🎭 A Máscara Negra 🎶

Olá pessoal.

Escrevo este texto no mês de fevereiro; por isso, tive vontade de compartilhar com vocês um texto sobre carnaval. 


Carnaval e música, é claro.  😊


Pois bem, carnaval sempre me faz lembrar de uma música que me causou uma forte impressão ainda na infância: 


Uma marcha-rancho, foi composta por Zé Keti e Pereira Matos para o Carnaval de 1967, tornando-se um enorme sucesso na voz de Dalva de Oliveira.

Dalva de Oliveira

Eu tinha apenas sete anos de idade, mas me encantei com aquela melodia maravilhosa, a ponto de decorar a letra de tanto a cantarolar.

Um de seus versos, porém, me encafifou:


E logo depois, eu ouvia outro que produzia o mesmo efeito:


Não fazia muito tempo que eu tinha sido alfabetizado, de modo que estranhei muito aquelas palavras: Pierrô, Colombina, Arlequim…


Perguntei para meu pai, para minha mãe, mas eles não sabiam seus significados.
Também minha professora não soube me explicar direito.
Disse que eram “personagens”, e só.O que me deixou ainda mais insatisfeito.

Pierrô, Colombina e Arlequim.

Bem, logo eu esqueci o assunto e segui a vida.


Porém, na adolescência, já estudando música seriamente, eu comecei a encontrá-los de novo!  As palavras e os personagens.


Só que dessa vez, no contexto da música clássica! 


Bem, minha curiosidade sobre o assunto voltou, e ainda mais forte.
Afinal de contas, o que esses personagens que eu julgava carnavalescos, tinham a ver com música erudita?


Schumann, por exemplo, tem uma peça para piano chamada Arlequim, e outra chamada Pierrô.
E as duas fazem parte de uma suíte chamada “Carnaval”.

A famosa ópera “Pagliacci”, de Ruggero Leoncavallo falava de uma “Colombina”.

E qual não foi meu espanto, quando descobri o “Pierrot Lunaire”, de Arnold Schoenberg, numa apresentação em São Paulo que ficou para a história!

Caro leitor, cara leitora, não vou dar mais exemplos para não deixar o texto chato. 

Apenas cito rapidamente mais alguns nomes que também seguiram por este caminho: Paganini, Berlioz, Dvorak, Debussy, Tchaikovsky, Stravinsky, Prokofieff, Massenet, Chaminade….

Quanto mais eu estudava música, mais me deparava com Arlequim, Pierrô e Colombina retratados musicalmente por grandes compositores.


Fui assim entendendo que os grandes compositores eruditos, apesar de nunca terem tido a oportunidade de sequer imaginar o que era o samba, também criaram sua música de carnaval.

Historicamente, as máscaras permitiam que nobres e plebeus se misturassem sem julgamentos, eliminando temporariamente as distinções de classe. 


Funcionavam como um símbolo de liberdade e transgressão, permitindo comportamentos que seriam proibidos no dia a dia, como o jogo ou a frequência a locais de má reputação sem comprometer a identidade. 


Modelos icônicos como a Bauta veneziana são marcos desta tradição.

Uma “Bauta” veneziana

Na Península Ibérica, em comunidades rurais, durante o ciclo carnavalesco as máscaras encarnam figuras grotescas ou diabólicas, como os Caretos em Portugal.

Eles simbolizam a expulsão de maus espíritos, a fertilidade e a vitalidade da comunidade no fim do inverno.

Caretos de Podence, cidade no extremo noroeste português


Outro exemplo fascinante na Europa é o Carnaval de Binche, na Bélgica.

Os personagens principais, chamados Gilles, usam máscaras de cera idênticas, caracterizadas por óculos verdes, bigodes finos e pequenas costeletas. 

A uniformidade visual simboliza a igualdade total entre os participantes durante a festa.


A máscara é um símbolo de identidade tão forte que, por lei local, só pode ser usada em Binche.


É estritamente proibido sentar-se ou estar bêbado enquanto se usa o traje de Gille em público!

Os Gilles no Carnaval de Binche, na Bélgica


O leitor pode estar se perguntando por que só dou exemplos europeus.


Sim, poderia falar de maravilhosos exemplos africanos…

FESTIMA,  festival de máscaras em Dédougou, norte de Burkina Faso

… ou asiáticos…

Festival Dinagyang na Cidade de Iloilo, nas Filipinas

Contudo, minha intenção é justamente mostrar o caminho para entendermos como os compositores eruditos europeus alimentaram sua música com o espírito do Carnaval.


Sempre interessados em explorar diferentes estados de espírito através da linguagem musical, muitos compositores sentiram-se atraídos pela liberdade oferecida pela súbita sensação de igualdade social, bem como pelos mistérios das conexões espirituais.


O resultado foi um número bem grande de obras musicais muito interessantes!!!

Espero que tenha gostado da leitura! ðŸ™‚

E caso a leitora ou o leitor queiram continuar a explorar esse fascinante caminho, basta escrever um comentário dizendo que sim!

Saudações Musicais do maestro João Mauricio Galindo.

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