Concluído o curso, foi para Nova Iorque, para estudar na Juilliard School, uma das mais importantes escolas de música do mundo. Lá Schwartzman tornou-se spalla da orquestra da escola, realizou diversos recitais. Formou-se em 1951, com apenas 21 anos de idade.

Início

Juilliard School

Em 1952 Natan retornou ao Brasil, e iniciou uma carreira brilhante. Apresentou-se em recitais em nada menos que 90 cidades brasileiras, e em 1953, com 23 anos, venceu o concurso para spalla de uma recém-criada orquestra: a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Em 1957 Natan iniciou uma nova temporada de estudos: conquistou uma bolsa para estudar em Londres com um dos mais importantes professores europeus de então, o alemão Max Rostal.

Max Rostal

Rostal foi responsável pela formação de muitos dos mais importantes violinistas brasileiros. Vou citar alguns: a professora Maria Vischnia, que foi primeira violinista do Quarteto de Cordas Cidade de São Paulo, e spalla da Orquestra Brasi Jazz Sinfônica; o professor Paulo Bosísio, que se dedica há décadas à formação de jovens violinistas e violistas brasileiros; o professor Alberto Jaffé, criador do primeiro método de ensino de cordas através de prática em grupo em nosso país.

Em 1985, Max Rostal esteve no Brasil, em Curitiba, onde realizou uma série de aulas assistidas, ou master classes, que eu tive o privilégio de frequentar. E lembro dele ter dito que durante os muitos anos que lecionou na Europa recebeu centenas, senão milhares de alunos, e que se tivesse de citar os mais talentosos deles, não se esqueceria de modo algum do brasileiro Natan Schwartzman.

Carreira Internacional

Em 1958 Natan Schwartzman estava em Londres, estudando com Max Rostal fazia um ano, quando foi contratado pela Companhia de Radiodifusão Inglesa – a BBC como solista e recitalista. Dois anos depois voltou ao Brasil – tinha 30 anos, e uma notável experiência internacional.

A partir de então fixou-se por aqui, mas teve outras oportunidades de apresentar-se no exterior. Em 1966 realizou uma extensa turnê pelos Estados Unidos, e em 1978 realizou, sob o patrocínio do Itamarati uma turnê pela Europa acompanhado por outro brilhante músico brasileiro, o pianista Fernando Lopes.

As apresentações no Brasil também aconteciam. Em 1973 fez o recital de inauguração do Teatro Municipal de Santos, e em 1983 realizou mais uma turnê pelo Brasil, desta vez em 18 cidades, acompanhado pelo pianista Achille Picchi. A turnê tinha como tema o mais difícil repertório violinístico: a obra de Paganini.

Abaixo está um dos poucos vídeos em que podemos ver este grande violinista, acompanhado ao piano pela tamb´ém grande Eudóxia de Barros.

Eudoxia de Barros (1991) & N. Schwartzman – O. Lacerda: Acalanto Pentafonico

Reconhecimento

Natan Schwartzman recebeu muitos prêmios e homenagens no Brasil. Em 1960 venceu, por unanimidade, o concurso para violino organizado pela Comissão Estadual de Música de São Paulo. Em 1964 seu disco Recital de Peças Brasileiras recebeu da APCT o prêmio de melhor gravação de música brasileira. Em 1975 e 1980 recebeu o prêmio de melhor solista da APCA.

Além de tudo isso, Natan Schwartzman dedicou-se muito ao ensino. Foi o primeiro professor de violino do Departamento de Música da Universidade de Brasília, em 1964; de 1971 até 1992 foi professor de violino do Instituto de Arte da Universidade de Campinas; e foi também professor de violino do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Eudoxia de Barros (1991) & N. Schwartzman – Viana de Almeida: Seresta a Brasileira

Homenagem

Natan Schwartzman foi um dos mais talentosos, mais bem preparados e mais atuantes violinistas brasileiros por muitas décadas. Além de sua atuação internacional, tocou acompanhado por muitas orquestras brasileiras, sendo convidado com frequência pelos nossos mais destacados regentes, como Eleazar de Carvalho, Isaac Karabtchevsky, Roberto Schnorrenberg, Souza Lima e Cláudio Santoro.

Em 1990, Unicamp e a Orquestra Sinfônica de Campinas, dirigida pelo maestro Benito Juarez, homenagearam seus 60 anos com um concerto de gala, em que ele atuou como solista. Morreu em São Paulo, aos 90 anos, em 2020.

Merece ser lembrado desde já. Que lhe sejam rendidas homenagens sempre, por tudo que fez pela música deste país.

Natan Schwartzman e Fernando Lopes | Vivaldi, Franck, Brahms (Petrópolis, 1976)

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Saudações Musicais!

Música de Câmara

Música de câmara é uma expressão que intriga muita gente. Volta e meia alguém me pergunta do que se trata. Pra quem ainda não sabe, música de câmara é, a rigor, música para ser tocada em pequenos espaços. A palavra câmara aqui se refere a um aposento de uma casa ou de um palácio.

Nos séculos XVI, XVII e início do XVIII ainda não havia espaços públicos dedicados à música puramente instrumental. Esse tipo de atividade se restringia às residências dos aristocratas.

Mas quando começa a surgir a classe média, o panorama muda um pouco de figura.

Arcangelo Corelli

Tomemos por exemplo um compositor barroco, como o italiano Arcangelo Corelli, que viveu entre 1653 e 1713. Ele trabalhou para personalidades ricas e importantes, como a Rainha Cristina da Suécia, que naquela época estava exilada em Roma, o Cardeal Pietro Ottoboni, que viria a ser o Papa Alexandre 8º, ou o Duque de Modena.

Quando eu digo “trabalhou”, significa que ele tomava parte de execuções de música num dos luxuosos salões onde residiam essas personalidades.

Assim era a música de câmara

Popularização

Ninguém mais, além dos ricos e poderosos, tinha, naquele tempo, o privilégio do acesso à música instrumental de tamanha qualidade. Porém, aos poucos a sociedade europeia foi passando por uma admirável evolução. A riqueza começou a mudar de mãos com o surgimento da burguesia, uma classe que apesar de não ter sangue azul, passou a ter muito dinheiro.

Visando esse público começam a surgir os concertos em salas grandes, para centenas de pessoas. As orquestras saíram do fosso da ópera e das igrejas para se apresentar em pleno palco: tornam-se o centro das atenções. Paris foi um dos centros em que essa novidade mais se difundiu.

Beethoven

Além de frequentar concertos, essa nova classe social endinheirada também procurou aprender música, um dos principais passatempos da época. E como procuravam em tudo imitar os aristocratas, os burgueses também passaram a organizar a sua própria música de câmara.

Não estamos mais no final do século XVII, como Corelli, mas no início do século XIX, quando o jovem Beethoven começa a despontar no meio musical Vienense.

Não é à toa, portanto, que a primeira obra que o jovem compositor alemão decidiu levar a público foi escrita numa das formações preferidas pelos músicos amadores: piano, violino e violoncelo.

Clicando abaixo, você poderá ouvir o primeiro movimento do seu Trio opus 1, número 1.

Música Doméstica

Quem tinha acesso à educação, incluindo aulas de música, e possuía uma bela casa onde pudesse receber os amigos, não se furtava ao prazer de convidá-los para noites de música … música executada por eles mesmos.

E os compositores, sempre atentos às novas possibilidades de ganhar algum dinheiro, passaram a escrever música para esse público. Boa parte da música de câmara do século XIX surgiu desta maneira.

Quarteto Razumovsky nº1

Ainda jovem, Beethoven se preocupava em conquistar um público que pudesse comprar o que ele tinha para vender. Mas logo ele tumultuaria esse jogo, inculcando mais e mais um novo conceito: a música pura como grande arte, à qual todos deveriam se curvar. Muito mais que um simples produto…

Baseado nesse conceito é que surgiram as suas monumentais sinfonias, a sua única e admirável ópera, Fidélio e sua gigantesca Missa Solene.

Sua música de câmara seguiria o mesmo caminho, ficando cada vez mais difícil e complexa. Já não havia como ser tocada por amadores, e foi aí que os quartetos profissionais começaram a surgir.

O embaixador russo em Viena, Andrey Kirillovich Razumovsky, era um fervoroso amante de música. Ele mantinha um quarteto de cordas estável em seu palácio, que fazia apresentações frequentes e tinha um nível musical muito acima da média.

Andrey Razumovsky em 1810, por Lampi, o jovem.

O líder e primeiro violinista deste quarteto chamava-se Ignaz Schuppanzigh, e era um dos melhores amigos de Beethoven.

Neste contexto surgiriam 3 obras primas da música de câmara do século XIX, os quartetos opus 59 de Beethoven, dedicados ao embaixador Razumovsky e estreados por seu quarteto.

Logo o quarteto conseguiria de Razumovsky autorização para apresentar-se a públicos pagantes. Nascia a música de câmara profissional.

O 1o. movimento do quarteto Razumovsky no. 1 tem, em minha opinião, uma das mais belas melodias criadas por Beethoven.

Música Depurada

O que eu quero dizer com “música depurada”?

Sabe, caro leitor, aquele molho reduzido que os grandes chefes fazem? Aquele caldo de legumes que fica horas no fogo baixo, para que a água evapore lentamente, de modo que os aromas mais surpreendentes sejam revelados?

Quando falo em música depurada, é nisso que eu penso!

Voltemos a Beethoven. Com ele o mundo passou a conviver com essa difícil oposição: a busca pelo transcendental, pela beleza inexplicável que a obra de arte musical podia oferecer, e a comezinha necessidade da sobrevivência diária, ligada à música de entretenimento…

Então, coisas surpreendentes passaram a acontecer.

Beethoven tomou sua Sinfonia no. 2, e arranjou-a para um trio com piano.

Mas por que Beethoven fez isso? Por que se dar ao trabalho – enorme trabalho – de reescrever para um pequeno grupo toda uma sinfonia, composta originalmente para dezenas de músicos?

A resposta é simples: naquela época não havia gravação; um potencial fã de Beethoven não podia simplesmente entrar numa loja, comprar um CD de uma de suas sinfonias para ouví-la calmamente em casa. O jeito que o compositor tinha de divulgar sua obra era justamente valer-se do hábito dos músicos amadores de se reunir em casa para tocar. Uma boa parte da aceitação conquistada por compositores naquela época se devia a arranjos de suas obras maiores em versões facilitadas, criadas para este público.

Isso não foi invenção de Beethoven, e muito menos se restringia às obras sinfônicas. Antes dele despontar na cena musical vienense, já era uma prática corrente na ópera.

A Europa estava, já no final do século XVIII, inundada de arranjos e transcrições das mais conhecidas árias de óperas. A pessoa ia ao teatro, se encantava com uma determinada aria, e no dia seguinte ia correndo comprar a partitura para piano, ou para voz e piano, flauta e piano, violino e piano, ou seja lá o que fosse, para tocá-la em casa.

E o inverso também acontecia: convidado a ir à casa de um amigo, ele ouvia a aria, encantava-se, e no dia seguinte ia comprar os ingressos para assistir ao espetáculo.

Isso ajudava muito os autores, executantes e empresários a ganhar seu necessário sustento.

Mas aí voltamos àquela oposição sobre a qual falei: será que um arranjo desses não deturpa a obra de arte? Não a empobrece? É válido?

Nos dias de hoje pergunta-se se espetáculos de música clássica mais “light” como o de André Rieu ajudam o público não conhecedor a ingressar no maravilhoso mundo da música artística… pois é, mais de 200 anos se passaram e a pergunta permanece

Para terminar, deixo abaixo um link para você ouvir o 1o. movimento deste arranjo que o próprio Beethoven fez de sua 2a. Sinfonia.

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Saudações Musicais!

Flávio Varani

Hoje vamos conhecer um pouco da vida e obra de um grande pianista brasileiro: Flávio Varani. Varani foi uma criança precoce: começou a estudar piano ainda muito pequeno, e deu seu primeiro recital aos 7 anos de idade. Com apenas 8 tocou com uma orquestra, a Sinfônica Brasileira, sob a regência do notável maestro Eleazar de Carvalho.

Com treze aos mudou-se para Paris, onde foi estudar com Magda Tagliaferro, uma das maiores pianistas brasileiras e do mundo. Seu primeiro concerto após tornar-se aluno de Magda foi dedicado a obras de Heitor Villa-Lobos, compositor em quem ele se tornaria especialista.

A prova disso é um belíssimo CD gravado em 1997, todo dedicado a peças de Villa-Lobos. Deu ao CD o título de “Cartas da Posteridade”. Este título vem de uma frase escrita certa vez pelo próprio punho do compositor, que diz:

“Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade, sem esperar resposta.”

“Danças Africanas”

As Danças Africanas foram compostas entre 1914 e 1915, quando o compositor não tinha ainda chegado aos trinta anos de idade. Muitos consideram essa a sua fase mais criativa.

Segundo o estudioso Vasco Mariz, Villa teve a ideia de escrever essas peças após assistir uma dança de negros em Barbados. Contudo ele não usou os ritos e melodias que ouviu a ocasião; preferiu usar elementos dos índios caripunas, do Mato Grosso, que, acredita-se, são mestiços de índios e africanos. São três danças com os seguintes títulos: Farrapos, Kankukús e Kankikís.

Flavio Varani – Danças Características Africanas, W085: No. 3, Kankikis

Estas peças estão gravadas no CD “Cartas à Posteridade”, todo dedicado a obras de Villa-Lobos. E faltou dizer que este CD é um marco na carreira de Varani. Graças a este trabalho ele recebeu o prémio de “Melhor CD de Música Clássica” nos anos de 1999, o “Detroit Music Awards”.

“Bachianas Brasileiras nº 4”

O crítico Allen Linkowsk, do American Record Guide, em novembro de 1998, não mediu palavras ao elogiar a gravação. São essas suas palavras:

“Eu aconselho a todos que adicionem esta enobrecedora gravação a sua coleção de CDs. É estupenda”.

E acrescenta:

“As dificuldades técnicas da obra de Villa Lobos são estarrecedoras.”

Diz ainda, especificamente em relação às “Bachianas Brasileiras nº 4”:

“Fiquei admirado com a energia cinética do pianismo que Flávio Varani nos oferece nesta peça. A eletricidade que ele gera é incrível. Faíscas voam de cada nota. Ele é um mestre indiscutível de seu instrumento. Possui controle técnico e uma grande sensibilidade para todos os aspectos da rica tapeçaria musical que Villa-Lobos nos legou.”

Esta obra é pouco tocada em sua versão integral. Ouve-se muito o seu prelúdio, que contém uma das mais conhecidas melodias de Villa-Lobos, e ouve-se pouco os outros três movimentos, que são igualmente encantadores.

Clicando n link abaixo, o leitor poderá ouvir os 4 movimentos que compõem a magistral “Bachianas Brasileiras nº 4”: Prelúdio, Coral, ou canto do sertão, Aria e Dança.

Bachianas Brasileiras No. 4: 1. Prelúdio (Introdução)
Bachianas Brasileiras No. 4: 2. Coral (Canto Do Sertão)
Bachianas Brasileiras No. 4: 3. Ária (Cantiga)
Bachianas Brasileiras No. 4: 4. Dança (Miudinho)

Repertório Abrangente

Além de Villa-Lobos, Varani tem se dedicado com afinco a outros compositores do século XX. Alguns bem conhecidos, como George Gershwin e Aaron Copland, outros nem tanto, e cujo trabalho ajuda a divulgar. Por exemplo o francês Paul Paray e o norte americano Stanley Hollingsworth.

Em 2005 Varani lançou um álbum duplo com a primeira gravação mundial da obra completa para piano de Paul Paray, incluindo uma Fantasia para piano e Orquestra em que é acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Detroit.

Francis Poulenc

Francis Poulenc

Outro compositor do século XX que recebeu especial atenção de Varani foi Francis Poulenc. Em 2004 Varani gravou mais um belíssimo CD, desta vez todo dedicado a este compositor francês, que viveu entre 1899 e 1963. Poulenc é considerado um grande mestre da música vocal e de câmara, mas suas peças para piano solo não são tão conhecidas.

Apesar de ser um pianista virtuoso, o próprio compositor era um tanto inseguro em relação à qualidade de sua obra pianística. Aliás, uma atitude comum a grandes compositores como Brahms ou Paul Dukas, que chegaram a destruir muitas partituras que consideravam indignas de serem divulgadas. Mas no caso de Poulenc, esta dúvida não merece ser levada a sério. Sua obra para piano possui verdadeiras preciosidades, como seus noturnos.

8 Nocturnes, FP 56: III. Les cloches de Malines

Estudos

Magda Tagliaferro

Depois de estudar em Paris com Magda Tagliaferro, Varani, então com 20 anos de idade, foi para os Estados Unidos, onde viveu por décadas.

Estudou em grandes escolas, como a Juilliard School of Music e a Manhattan School of Music, com grandes mestres. Conquistou importantes prêmios, como o primeiro lugar no Concurso Internacional Chopin, em Mallorca, que impulsionou sua carreira internacional.

Frédéric Chopin

Como vimos, dedicou-se muito a Villa-Lobos, bem como a compositores do século XX. Mas como todo grande pianista herdeiro da tradição francesa, não deixaria de reservar espaço em seu repertório para aquele pianista que se não foi francês viveu em Paris e ajudou a fazer dessa cidade uma das capitais musicais do mundo: Frédéric Chopin.

Flavio Varani – Chopin: Piano Sonata No. 2 in B-flat minor, Op. 35

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Clélia Iruzun & Ernesto Lecuona

Caro leitor, hoje vamos conhecer um pouco do trabalho de uma admirável pianista brasileira, que por viver já há muito tempo na Europa, é pouco conhecida por nós. Estou falando de Clélia Iruzun.

Eu conheci Clélia há alguns anos num concerto em São Paulo, onde participei como comentarista. Na ocasião fiquei encantado com sua musicalidade, fluência, e com sua capacidade de fazer o piano cantar.

Estudos

Clélia começou a estudar piano no Rio de Janeiro, quando tinha quatro anos de idade, e ainda muito jovem se transferiu para Londres, cidade onde vive até hoje.

Clélia continuou seus estudos na Inglaterra na Royal Academy of Music, e mais tarde em Paris, com a professora Mercês de Silva Telles, que havia sido aluna do grande pianista Claudio Arrau.

No início de sua carreira Clélia recebeu apoio de dois dos maiores pianistas brasileiros: Jacques Klein e Nélson Freire, bem como do norte americano Stephen Kovacevich.

Destaque no Brasil

E no Brasil, Clélia chamou a atenção de figuras musicais da maior importância, como o compositor Francisco Mignone, que chegou a escrever uma obra dedicada a ela. Anos mais tarde Clélia viria a gravar um CD só com obras deste grande compositor brasileiro.

Além das obras de Francisco Mignone, Clélia tem gravadas obras de e Villa-Lobos e Mendelssohn.

Concerto nº 1 para piano e orquestra – Feliz Mendelssohn

Ernesto Lecuona

Um CD gravado em 2005 por Clélia chamou minha atenção, por ser dedicado a um compositor muito interessante, e que é quase desconhecido no Brasil: o cubano Ernesto Lecuona.

Lecuona foi provavelmente o mais importante músico cubano da primeira metade do século XX. Nasceu em 1895 nos subúrbios de Havana e teve suas primeiras aulas com sua irmã Ernestina. Aos cinco anos ele já dava seus primeiros recitais, e aos 12 já escrevia suas primeiras composições. Também nessa época trabalhava como pianistas de cinema mudo em Havana.

Antes dos 18 anos de idade Ernesto Lecuona formou-se no Conservatório Nacional de Cuba, ganhando uma medalha de ouro em performance por unanimidade dos jurados que compunham a banca de avaliação. Isso, antes de completar 18 anos de idade.

Carreira Internacional

Logo em seguida Ernesto Lecuona iniciava sua carreira internacional com uma apresentação em Nova Iorque.

Ainda antes da 2ª guerra mundial Lecuona viria a fundar a Orquestra Sinfônica de Havana, junto com o compositor e regente Gonzalo Roig. Então chegou o momento em sua carreira em que Lecuona passou a se interessar pela música popular de seu país.

Fundou um grupo chamado Orquestra Cubana, que fez enorme sucesso. Sendo convidada para excursionar pelos Estados Unidos, a Orquestra Cubana teve seu nome trocado para Lecuona Cuban Boys. Tornou-se um grande sucesso internacional e excursionou também pela América do Sul e Europa. O grupo tocava arranjos de danças populares cubanas como congas e rumbas, e chegou a fazer gravações com a cantora Josephine Baker.

Lecuona tornou-se um artista consagrado internacionalmente e radicou-se em Nova Iorque. Faleceu em 1963, nas ilhas Canárias, com 68 anos de idade, durante um período de férias.

Legado

A obra de Lecuona compreende várias zarzuelas, 30 obras sinfônicas, incluindo três para piano e orquestra, 11 trilhas sonoras de filmes, 406 canções, e 176 peças para piano solo, que representam uma significativa contribuição para o repertório do instrumento. Entre as mais famosas está a Suíte Andalucia, composta em 1927, dividida em 6 movimentos: Córdoba, Andalucia, Alhambra, Gitanerias, Guadalquivir e Malagueña.

Lecuona: “Andalucía” (Clélia Iruzun)

Danças Afrocubanas

Andalucia é uma obra que se situa no universo da música erudita espanhola. Mas a obra de Lecuona compreende também um repertório inspirado na música popular cubana. Vale a pena conhecermos sua suíte intitulada Danças Afrocubanas, também formada por seis peças: La Conga de Media Noche, Danza Negra!, Y la negra bailaba!, Danza de los ñañigos, Danza Lucumí e la Comparsa.

Ñañigos é o nome que se dava aos que praticavam os cultos de uma religião chamada Abakua; e Lucumí eram os que participavam do culto chamado Santeria. Abaixo, essa obra com Clélia Iruzun.

Danzas Afro-Cubanas – Danza de los ñañigos

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Música Sacra Moderna

Musica Sacra por Luigi Mussini

Todos nós que apreciamos a boa música de concerto, seja sinfônica ou de câmara, instrumental ou vocal, em geral não nos damos conta da formidável evolução pela qual ela passou durante vários séculos. Esta evolução envolve muitas coisas: desenvolvimento do contraponto, da harmonia, dos instrumentos, das técnicas vocais e instrumentais, e por aí afora. Muito estudo, muita reflexão, muita pesquisa, muito trabalho, muita criatividade.

E tudo começou com uma música bastante simples: o cantochão, que mais tarde viria ser conhecido por Canto Gregoriano e Canto Ambrosiano. Recolhidos a salvo dentro de mosteiros e abadias, muitos dos homens que decidiram dedicar suas vidas à religião, dedicaram-nas também à música, de maneira que a base da música de concerto que apreciamos hoje está na música religiosa.

Pouco a pouco, no transcorrer da civilização ocidental, muitas obras sacras como missas de Mozart ou cantatas de Bach, concebidas para servirem ao culto, passaram a ser executadas como obras de concerto – o que certamente nunca passou pela cabeça desses compositores.

Chegou-se a um ponto em que compositores do século XX e XXI escreveram obras religiosas, sem a intenção as verem executadas em cerimônias religiosas. Temos assim um vasto repertório de música sacra moderna, que não é tocado nas igrejas, e nem é divulgado pelos grandes meios de comunicação.

Igor Stravinsky   

Vamos começar com aquele que é considerado por muita gente o maior compositor do século XX, o russo Igor Stravinsky.

A obra de Stravinsky costuma ser dividida em três fases: a primeira é chamada de Russa ou nacionalista, a segunda é a fase neoclássica, e a terceira, a da música serial.

A fase russa vai até o início da década de 20, e teve como pontos altos os 3 balés escritos para a companhia Ballets Russes, do também russo Sergei Diaghilev: O Pássaro de Fogo, Petrushka e A Sagração da Primavera. Foram obras que impactaram a Europa no início da década de 10.

No início da década de 20 Stravinsky entraria na fase neoclássica, buscando referências na música do passado. Um exemplo clássico desse período é um outro balé, chamado Pulcinella. Escrito em 1920, é baseado em música do século XVIII, reescrita e modificada.

A partir de então, o compositor se debruçou sobre partituras antigas, e manteve-se nessa fase neoclássica até o final da década de 40. Evidentemente ele não se ateve apenas a reescrever obras do passado, mas criou muita música original seguindo regras básicas dos estilos de séculos anteriores. É o caso de sua Missa, estreada em 1948.

Em 1942, Stravinsky decidiu escrever algo que ele mesmo qualificou como uma “Missa de verdade”. Com isso ele se referia a uma Missa Católica, musicando o texto original em latim, e ainda mais, de uma maneira tal que a música pudesse até mesmo ser usada na liturgia.

Em muitos momentos, Stravinsky usa a polifonia típica dos compositores do final da idade média e renascença; em outros, a preocupação com a inteligibilidade do texto faz com que ele use as vozes homofonicamente.

A partitura requer um coro misto, vozes infantis e 10 instrumentos de sopro. Foi estreada em Milão, dirigida pelo Maestro Ernst Ansermet. Nessa época Stravinsky havia fixado residência nos Estados Unidos, e foi ele mesmo quem dirigiu a estreia naquele país, em fevereiro de 1949.

Missa – Sanctus

Krzysztof Penderecki

Penderecki iniciou seus estudos de composição na Academia de Música de Cracóvia, em 1954. Foi um aluno excepcional. Alcançou as mais altas notas e impressionou tanto os professores que imediatamente lhe foi oferecida uma cadeira de professor de composição no Conservatório, com uma classe exclusiva para si.

No ano seguinte inscreveu três peças em um concurso de composição organizado pela Associação Polonesa de Compositores, e conquistou os três primeiros lugares. Novos prêmios se seguiram, e em 1972 Penderecki recebeu o convite para ser professor visitante numa das mais importantes universidades norte-americanas, a Universidade de Yale. Tornou-se uma das maiores celebridades da música de concerto internacional.

Apesar de ser um compositor extremamente radical e experimentalista, Penderecki aproximou-se desde cedo da música religiosa. É interessante observar que isso aconteceu com frequência entre compositores originários de países do chamado bloco soviético. Durante décadas o regime comunista de Moscou tentou suprimir a prática religiosa na Rússia e nos países por ela dominados, mas não obteve sucesso. Na Polônia a igreja sempre manteve suas atividades, e Penderecki chegou a declarar que compunha música sacra simplesmente porque era proibido.

Dentre as várias obras religiosas que escreveu, a Paixão Segundo Lucas é um marco. Escrita entre 1963 e 1966, chamou a atenção por ser uma obra de grandes proporções, de genuíno sentimento religioso, escrita em linguagem de vanguarda, em um país cujo governo não aprovava nem a religião, nem a música de vanguarda.

Além da Paixão Segundo Lucas, Penderecki também escreveu os Salmos de David, um Stabat Mater, um Dies Irae, um Te Deum, um Agnus Dei, duas missas de Requiem, um Credo, Um Benedictus…. a lista é longa.

Clicando abaixo você pode ouvir de Penderecki uma peça religiosa de grande dimensão. É o “Et Ressurrexit tertia die” – E Ressuscitou no 3º dia. Trata-se de um movimento de uma oba maior, o Credo, composta já no século XXI, e estreada em 2003.

Assim como Stravinsky fez com sua Missa, Penderecki valeu-se aqui do texto tradicional em latim, o mesmo usado por compositores desde a renascença. É uma obra de grande força sonora, que inclui solistas, coro adulto, coro infantil e orquestra.

Credo – Et resurrexit tertia die

Olivier Messiaen

Deixando a Polônia, caminhamos um pouco mais para o ocidente para nos encontrarmos com um dos mais originais compositores do século XX, o francês: Olivier Messiaen que viveu entre 1908 e 1992.

De todos os compositores apresentados aqui, Messiaen é sem dúvida o mais religioso. Católico devoto, foi organista de igreja por mais de 50 anos, e quase todas suas obras são de natureza religiosa.

É considerado por muita gente o mais criativo compositor francês depois de Debussy. Diferente de muitos contemporâneos seus que buscavam uma linguagem musical pessoal, avançada, e fundamentalmente abstrata, Messiaen foi buscar inspiração nos cantos dos pássaros, na religiosidade, nos ritmos gregos e da Índia, nos timbres do gamelão javanês, entre outras coisas. Após ouvir algumas obras de Messiaen, fica difícil confundi-lo com outro compositor. Seu estilo é único.

Sua obra mais conhecida foi composta quando ele era prisioneiro durante a segunda Grande Guerra. Havia na prisão 4 instrumentos musicais disponíveis, um piano, um violino, uma clarineta e um violoncelo. Para eles Messiaen escreveu o impressionante “Quarteto para o fim dos tempos”.

Ao ser libertado, em 1941, Messiaen foi indicado professor de harmonia no conservatório de Paris. Em 1966 tornou-se professor de composição na mesma escola, onde ficou até 1978. Foi professor de importantes compositores do século XX, como Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen, entre outros.

Abaixo pode-se ouvir de sua autoria um trecho da obra intitulada Visões do Amém. É uma composição curiosa: embora seja de inspiração religiosa, não há vozes, não há texto. É puramente instrumental, concebida para dois pianos, apenas. O próprio compositor escreveu sobre ela:

Amém tem quatro significados diferentes:

  • Assim seja, o ato criativo.
  • Eu aceito, assim será feito!
  • O desejo, a vontade de que seja assim.
  • Está feito, isto é para sempre, consumado no Paraíso.

Adicionando a isso a vida das criaturas que dizem amém pela sincera natureza de suas existências, eu tentei expressar a variada riqueza desta palavra em sete visões musicais.
1ª) O amém da Criação
2ª) O amém das estrelas e de Saturno, o planeta com anéis.
3ª) O amém da agonia da morte de Jesus
4ª) O amém do desejo
5ª) O amém dos anjos, dos santos e do canto dos pássaros
6ª) O amém Julgamento
7ª) O amém da consumação

O amém dos anjos, dos santos e do canto dos pássaros

Arrigo Barnabé

Gostaria de apresentar a quem ainda não conhece a personalidade de Arthur Bispo do Rosário, nascido em 1909 ou 1911, não se sabe ao certo, e falecido no Rio de Janeiro, em 1989. Considerado louco por alguns e gênio por outros, teve uma vida surpreendente, que desperta debates calorosos sobre os limites entre a loucura e a arte.

Bispo era negro, descendente de escravos. Foi marinheiro e depois empregado de uma rica família do Rio de Janeiro. Quando estava com aproximadamente 30 anos, passou a ter alucinações. Bateu à porta de várias igrejas cariocas, até que, no Mosteiro de São Bento, disse aos monges que era um enviado de Deus. Dois dias depois foi preso e levado para um asilo. Um mês depois, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde, sob o diagnóstico de esquizofrenia, permaneceu por mais de 50 anos.

Após algum tempo, Bispo passou a produzir objetos com lixo e sucata, que, surpreendentemente, foram classificados como arte de vanguarda e comparados às obras do francês Marcel Duchamp. Apesar de ter passado toda sua vida numa instituição conhecida por muito tempo como reclusão de indesejáveis em geral, é considerado uma das maiores referências da arte contemporânea do Brasil.

Pois bem, a Artur Bispo do Rosário foi dedicada uma missa composta por um dos mais importantes compositores brasileiros da atualidade: Arrigo Barnabé.

Arthur Bispo do Rosário

No CD em que está gravada a obra Arrigo escreveu: “Agradeço a Artur Bispo do Rosário pelo exemplo de renúncia, resignação e compaixão”

Essa missa foi composta especialmente para o evento “Ordenação e Vertigem”, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, de 2 de agosto a 12 de outubro de 2003”.

Segue estritamente o texto em latim da missa católica, e foi escrita para uma instrumentação bastante incomum, da qual Arrigo extrai timbres instigantes: além do coro temos um violino, uma viola, um violoncelo, um piano, um cravo, flautas doces, crumhorn e fagote.

Agnus Dei – Missa In-Memoriam Arthur Bispo do Rosário

Para muita gente o mundo extremamente materialista de nosso tempo guarda pouco espaço para a religião. E para mais gente ainda, a música experimental, de vanguarda, não é propícia para refletir sentimentos religiosos. Porém, esses compositores que ouvimos hoje pensam diferente. Muita gente não gosta das sonoridades às vezes ásperas e dissonantes do experimentalismo musical; mas talvez essas sonoridades também possam exprimir muito bem os mistérios da vida e do espírito.

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